E A COVID, QUANDO NÃO MATA, MALTRATA

COM A APOSENTAÇÃO DE DONA MZ., QUANDO ACHOU POR BEM permanecer no mesmo posto de trabalho – o que logo mereceu a nossa aquiescência, é óbvio! – e com o início de um período – que se mostrou longo – de convalescença da dona da casa, a minha eterna parceira, após graves e cruciais problemas de saúde que afetaram todos nós, considerados ainda outros fatores de menor importância que, juntos, assumiram grande valia no caso, decidimos reduzir, em larga escala, as funções da cozinha nossa de todos os dias. E um novo hábito se incorporou ao cotidiano da família: refeições de restaurantes com serviço de fornecimento de marmitas. Elegemos, de pronto, um de pequeno porte, cardápio essencialmente caseiro – sem floreios e sem oferta de prazeres gustativos extragalácticos –, além de preços módicos. Ajustei, então, esta nova atividade – a de recolher, sob encomenda, o produto no fornecedor – à de dar a devida mobilidade aos meus netos, principalmente quanto ao cumprimento das obrigações escolares. E tudo vinha funcionando a inteiro contento.

Ocorre que, exatamente no dia 20 de março do ano passado, tivemos de nos adaptar a uma nova mudança no cotidiano. Decretada a primeira intervenção governamental na economia, com a suspensão de atividades então julgadas não essenciais – incluindo as aulas presenciais –, além do distanciamento social e o isolamento das pessoas em suas casas, bem como da recomendação do uso de máscara e álcool em gel, cuidados básicos para se evitar a proliferação do coronavírus que já matava sem dó nem piedade e grassava mais intensamente entre idosos e portadores de comorbidades, toda a logística domiciliar teve de ser revista e alterada. E a dona Mz. deixou de vir até nós, mantido o vínculo – informal que fosse – em todas as outras previsões contratuais básicas então vigentes. Eu continuei indo ao fornecedor recolher o que nos saciava a fome. E tudo se revestia de aparente normalidade, apesar do entediante “Fique em casa!”.

Até que um dia, uma segunda-feira para ser mais preciso, percebi que, sob uma atmosfera extremamente sombria, carregada, que parecia preencher todos os espaços do restaurante, onde sempre imperavam a cordialidade e a tranquilidade próprias de ambiente familiar sob usufruto de um público bem especial, as pessoas não conseguiam esconder, apesar das máscaras em pleno uso, um misto de tristeza e preocupação que se refletia no olhar, no falar, no agir. Quis saber o que tinha acontecido, o porquê de todo aquele marasmo, daquela melancolia. A proprietária da casa esclareceu a causa do abatimento, do desalento das pessoas:

– É que o Tg. e a Ls., o senhor lembra-se deles, né?

– Sim. O Tg. é amigo de longa data. O que houve com eles?

– Após festa de aniversário, sábado à tarde no sítio do sogro do Tg., os dois se sentiram mal. Atendidos na UPA, testaram positivo para o coronavírus. Ela, sob orientação médica, está isolada no apartamento. Ele, ante a gravidade do quadro, foi conduzido de ambulância ao hospital de campanha do Presidente Vargas, onde está internado.

– E que notícia mais recente vocês têm dele?

– Nenhuma. A família ainda não foi informada de nada. É por isso que todos estamos assim… como o senhor vê.

O Tg. é um daqueles amigos que a gente guarda no lado esquerdo do peito, como bem diz o menestrel das Gerais, Milton Nascimento. Eu o conheci no entorno do Castelão, em dia de jogo do Vozão; é amante do futebol desde os tempos em que o pai, recentemente falecido, torcedor do Ferroviário, levava-o ainda menino ao Elzir Cabral, lá na Barra do Ceará, para ver o time dele jogar. Tem idade para ser meu filho. E a nossa amizade se preserva a qualquer distância, se fortalece todas as vezes que nos encontramos e, se entre nós a cerveja se oferecer gelada e generosa, a conversa certamente vai se alongar, fluida e espirituosa, por muito tempo e vai se embrenhar por assuntos vários – política, futebol e até religião. Jovem, ativo e atleta – joga no time de quase-masters do bairro –, jamais imaginávamos que pudesse ser alcançado pelo impiedoso vírus. E agora lá estava ele, em leito de UTI, num mergulho em águas profundas, perigoso porque, asfixiante, causa sufocamento e perturbativa sensação de afogamento, talvez até entubado, lutando em prol da vida e contra um inimigo severo, temível e invisível. E nós, completamente alijados do processo, só nos cabia orar e torcer para que tudo não passasse de um susto. E que susto!

Comovido com o caso em si, estranhando o fato de haver atingido alguém fora do grupo de risco e amedrontado ante a proximidade do perigo que corria, impus-me uma mudança drástica – o isolamento total. A minha casa passou, então, a ser o refúgio ideal para o enfrentamento de um microrganismo infeccioso, pandêmico, cujo alto grau de contaminação e letalidade punha toda a humanidade em alerta. E eu aderi, de forma incondicional, à campanha do “Fique em casa!”.

