E se Fortaleza fosse… 

Naquela manhã de quinta-feira tudo absurdamente normal. Nas mentes a vaga promessa do chopp na sexta à noite e da rotina com a família no final de semana.

No noticiário, engarrafamento na BR 116; acidente na treze de maio; desvio na avenida João Pessoa; e previsão de chuva forte para a tarde. Essa última parte me chamou atenção. Até parei, na metade do caminho, a torrada que levava para a boca. Jonas, que estava nos meus braços recebeu um pouco de geleia em seu rosto nesse exato momento. “Chuva!”, falei em voz alta, à tarde? Em setembro? Tudo andava realmente muito estranho. Continuei com a trajetória da minha torrada até a boca.

O dia seguia particularmente quente e o relógio ainda não marcava 9h da manhã. O suor escorria de nossos rostos. 

Liguei dois ventiladores na sala enquanto conversava com minha sogra. “Que dia quente”, afirmávamos uma à outra. Entre abanos, falávamos sobre os altos preços, a insegurança vivenciada nos últimos dias e a terrível doença que tem afetado os humanos, a depressão. 

Com alguns desvios chegamos à conclusão de que a realidade sempre seria injusta enquanto vivêssemos um sistema que valoriza as coisas e não a vida. “Era preciso reinventar tudo… era preciso outra forma de vida para que as pessoas pudessem se amar e ser felizes ao invés de competir e se submeter a rotinas que não trazem engrandecimento para a alma”. Como nós somos bons em criticar o mundo e encontrar soluções ‘teoricistas’ para problemas reais! 

Meu pensamento ia longe quando de repente a cafeteira que extraía meu segundo café começou a faiscar. Grito! Me assustei e acordei o bebê que ainda dormia nos meus braços. Os outros eletrodomésticos também repentinamente pararam de funcionar. 

Que estranho, será que está acontecendo somente aqui na minha casa? Saí para a rua, Jonas, meu filho, começou a chorar, parecia pressentir algo. Comecei a tremer e a sentir um forte arrepio no corpo. “Mas fazia um calor enorme agora, há pouco!” O mundo anda louco, o mundo anda louco… comecei a repetir. O apocalipse? Nunca dei crédito às histórias religiosas, acreditava, sim, no potencial humano de destruição.

Uma corrente de raios fez um desenho ramificado no céu e num segundo era noite. Não pensei mais nada, minha mente se fechou como o tempo. Olhei à minha frente e vi uma onda se aproximar. 

O que estava acontecendo? Água, muita água se espalhava por todas as direções. Apertei Jonas nos braços e corri o máximo que pude. Mas ela era mais forte, sempre foi. Assim como em meus sonhos me senti perdendo o chão. Uma força avassaladora me levava em um sentido não escolhido por mim. Num segundo não vi mais Jonas. 

Abri os olhos, nada vi. Não conseguia calcular quanto tempo passei desacordada. Não era possível colocar os pés no chão. Onde eu estava? Também não podia falar. Ouvia ruídos estranhos. Meus sentidos estavam confusos. Todos aqueles ruídos envolveram-me num caos mental. 

Com o tempo meus olhos passavam a perceber as coisas ao meu redor. A água continuava lá e eu estava rodeada por ela. Lancei a vista ao longe e notei a presença de outras pessoas. Ao me aproximar percebi que estavam sem vida. Para onde teriam ido as demais? Fortaleza era agora uma cidade submersa. Seria esse o fim da humanidade ou seu recomeço? Minha cabeça começou a vagar, teríamos jornais no dia seguinte para noticiar o fato? Como eu ainda estava viva? Ainda procurava Jonas. 

 

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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