EM TEMPOS DE PANDEMIA, HÁ LOUCURAS COM ALGUMA VALIA

Em acabrunhamentos de adversidades, com forte tendência a questionamentos acerca da minha condição humana, costumo valer-me de um provérbio persa, cuja máxima me faz ver a vida com outros olhos, menos inclementes e severos e mais tolerantes e compreensivos, – e isso sempre me leva ao reconhecimento de quão significativo tem sido o natural curso da minha existência terreal – e cuja citação ora aqui também faço, não pela razão de sempre: “Reclamava porque não tinha sapatos, até encontrar um homem que não tinha pés”.

Quando me impuseram o uso do cinto de segurança durante o ato de dirigir, esbravejei: Isso não! Extrapolam no quesito “abespinhar-me”! Lembrei-me, então, de quando me obrigaram a portar no carro o inútil kit de primeiros socorros, institucionalmente padronizado, cuja tesourinha, por exemplo, nada cortava, ou seja, não oferecia qualquer serventia. E vociferei: Isso não! É intromissão demais dos gestores públicos em minha privada vida!

Entretanto, o bolso, nas duas situações, levou-me à necessária adaptação. Não adianta espernear, somos animais domáveis. Uns mais; outros menos; mas somos.

Agora, contritamente confesso: jamais imaginei que um dia seria forçado a usar máscara; eu que sofro de rinite alérgica, crônica, e respirar, pra mim, chega, às vezes, a ser deprimente. E, como se isso não bastasse, submetem-me ao distanciamento social e ao consequente isolamento domiciliar, refúgio doméstico: Fique em casa! E, se precisar sair, use a máscara! A rigor, cerceiam-me o direito à liberdade de ir e vir. Apenas penso; já não mais esperneio.

Ocorre que a luta pela vida – a minha e a dos outros – reclama que eu me adapte. E, calma e brandamente, ajusto-me a esta nova realidade. Sem resistências. Sem esbravejos. Sem vociferos. Sem estrebuchamentos.

Acho que, descalço, encontrei o triste homem ápode.

O álcool em gel e a água com sabão agora acompanham-me diuturnamente. Tanto é verdade que, numa fria manhã de chuva fina e intermitente, em autoexílio na minha ilha de criação, envolvido num processo de produção textual, surpreendo-me ante a percepção de que um forte e estonteante cheiro de álcool invade as minhas desprotegidas narinas. A esse inopinado tormento, segue a sensação de que até a minha alma já cheira a álcool. Epa! Isso pode dar samba… se carioca eu fosse. Recebo, na memória, o Gilberto, o bom baiano Gil, que, poeticamente sobe no Palco, com a alma cheirando a talco…

Suspendo o que faço. Proponho-me a fazer algo diferente. Arrisco-me a produzir paródias que, por definição, consistem em “obras literárias, teatrais ou musicais que imitam outra obra, ou os procedimentos de uma corrente artística ou escola, com objetivo jocoso ou satírico”. E assim nasce Pacto, com muitos pontos de contato com o Palco de Gil e atual jocosidade. Confiram.

 

PALCO (Gilberto Gil)

Subo nesse palco, minha alma cheira a talco / Como bumbum de bebê, de bebê / Minha aura clara, só quem é clarividente pode ver / Pode ver // Trago a minha banda, só quem sabe onde é Luanda / Saberá lhe dar valor, dar valor / Vale quanto pesa, pra quem preza o louco bumbum do tambor / Do tambor // Fogo eterno pra afugentar / O inferno pra outro lugar /Fogo eterno pra consumir /O inferno fora daqui, fora daqui // Venho para a festa, sei que muitos têm na testa / O deus-sol como um sinal, um sinal / Eu como devoto / Trago um cesto de alegrias de quintal, de quintal // Há também um cântaro, quem manda é Deus a música / Pedindo pra deixar, pra deixar / Derramar o bálsamo, fazer o canto cantar / Cantar

PACTO (Xykolu)