Quanto ao Tg. e à Ls., a boa notícia recebida alguns dias depois dava conta de que ambos haviam, com algumas sequelas nada graves, vencido a árdua batalha, para a nossa incontida alegria. Graças ao bom Deus!

 

(…)

 

Em meados de junho, confirmou-se, para a apreensão de todos nós,  a informação recebida por WhatsApp, segundo a qual a Ap., minha concunhada, profissional da área de educação do Estado, atualmente na coordenação do Programa Universidade Operária do Nordeste, após ligeiro quadro febril, a que se seguiu um preocupante estado de cansaço crescente e extremamente limitante, tratado, num primeiro momento e sem sucesso, como virose sazonal, houvera contraído o coronavírus. O caso exigiu da paciente quase um mês de intensa reclusão, com reflexos em familiares, em especial os de sua convivência diária, e amigos, até que, com o desaparecimento dos sintomas, um novo teste comprovou a completa extinção do mal que a afligia. Restou-lhe a sinusite adquirida, para a qual já havia uma certa predisposição, com um agravante: consoante entendimento médico, a verificada inflamação da mucosa dos seios da face se enquadrava, no caso, no rol das doenças crônicas que costumam afetar as vias aéreas.

 

(…)

 

O telefone toca. Uma vez. Suspendo o que faço. Duas vezes. Dirijo-me até ele. Três vezes. Atendo.

– Alô!

– Bom dia.

A feminil voz do outro lado da linha não apenas me soa familiar, mas, mais que isso, é-me agradável, traz-me uma sensação de paz, de quietude, de tranquilidade, faz-me acreditar que para a humanidade ainda há jeito.

– Mano. – É a minha irmã EF. – Estou ligando pra você – nós não somos muito chegados a contatos telefônicos, convencional ou virtualmente – para lhe dar uma notícia não muito boa. Pode ser ou ligo em outra hora?

– Pode ser, sim. Fique tranquila, minha irmã. Nesta altura da vida, sempre prontos devemos estar para o que der e vier.

– A MG contraiu a Covid.

– Não acredito!

– Ela e o marido, o Sr’zinho.

– Então o estrago foi grande. E como eles estão, EF?

– O caso da MG – a minha irmã primogênita – dá-nos uma certa tranquilidade. Os sintomas sinalizam para caso moderado. Está de quarentena. Já faz uma semana de total isolamento, medicação adequada, sozinha em casa, com o celular servindo de meio de contato com o mundo. Já com o Sr’zinho, o coronavírus mostrou-se mais agressivo. Ele está hospitalizado, sob cuidados médicos, à espera de vaga no Leonardo da Vinci, aí em Fortaleza. Como duas irmãs dele são profissionais da saúde, as coisas podem se tornar menos difíceis.

– EF, eu vou ligar pra MG. Acho que tenho o número do celular dela…

– Ligue, LM. Ela vai adorar ouvir a sua voz. Anote aí o número dela.

E eu liguei. Não gostei muito do que ouvi: alguns queixumes quanto às recorrentes dores de cabeça, além de incômodos nas articulações, logo ela que carrega, há alguns anos, após cirurgia de reconstituição da extremidade superior da tíbia, devido a acidente de carro em que se vitimou, nove pinos de metal; alguns lamentos acerca da nada confortável adaptação ao indispensável isolamento ou, no dizer dela, deprimente solidão; ademais, a natural preocupação com o caso do parceiro. Apesar de tudo, um fio de esperança entremeava toda a nossa conversa e, em momento algum, percebi haver nela alguma nuança de desespero. Havia, sim, a confiança de que venceriam a luta contra o inimigo invisível.

À medida que o tempo se ia, a sensação era de que tudo se encaminhava para um breve retorno à normalidade. O que realmente, duas semanas depois, acabou acontecendo. Postagens em rede social de fotos da família em regozijo pela recuperação de ambos – MG e Sr’zinho – comprovaram tal fato.

Fora apenas um grande susto. Graças a Deus.

 

(…)

 

– Pai, o senhor sabe quem morreu de Covid?

– Não, filha.

– Veja aqui a postagem que fizeram no grupo da família e amigos…

E ela, a JC, me fez ver, pela tela do celular, a última imagem do Ad. antes de ser acometido pelo coronavírus e levado, às pressas, para a UTI de hospital voltado para o tratamento exclusivo da Covid. A mensagem de despedida deixava claro que ele não houvera resistido à tão impactante doença, tendo feito, na madrugada, a sua viagem derradeira.

Como Ad., ainda jovem conquistou o respeito de muita gente na condição de mecânico especialista em eletricidade veicular; trabalhava em oficina na Clarindo de Queiroz, há poucos passos do cruzamento com a Floriano Peixoto; por méritos, logo assumiu a gerência da microempresa; por talento, tornou-se arrendatário, ou seja, virou microempresário.

