Em nome do pai, dos filhos e do espírito (nada)público, por EMANUEL FREITAS

 

Jair Bolsonaro ocupa a cadeira presidencial, desde 1º de janeiro, em grande parte por ter convencido o eleitor de que representava uma “novidade”, mesmo compondo a tão desgastada classe política há mais de 30 anos, como um irrelevante parlamentar (melhor seria alcunhá-lo como um parlapatão).

De “novidade” mesmo, para aqueles que como o autor desse texto acompanham de perto a política brasileira como ofício profissional, Bolsonaro não tinha nada: três décadas como parlamentar (parlapatão), todos os filhos (com idade para isso) na política, suspeita de emprego de funcionários fantasmas etc. Mas, podemos considerar uma “novidade” que, de fato, o tal mito representa: é o primeiro presidente a, no exercício do mandato, ter filhos com mandatos políticos.

José Sarney não os tinha à época de seu mandato; nem Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma ou Temer. Acossados por inúmeros problemas em seus mandatos, o de terem seus filhos envolvidos em práticas escusas enraizadas na política brasileira não os lançou nas manchetes de jornais.

Ao que me lembro, Sarney teve de se explicar, acerca disso, somente em 2009, no escândalos dos “atos secretos”, e o fez por questões ligadas à neta, que não tinha mandato. Por sua vez, as inúmeras “posses”, dentre elas a da FRIBOI, por parte do filho de Lula são detestáveisfake news que nem valem a pena comentar.

O fato objetivo é que só o tal mito tem filhos com mandatos parlamentares. E são em número de três. O zero três, Eduardo, já lhe trouxe problemas durante a campanha, com a sugestão de “fechar o STF”, ação para qual só seria necessária a ação de “um cabo e um soldado”. Após a diplomação, o “garoto” continuou com empreitadas contra os parlamentares do PSL, sobretudo Joice Hasselman, uma bolsonaristapar excellence. O zero um, Flávio, abalou o início do governo de seu pai com a revelação dos negócios escusos de seu assessor, Queiroz, e dos possíveis envolvimentos de seu gabinete com pessoas ligadas às milícias.

Agora, é a vez do zero dois, Carlos, ser o responsável pela primeira crise institucional do governo de seu papai. O querido “pitbull” tem efetuado insistentes ingerências no governo, o que tem sido alertado por muitos membros do governo e da opinião pública. O vereador do Rio de Janeiro, despreocupado com suas funções de alcaide, tem se dedicado à monitorar os passos dos homens em volta do governo, que parece entender como uma extensão de sua casa, seja por meio de interferências diretas (como o recente episódio envolvendo Bebiano), seja por meio de seu twitter (onde alfineta políticos, imprensa e membros do governo) ou por outros meios.

Além de ser atingido pela revelação de práticas enraizadas na política brasileira cometidas por seus garotos (como as listadas acima), posto que também eles são alvos (ainda bem) de investigações da imprensa e dos órgãos de fiscalização, Bolsonaro ainda tem que lidar com o fato de que, como políticos, creem-se legitimados para interferirem nos negócios do Estado, pois o Brasil agora pertence “ao papai” que, vale lembrar, foi alcunhado por eles como “mito”. É a primeira vez que temos um tal quadro. Isso, pois, me parece ser, de fato, a novidade bolsonárica.

Nada mais à brasileira do que a entrega do Estado aos interesses e aos mandos da família que, sabemos desde Gilberto Freyre, atuou como a unidade fundadora da sociedade brasileira e, ainda onde, persiste em voltar o Estado a seus interesses. O clã em questão apenas levou isso, com “mandato e tudo”, para dentro do Planalto.

Assim, tendo “deus acima de todos”, resta-nos uma política realizada em nome do Pai Bolsonaro, dos Filhos zero um, zero dois, zero três, e do espírito nada público.

Amém!

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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