Sinto-me no laço, minha alma cheira a álcool / Como boca de bebum, bebum, hein! / Atrás da grade férrea, só quem é contagioso me mantém / Me mantém // Ponho minha máscara, só quem sabe onde é Wuhan / É quem vai lhe dar valor, dar valor / Velo por quem amo, prezo quem louva toda forma de amor / De amor // Álcool em gel pra afugentar / O corona pra outro lugar / Sabão e água pra destruir / Aquele que vier até aqui, até aqui // Olho pelas frestas, vejo até quem já aceita / Vir de Deus tão grande mal, este mal / Eu como cristão não cultivo isso em meu quintal, meu quintal // Ali um Saramago: quem rege é Deus a leitura / E o tempo vai passar, vai passar / Renascer: o brilho de um novo sol vai brilhar / Vai brilhar

 

Gostei da ideia. Adorei o resultado. Publiquei na página que mantenho no Facebook. Houve boa receptividade. Estímulo para novas aventuras. Para quem se sente bem enfrentando riscos, a paródia surgiu como uma boa opção de enfrentamento à solidão, ao refúgio da quarentena. Voei tal qual beija-flor.

Alguns dias depois, envolvi-me agradavelmente com o projeto de parodiar João Bosco e Audi Blanc e o poema musical O bêbado e a equilibrista que os dois assinam, o que me permitiu relembrar, ainda em tempos de pandemia e distanciamento social, sob o natural encantamento e deslumbramento, a interpretação inimitável da imortal Elis Regina. Apreciem.

 

O BÊBADO E A EQUILIBRISTA (João Bosco e Audi Blanc)

Caía a tarde feito um viaduto / E um bêbado trajando luto / Me lembrou Carlitos / A lua tal qual a dona de um bordel / Pedia a cada estrela guia / Um brilho de aluguel // E nuvens lá no mata-borrão do céu / Chupavam manchas torturadas / Que sufoco! / Louco! / O bêbado com chapéu-coco / Fazia irreverências mil / Pra noite do Brasil / Meu Brasil // Que sonha com a volta do irmão do Henfil / Com tanta gente que partiu / Num rabo de foguete / Chora / A nossa Pátria mãe gentil / Choram Marias e Clarisses / No solo do Brasil // Mas sei que uma dor assim pungente / Não há de ser inutilmente / A esperança / Dança na corda bamba de sombrinha / E em cada passo dessa linha / Pode se machucar // Azar! / A esperança equilibrista / Sabe que o show de todo artista / Tem que continuar

O BOBO E O MITO (Xykolu)

Fluía a vida feito um aqueduto / E um bobo irresoluto / Cultuou um mito / A rua tal qual mulher deixada ao léu / Silente, tonta e vazia / Sonhou com um menestrel // E luzes suaves sob um cinza e débil véu / Iluminavam só o quase-nada… / Muito pouco! / Tosco! / O bobo com sorriso tosco / Aclamava incoerências mil / Do mito do Brasil / O meu Brasil // Que torce pra queda da curva viral / E por quem já se descobriu / Com a coroa tão letal / Sofre / Tanta gente já febril / Sofrem os Josés e as Marias / Nas UTIs do Brasil // E mesmo ante essa dor tão deprimente / O mito faz o bobo ir adiante / E ele avança / Surfa na onda de uma “gripezinha” / E, quanto mais assim caminha, / Riscos há de se afogar // Mas há / A esperança alva dos jalecos… / E, se a Morte lhe sorri assim de perto, / Evite um mito imitar

 

Na sequência, revisito Cartola e a sua música-poema As rosas não falam, uma oferenda do poeta-compositor à amada Zica, que costumava conversar com as rosas do jardim de sua modesta casa. O dileto pinho, companheiro predileto de todas as horas, mais ainda quando a situação se prenunciava crucial, deu, com maviosos acordes, o toque especial à genial criação. E a minha modesta paródia se faz assim. Avaliem.

 

AS ROSAS NÃO FALAM (Cartola)

Bate outra vez / Com esperanças o meu coração / Pois já vai terminando o verão / Enfim // Volto ao jardim / Com a certeza de que devo chorar / Pois bem sei que não queres voltar / Para mim // Queixo-me às rosas / Mas que bobagem / As rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti, ai! // Devias vir / Para ver os meus olhos tristonhos / E, quem sabe, sonhavas meus sonhos / Por fim

OS RISCOS NÃO FALHAM (Xykolu)

Ó insensatez! / De quem avança na contramão / Pois vai desmerecendo a missão / Assim // Rijo marfim / Com a mania de tanto teimar / Pois tu jamais admites mudar / És o fim // Expõe-te a riscos / Absurda coragem / Os riscos não falham / Velozmente os riscos se espalham / Até entre os que creem em ti, ai! // Confiam em ti / E a ti seguem como idólatras / Nos arroubos de poder, ó ególatra, / Põe fim!

