Empresários e trabalhadores: reféns da mesma crise – Parte 2 – por Osvaldo Euclides

Empresários e trabalhadores podem eventualmente sair ganhando quando as circunstâncias favorecem uns em detrimento de outros. O pior cenário é aquele em que os dois perdem. Mas não há dúvida de que o ideal é a conjuntura em que os dois ganham. Os empresários porque há demanda crescente por seus produtos e serviços. O trabalhador quando há emprego e salários crescentes. Isso não é tudo, mas é o principal. E é exatamente o que falta agora e já falta há quatro anos, quando o Brasil deu um cavalo de pau na economia e na política.

O empresário deve sair ao fim das mudanças recentes e em curso com uma economia potencial relevante de encargos trabalhistas e previdenciários, tudo indica, assim como a conta se fechará com perdas dos trabalhadores. Entretanto, o mercado foi afetado profundamente pela incerteza e pela desconfiança e mesmo para quem pode sair ganhando, o preço em termos de desorganização e queda de demanda tem sido muito alto. Entre eles, os empresários conversam sobre isso e reconhecem, mas nada podem fazer – é que o comando da economia está nas mãos das lideranças do mercado financeiro, industriais e comerciantes influenciam cada vez menos.

Não custa lembrar: o salário e os eventuais aumentos salariais do trabalhador se transformam quase cem por cento em demanda, que, por sua vez, beneficia empresários. O lucro do empresário, entretanto, não volta para o mercado em forma de demanda. E, nas circunstâncias atuais, também não se transforma em investimento – ele tende quase cem por cento a ser entesourado, vira reserva do empreendedor.

Ninguém de sã consciência é capaz de dizer hoje o que vai acontecer com a economia brasileira. O presidente que acabou de passar a faixa não apresentou nenhum projeto e nenhuma proposta à sociedade, apenas executou algumas transações e passou duas reformas (Teto de Gastos e Reforma Trabalhista), que jamais foram discutidas com a sociedade, embora tenham sido apresentadas como ‘consenso’. O presidente que recebeu a faixa elegeu-se em condições singulares, não apresentou projeto econômico, nem participou de debates no segundo turno. Portanto, voa o Brasil em vôo mais ou menos cego, conforme alguém tenha ou não informação de cocheira.

Nesse contexto, o superministro da economia deu uma declaração dizendo que baixará a carga tributária no Brasil de 36% do PIB para 20% do PIB. Ninguém deu bola. Por que? Será que ninguém acreditou? Ele desistiu?

Para alcançar uma mudança tão radical, vai ser preciso muito mais do que um ‘pacote’. Pense em algo também muito maior do que um ‘choque’. Imagine um terremoto seguido de tsunami diluídos em meses. Exagero? Façam suas apostas, paguem pra ver.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.