Eleições 2018: Partido de direita se organiza, por Josênio Parente

Nas vésperas das eleições gerais de 2018, o quadro surpreende, pois chega à última semana antes do primeiro turno com a tendência de se consolidar entre o PT e o inexpressivo PSL. Melhor ainda, uma nova direita, pré-partidária, se organiza e a tradicional esquerda, já organizada como partido político. Essa surpreendente e aparente irracionalidade o vemos como um momento de inflexão do processo democrático que se iniciou com a redemocratização.

Desde 1985, as tradicionais disputas eleitorais para presidente da República eram entre o PSDB e o PT, como dizíamos em artigos anteriores, pelo centro político. Apenas por duas vezes o MDB toma posse por ter participado como vice-Presidente, substituindo os titulares que sofreram processos de “impeachment”. A direita liberal, desorganizada inicialmente, surpreende. A tradicional disputa entre o PSDB com o PT foi a base do sistema político que se estruturava e foi abalado com a especificidade desta eleição que apresentou uma direita que vinha, silenciosamente, se organizando.

A direita liberal tem dois momentos de se aproximar do poder político. Em 1989, o inexpressivo Partido da Juventude (PJ), de Collor de Mello, e agora em 2018, o também inexpressivo PSL (Partido Social Liberal), de Jair Bolsonaro, uma direita mais intervencionista, mas domesticada pela direita liberal, ambos partidos disputaram com condições semelhantes: com o apoio das elites econômicas e os meios de comunicação tradicional. Há uma continuidade e não a repetição da história. No primeiro caso, o candidato era Mário Covas, do PSDB, que também não deslanchava nas pesquisas eleitorais, como agora nem o João Amoedo, do Partido Novo, nem Geraldo Alckmin, do PSDB, e nem o partido que busca o vácuo da reserva moral do Judiciário, no embalo do “mensalão” e do “Lava-Jato”, Álvaro Dias, do Podemos. Nesses dois momentos, portanto, partidos inexpressivos tem comportamentos semelhantes de aproximação ao poder. E a direita ficou órfão de um partido político organizado e a presença de Enéias revelava exatamente que ela tinha eleitor, embora limitado.

Se existe semelhanças nestes dois momentos (1989 e 2018), as diferenças entre eles são mais expressivas. No primeiro momento, Collor de Mello ganhou, mas não foi controlado pela direita liberal, desorganizado e desprestigiada. Ele, com sua alta autoestima, assumiu o programa de Mário Covas, um “choque de Capitalismo”, mas foi mais radical do que os empresários pretendiam, pois cortou o seu “bolsa família”, isto é, a “reserva de mercado”, aumentando a competição ao permitir a entrada de importados nos setores de ponta, sobretudo carros e computadores. Conhecemos como terminou seu governo. O PSDB depois assume a liderança do processo político, com Fernando Henrique Cardoso, por oito anos e inicia um lento processo de desestruturação da economia tradicional. O PT assume e se torna hegemônico por 14 anos, no embalo da hegemonia cultural da esquerda, aumentando o mercado interno na economia, pelas políticas sociais, no momento da crise do capitalismo internacional de 2008. O aprofundamento da economia liberal aumentou a competitividade e o individualismo. A direita não ficou assistindo o desenvolvimento de uma economia com forte liderança do Estado, mas se organizando paro o embate político, difícil para ela, pois sem quadros para a disputa eleitoral. Seguiu um caminho alternativo, agora também auxiliado pelo ativismo político do judiciário.

O Instituto Millennium, criado em 2009, é o “cérebro” desta organização, onde reúne intelectuais que pensam e planejam o enfrentamento à hegemonia cultural da esquerda, o grande garantidor da nova hegemonia política. O Instituto é responsável pela criação do MBL, “Vem para rua”, entres outras iniciativas que atuaram na gestão anterior para o sucesso das mobilizações e numa alternância de poder nada ortodoxa. Vemos hoje nas Escolas de Segundo Grau tantos jovens se assumindo de direita. Não cabe aqui apresentar a reação organizativa da direita para o enfrentamento político da hegemonia cultural da esquerda, mas ressaltar que a eleição de Collor foi apenas uma aprendizagem. Bolsonaro já encontra uma organização mais profissional, mas, como Collor, ele é aquele que tem condições de enfrentar o candidato apoiado por Lula. Não sendo um liberal, tem mudado seu discurso para o centro. Paulo Guedes, seu Ministro da Economia já declarada, dizendo que é um casamento sem briga, é um dos fundadores do Instituto Millennium e um de seus “cérebros”.

Essa eleição, portanto, é um momento de inflexão de nossa jovem democracia. Além da presença de uma direita que se organiza como partido político de forma empresarial, entretanto a hegemonia cultural da esquerda, os candidatos mais posicionados, Bolsonaro e Haddad, representam a crise dos poderes. O PSL é a denúncia da crise de representação política do Legislativo, mas o Judiciário também é denunciado por invadir esferas do Legislativo a partir da prisão de Lula. Os pesos e contrapesos entre os poderes são postos como desafio. A contribuição que o Judiciário faz fortalecendo um dos lados e desestabilizando uma das forças em disputa é revelador desse desafio á democracia brasileira e seu caráter republicano. E o Legislativo, como instancia da Soberania Popular, não deve ter um preço, mas representar.

Leonardo Avritzer, cientista político da UFMG, em palestra na pós-graduação da UECE, defendeu que a democracia brasileira terá ciclos de democracia a autoritarismo. Estamos passando por essa experiência. Mas a Soberania Popular vai aprendendo, como em outros lugares onde esse regime vigora, que a política é o espaço civilizado de resolver as diferenças. O aparecimento de uma direita organizada em Partidos Políticos é um sintoma de que a democracia pede passagem! Vamos em frente!

 

Josenio Parente

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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