 

Bem, nem só de flores se forma um jardim; há que haver espinhos. E aí o nosso presidente, o teimoso e destemido Messias, em mais uma de suas incontáveis bravatas, detona dois petardos que me fazem retroagir aos obscuros tempos do golpe de 1964: “Chegamos ao limite” e “faremos cumprir a Constituição”. Tremi nas bases. Revi um amigo de meu pai, presidente da Câmara Municipal de minha terra, desfilar pelas ruas da cidade, algemado, humilhado, sentado no piso da caçamba traseira de um jipe do Exército brasileiro, sob armas de sisudos soldados, subtraído do seu normal cotidiano, o sistema de exceção vomitando poder. Apesar de que são outros os ares que ora respiramos, com ou sem máscaras, o proceder palaciano me incomoda. E muito. Há quem sonhe com o retrocesso, com o retroagir aos nada saudosos tempos da ditadura, da lei da chibata, do ilusório “Ame-o ou deixe-o!”. E aí revisitei Geraldo Vandré e o seu clássico Pra não dizer que não falei das flores que, com Cálice, de Chico Buarque, diz bem o que é um regime de exceção, quando muita gente desaparece simplesmente por não concordar com o sistema estabelecido. E eu parodiei Vandré. Julguem.

 

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES (Geraldo Vandré)

Caminhando e cantando e seguindo a canção / Somos todos iguais braços dados ou não / Nas escolas, nas ruas, campos, construções / Caminhando e cantando e seguindo a canção // Pelos campos há fome em grandes plantações / Pelas ruas marchando indecisos cordões / Ainda fazem da flor seu mais forte refrão / E acreditam nas flores vencendo o canhão // Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer / Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer // Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam antigas lições / De morrer pela pátria e viver sem razões // Nas escolas, nas ruas, campos, construções / Somos todos soldados, armados ou não / Caminhando e cantando e seguindo a canção / Somos todos iguais braços dados ou não // Os amores na mente, as flores no chão / A certeza na frente, a história na mão / Caminhando e cantando e seguindo a canção / Aprendendo e ensinando uma nova lição // Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer / Vem, vamos embora, que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

JAMAIS DIGAM QUE EU NÃO FUGI AO VÍRUS (Xykolu: Eu não sou tão corajoso assim!)

S’isolando, reclusos, apostando em proteção / ‘Stamos todos em casa, juntos em única missão / Fechamos templos, escolas, comércio, edificações / S’isolando, reclusos, acreditando em proteção // Nos campos se perdem, sem vendas, frutos e grãos / Nas ruas e praças. o silêncio, o vazio, indefinição / Em lives, artistas defendem sua identificação / E creem que homens e vida se reencontrarão // Quem, nest’hora, pensa em se arrepender?! / Viver assim no agora inspira outro amanhecer / Quem, nest’hora, pensa em se arrepender?! / Viver assim no agora inspira outro amanhecer // Há obtusos, coitados, indo na contramão / Todos já desprovidos da mais mínima razão / Menosprezam até as higienizações / E adoram promover as aglomerações // Fechamos estádios, teatros e até lotações / ‘Stamos em casa, sonhando com a proteção / S’isolando, reclusos, livros e terços nas mãos / ‘Stamos todos em casa, juntos na mesma missão // O futuro na fé, nada feito em vão / Crendo no amanhã, só o hoje é prisão / S’isolando, reclusos, eis a nossa proteção / Sempre dispostos a aceitar uma nova missão // Quem, nest’hora, pensa em se arrepender?! / Viver assim no agora inspira outro amanhecer / Quem, nest’hora, pensa em se arrepender?! / Viver assim no agora inspira outro amanhecer

 

