Eleição 2018: os partidos políticos e o desfecho da crise política brasileira! por Josênio Parente

A crise política chega a um momento em que o povo decidirá o caminho que ela deve prosseguir. Será uma eleição com vários significados para seu desdobramento, pois não será realizada mais pelo tradicional centro político, o PSDB x o PT. O quadro parece estar se estabilizando entre Bolsonaro e Haddad, estando Ciro Gomes próximo deste último. A relação “lava Jato” e partidos políticos indica claramente frustrações e mudanças significativas na configuração de nossa democracia e do modelo de economia. Uma direita conservadora e autoritária consegue, com o liberalismo mais radical pegando carona, formar um grupo forte, mesmo que não seja um grupo homogêneo, e também pela esquerda, outro grupo forte, também não tão homogêneo, com Haddad e Ciro Gomes. O PSDB, como tradicional líder do centro direita, falhou e deixou espaços livres para a direita com discurso mais autoritário ocupasse e vislumbrasse sua grande oportunidade. Como última cartada, Fernando Henrique Cardoso fez uma carta para os que ainda acreditam na via política tradicional, pelo centro, que ainda há tempo para ressuscitar seu candidato, Geraldo Alckmin, do PSDB. Em certo momento de sua carta, FHC diz sobre Bolsonaro:

“O fato de ser este o candidato à frente das pesquisas e ter ele como principal opositor quem representa um líder preso por acusações de corrupção mostra o ponto a que chegamos. Ainda há tempo para deter a marcha da insensatez. Como nas Diretas-já, não é o partidarismo, nem muito menos o personalismo, que devolverá rumo ao desenvolvimento social e econômico. É preciso revalorizar a virtude da tolerância à política, requisito para que a democracia funcione. Qualquer dos polos da radicalização atual que seja vencedor terá enormes dificuldades para obter a coesão nacional suficiente e necessária para adoção das medidas que levem à superação da crise” (disponível nas Redes Sociais).

Estamos acompanhando essa eleição e percebendo que ela tem revelado sinais claros de que o momento é de inflexão. Além de ter examinado o espectro Lula que afetou os candidatos de centro, além de outros sinais claros da especificidade do momento. Faltando um mês para as eleições, a Folha de S. Paulo apresenta dois dados que retratam essa realidade.

Primeiro, os dados sobre votos nulos e brancos têm um comportamento semelhante apenas com o que aconteceu com a eleição de 2002, quando Lula ganha pela primeira vez. Já indicava, naquela época, um descrédito nos partidos políticos e na democracia representativa. E, nesta eleição, mesmo que estes votos de desencanto não tenham ido para Bolsonaro que chega a defender a “intervenção militar”, indica também um descrédito na representação política. Os votos nulos e brancos são mais fortes do que o de 2002, 2006, 2010 e 2014. Na última pesquisa Datafolha, dos que dizem que votarão nulo e branco, 61% afirmaram que não mudarão de opinião. Relembrando que em 2010 eram 7% e 2014, 9,6%.

O outro dado é que o dólar e a bolsa estão se comportando da mesma forma que naquele ano de 2002, também a um mês das eleições, indicando que o mercado também anda apreensivo com a vitória, novamente, da influência de Lula, de uma visão inclusiva da sociedade. Então, parcela do povo e da elite econômica ainda não acredita numa solução democrática para sair da crise. A democracia brasileira está novamente num momento de inflexão, como na época em que Lula se apresentava com competitividade nas eleições de 2002. Cristina Frias, repórter econômica da Folha de S. Paulo (17/09/2018), que escreve uma coluna de economia chamada “Mercado Aberto”, ressalta que “a volatilidade recente do câmbio e da Bolsa é similar àquela observada nas eleições de 2002, embora o dólar tenha subido mais quando Lula (PT) foi eleito para seu primeiro mandato, diz Marcel Balassiano, pesquisador do IBRE FGV”.

Outra novidade importante apresentada nas pesquisas eleitorais desta semana é quando mostra a ascensão rápida de Haddad quando Lula o apresenta como seu candidato, e o afunilamento dos candidatos mais competitivos que poderiam ir ao segundo turno: Bolsonaro, Haddad e, ficando mais para trás, mas ainda com chances reais de chegar ao segundo turno, Ciro Gomes. Esse, como dito acima, é o motivo da apreensão de Fernando Henrique Cardoso. O PSDB, inclusive, reconheceu seus erros nesse processo, como uma das lideranças no impeachment da Presidente eleita Dilma Roussef e, mais forte ainda, o apoio ao seu vice, Michel Temer, do MDB, reforçando um caminho não tão democrático de alternância de poder. O “mea culpa” veio não apenas do candidato, Alckmin, mas de uma liderança significativa, Tasso Jereissati.

Olhando as sete últimas eleições presidenciais, o candidato que chega como líder nas pesquisas nos últimos 20 dias, como agora, apenas duas vezes houve a superação do candidato em segundo lugar ao que vem na liderança. Lula ultrapassou Brizola em 1989, dois trabalhistas. Seria o revide se Ciro ultrapassasse Haddad? E Aécio, que passou Marina em 2014, para ir ao segundo turno.

Fernando Henrique termina sua carta apelando para a democracia e a responsabilidade cidadã, afirmando:

“É hora de juntar forças e escolher bem, antes que os acontecimentos nos levem para uma perigosa radicalização. Pensemos no país e não apenas nos partidos, neste ou naquele candidato. Caso contrário, será impossível mudar para melhor a vida do povo. É isto o que está em jogo: o povo e o país. A Nação é o que importa neste momento decisivo”.

Aqui está o diagnóstico de parte da crise política: a crise de representação, onde os partidos políticos são os principais instrumentos e, concordando com J. J. Rousseau, as pessoas não nos representam. A forma representativa da democracia são os partidos, e o PSDB falhou ao se organizar como partido político de forma empresarial. A coerência da representação terá que ser cobrada nos partidos políticos e não nas pessoas, nos eleitos. Os marqueteiros buscam ver as incoerências políticas de candidatos e nem sempre têm o efeito desejado. Essa estratégia não alcança, muitas vezes, o objetivo desejado, exatamente porque são os partidos que devem fidelizar seu consumidor, os eleitores. E são também os partidos que são responsáveis pela coerência dos candidatos, pois eles, os partidos políticos, são os donos desse mandato. Essa foi a falha, inclusive, da “lei da ficha limpa”, que, ao punir só o eleito, favorece o personalismo, como se os partidos nada tivessem a ver com isso.

Fernando Henrique Cardoso percebe que na heterogeneidade do grupo que apoia Bolsonaro estão grupos muitos variados de intervencionistas, mas empresários estão apoiando como voto útil e estão se apegando pelo seu Ministro da Fazendo, já declarado, que é um liberal não intervencionista. Aqui encontramos um candidato, como Collor, que une a direita pelo medo da esquerda, e outros, Haddad e Ciro, que têm o apoio de um líder de partido organizado e com raízes na sociedade civil organizada.

“A nação é o que importa nesse momento”. Considero que nesta eleição a cidadania ganha exatamente por reforçar um primado da democracia: a solução da crise política passa não apenas pelo ajuste dos poderes, mas a governabilidade passa necessariamente pelo fortalecimento dos partidos. E é isso que estamos percebendo nesta eleição “sui generis”. A reforma política vai sendo realizada pela experiência.

 
Josenio Parente

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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