É isto um homem?

Nunca li Primo Levi, apenas o conheci indiretamente mediante Giorgio Agamben, no seu livro O que resta de Auschwitz? Mas acordei com sua pergunta na cabeça, soando aos ouvidos: É isto um homem? (Ist das ein Mensch?). Não é preciso muito esforço para fazermos um paralelo histórico entre o mundo europeu do entreguerras, com seu refluxo ou mesmo realização dos ideais iluministas que fundaram a época moderna, e o cenário atual do novo milênio. Também não é preciso muito esforço para se fazer perceptível, no curto-largo lastro da história humana, que a atrocidade, a brutalidade, a violência, o sofrimento tem até aqui sido a regra, enquanto nossos ideias de felicidade se tornam sonhos literalmente bombardeados.

É isto um homem? (Ist das ein Mensch?). O Homem, tal como o conhecemos hoje, nasceu. Foi parido, quem sabe, naquela primeira separação entre ele e a natureza formulada nas religiões monoteístas, religiões do espírito em que a natureza, e assim também o feminino, se apresentam como objetos para um sujeito querendo nascer. Ficou adulto, quem sabe, quando homens renascentistas buscaram a autonomia frente às instituições religiosas, suas superstições de céu com repercussões terrenas de poder e domínio, mediante razão, em sentido especulativo, e ciência, enquanto método de investigação e também poder sobre a natureza e, assim, a tudo que é extenso, tem corpo, inclusive um autodomínio para consigo mesmo deste mesmo homem que pretendia se libertar. Amadureu, talvez, quando um rapaz chamado Nietzsche com sua Gaia ciência, certamente um leitor de Feuerbach, compreendeu que Deus (no sentido pessoal, pois aquele que escuta o coração humano) havia morrido e fomos nós, homens de ciência, que o matamos. Contraiu uma doença crônica quando Foucault, no caminho por onde passou Nietzsche, vendo-se pertencente a uma geração herdeira do entreguerras, compreendeu que estava morto o próprio Homem. Mas o morto prosseguiu andando e, hoje, senil, quem sabe até mudo perante seu próprio percurso no mundo, geme um parto que não encontra termo.

Mudo era, segundo Giorgio Agamben no capítulo “O ‘muçulmano’”, o homem do campo que havia fitado a Górgona, havia sido petrificado pelo sofrimento e estava calado, estático, ainda que vivo. Mudo estava o homem (no caso se fala aqui particularmente dos judeus nos campos nazistas), na fase em que contraiu uma doença crônica, diante do trauma. Levi, como sobrevivente, sentia-se envergonhado de não ter naufragado com os seus e forçosamente impelido a ultrapassar o trauma e narrar, elaborar o ocorrido. “É isto um homem?“, foi sua pergunta primeira. Não li o livro de Levi, mas a pergunta pode remeter tanto ao carrasco como à vítima no limite de sua degradação.

Hoje, estamos além do estado crônico e o Homem precisa de um respirador para manter-se vivo, sufocado no ambiente em que ele mesmo criou para si; tornou-se um moribundo e a “sala de reanimação onde flutuam entre a vida e a morte… delimita um espaço de exceção no qual surge, em estado puro, uma vida nua pela sua tecnologia. E visto que se trata, justamente, não de um corpo natural, mas de uma extrema encarnação do homo sacer (o comatoso pôde ser definido como um ser ‘intermediário entre o homem e o animal’), a aposta em jogo é, mais uma vez, a definição de uma vida que pode ser morta sem que se cometa homicídio” (Agamben, Homo sacer: capítulo “Politizar a morte”).

“É isto um homem?”, permanece soando. Sim e não. Talvez tenhamos que recorrer aos povos originários, e aqui podem soar as vozes de Ailton Krenak, com suas Ideias para adiar o fim do mundo, e Davi Kopenawa, com sua crítica xamânica da economia política da natureza. Essa pergunta deve estar ressoando desde que o céu começou a desabar para os povos nativos, e hoje diagnosticam, com sua sabedoria cosmológica e medicina natural, que o povo branco, o povo da mercadoria, precisa recomeçar a aprender com a Natureza (sua multitude, sua multiplicidade, sua diversidade) antes de chamar-se Homem, sujeito pretensamente racional, abstrato, livre e em progresso, precisa aprender a ouvir rios, montanhas, encantados; precisa, como o personagem Harry Haller de O lobo da estepe, aprender a dançar antes de pretender optar pelo suicídio.

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Escritor, crítico e ensaísta. Livros publicados em 2020 em formato digital, possíveis de serem adquiridos com o autor: Bibelô de recordações; Relicário perdido; Heteronímia; Crônico; Rústico. Licenciado e Mestre em Filosofia pela UECE, Doutorando pela UFRJ. Reikiano e Massoterapeuta pelo espaço Ekobé. Perfil no instagram: @pedrenrique_insta. Encontra-se desempregado e qualquer contato pode ser feito também pelo e-mail: [email protected]

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