Domingo último, a minha pretensão era de homenagear as mães, no seu então pouco festivo dia, com a publicação no Facebook de uma paródia que se lhes referisse. Optei, entretanto, pelo conto Seja feita a vossa vontade…, em que narro “a experiência de vida que me marcou indelevelmente para todo o sempre, que mudou fundamentalmente a minha trajetória de vida.” Agora, me debruço sobre a música Rosa, atribuída exclusivamente a Pixinguinha, autor da melodia, cujo letrista, com quem dividiria a autoria, embora envolto em enigma que se arrasta desde sempre, é, no meu exclusivo entender, o mecânico Otávio de Souza, que morreu muito jovem. E eu me meto entre eles. Embora alguns críticos a julguem nonsense, ou seja, desprovida de coerência ou até um amontoado de versos que não se interligam como deviam, a letra reúne, na essência, elementos de exaltação à Mulher, cujo papel de maior simbolismo – e até glorificação – é, sem dúvida, o de Mãe. Vejam o resultado da minha sadia intromissão.

 

ROSA (Pixinguinha)                                                   

Tu és divina e graciosa / Estátua majestosa do amor / Por Deus esculturada / E formada com ardor / Da alma da mais linda flor / De mais ativo olor / Que na vida é preferida pelo beija-flor / Se Deus me fora tão clemente / Aqui nesse ambiente de luz / Formava numa tela deslumbrante e bela / Teu coração junto ao meu lanceado / Pregado e crucificado sobre a rósea cruz / Do arfante peito teu / Tu és a forma ideal / Estátua magistral / Oh, alma perenal / Do meu primeiro amor, sublime amor / Tu és de Deus a soberana flor / Tu és de Deus a criação / Que em todo coração sepultas um amor / O riso, a fé, a dor / Em sândalos olentes cheios de sabor / Em vozes tão dolentes como um sonho em flor / És láctea estrela / És mãe da realeza / És tudo enfim que tem de belo / Em todo resplendor da santa natureza / Perdão se ouso confessar-te / Eu hei de sempre amar-te / Ó flor, meu peito não resiste / Ó meu Deus, o quanto é triste / A incerteza de um amor / Que mais me faz penar em esperar / Em conduzir-te um dia / Ao pé do altar / Jurar, aos pés do onipotente / Em preces comoventes de dor / E receber a unção da tua gratidão / Depois de remir meus desejos / Em nuvens de beijos / Hei de envolver-te até meu padecer / De todo fenecer

MULHER (Xykolu)

Mulher, sublime e generosa, / Princípio inaugural do amor, / Tu foste a preferida, / A escolhida, por louvor, / De todas, a de maior fervor, / Do mais excelso favor, / Pra ser mãe do profeta do Amor. / Se poeta fosse, benevolente, / Que com a palavra conduz / A criação de poemas cativantes e belos, / Tua condição maternal ilustrava, / Exultava, emoldurada em rosa e luz, / O elegante pendor teu. / Tu és um ser divinal, / Imagem angelical, / Oh, anjo imortal! / Pra mim, és a razão do amor, eterno amor. / Mulher, és flor de agradável olor! / Mulher, fonte de inspiração! /  Que faz todo poeta proclamar o amor, / A vida, a paz, a dor, / Em versos que encantam até teu Criador, / Em rimas eloquentes de bom versejador. / És rósea criatura! / És toda candura! / És, enfim, toda formosura! / És a esplendorosa fruição da Natureza! / Desculpas quem ousa adorar-te… / Hei de sempre venerar-te. / Ó Amor, tu jamais desistes / De a Deus louvar: tu existes! / Na grandeza do teu amor, / Que ainda me faz na vida confiar, / E acreditar – bem diria – / Na paz do lar. / Orar, no altar do Deus bondoso, / Em agradecimento e louvor, / Por dignar-me a graça da tua missão, / Dos teus enleios e até ensejos. / Em lídimo tributo, / Hei de reverenciar-te por aceder / O teu justo merecer.

 

Cada louco tem suas manias, diz a sabedoria popular. Em tempos de pandemia, ante o temor natural de enfrentar um inimigo invisível, declaro-me estar consciente de que cometo algumas loucuras, mas, no limite do que me é possível, esforço-me para dotá-las de alguma valia… pra mim e pros meus semelhantes. Ipso facto.

 

 

 

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.