Como Ng. da Cigana – suas origens apontam para a Padre Climério Chaves, nas proximidades da pracinha da Paz, a que tem formato triangular e, por isso, é popularmente conhecida como “pracinha do…” (termo impublicável; refere-se vulgarmente a parte íntima da mulher e é corruptela do nome dado a um pássaro pequeno, de gaiola ou viveiro, cuja plumagem vistosa, de cores variadas, torna-os de agradável valor decorativo)  –, ele chegou a ser eleito vereador em Caucaia, não logrando, pelo que sei, a reeleição. Ainda nessa condição, participei, sob o comando dele, de pelo menos duas situações no mínimo engraçadas, jocosas ou até mesmo burlescas.

Uma delas. Ele e a turma, todos amigos, entenderam de comemorar, ao jeito deles, a minha aprovação no concurso do Banco Central. Era janeiro de 1977 e eu residia em modesta casa da vila fronteiriça à pracinha. Entre a lateral da casa em que ele morava com a mãe e irmãos, gente muito simples, e a do casal Assis-Raimunda e uma penca de filhos, gente finíssima, havia uma larga área livre, em cujo centro erguia-se uma velha e frondosa mangueira. No entorno dela, cerca de vinte jovens, todos na mesma faixa etária – em torno dos vinte e poucos anos – formaram um grande círculo, acomodados em assentos improvisados – tijolos furados, troncos de árvores, pedras de guia de calçada ou de enchimento de alicerces. O ingresso para o evento era um litro de aguardente, cujo estoque então formado, eles garantiam que consumiriam ali. O etílico encontro aconteceu num sábado, iniciando-se por volta do meio-dia. Ao homenageado, ou seja, a mim, coube oferecer o tira-gosto, serviço logo assumido pelo meu sogro que pôs à disposição de todos churrasquinhos, assados na brasa, em espetos de pau, com insumos adquiridos no mercado de Caucaia. E eles escolheram como diversão a brincadeira do limão… eu fui no embalo, sem saber sequer do que se tratava. Assim, o dono do espaço – exatamente o Ng. da Cigana – iniciou o jogo ao dizer, olhando para alguém da roda: Eu vi um limão. Esse alguém de plano discordou: Um limão não, dois limão. Um terceiro, pra quem ele direcionara o olhar, corrigiu na bucha: Dois limão não, três limão. A interrupção da sequência se dava quando alguém cometia desvios no palavreado – por exemplo, pondo no plural o substantivo “limão” – ou se demorava a contestar, sob grita geral, o que lhe fora dito diretamente, cumprindo-lhe, como castigo, a ingestão de generosa dose da mais pura cachaça branca. E o jogo recomeçava onde fora interrompido, com a frase introdutória: Eu vi um limão. À medida que o tempo avançava, mais aguardente era consumida. E o pior: quem mais errava, mais bebia; quem mais bebia, mais errava. Eu saí do jogo, sem direito à volta, levado diretamente para o banheiro da casa do meu sogro e meu vizinho de esquina, onde tomei um longo banho de chuveiro; e daí, agora sob os zelosos cuidados da minha eterna parceira, para o fundo da rede de varandas armada na sala de estar da minha modesta casa. Demorei a ressuscitar, sem direito à visita das três mulheres bíblicas. E que o Senhor seja louvado! Sempre.

A outra. Também num sábado à tarde, jogamos uma pelada no campo da Baixa Preta, entre o bairro da Cigana e o do Cemitério. À boquinha da noite, nós, um grupo de cinco ou seis quase-atletas, retornávamos para as nossas casas, todas nas proximidades da pracinha, quando, ao passarmos em frente ao bar do Luís Mota, com entrada lateral para a rinha de sua propriedade, com programações domingueiras, decidimos tomar umas cervejas. A acolhedora recepção que nos foi dada pelo filho mais novo do dono, um adolescente com jeito de moleque, deixou-nos com uma renitente e sibilante muriçoca a azucrinar os nossos ouvidos. Ele nunca fora de agir de tal modo. Tudo bem; melhor assim. Até um saboroso tira-gosto, ele fez questão de servir-nos… Por conta da casa… anunciou sorridente. Por ter sido o autor do convite, para a pelada e para a parada etílica, coube ao Ng. da Cigana o comando das ações. E ele acompanhava tudo com olhar matreiro, de desconfiança. A alegria, as conversas, os causos, as piadas, as risadas, tudo revelava quão agradável era pra nós estar ali. Mas tudo o que é bom, logo acaba. Apresentada a conta, devidamente rateada, já nos preparávamos para retomar o caminho de volta, o bom garoto que tão bem nos atendeu, chamou-nos a atenção: Vocês não querem saber de que era o tira-gosto? O Ng., o mais alto de todos nós, representou-nos nesse momento: De que era, ô santinho do pau oco? O moleque, agora bem protegido pelo largo balcão de base de alvenaria e tampo de madeira, confiante de que o pai estava ali por perto, presenteou-nos com um sorrisinho de deboche e nos escarneceu: De gato! E, percebendo a nossa estupefação, arrematou: Carne de gato… do gatão da vizinha que comia os meus pintinhos… E, apontando para o alto, como se usasse uma espingarda de cano longo, completou: Pei! Um tiro certeiro e ele veio ao chão mortinho da silva. Dei-lhe um trato de responsa e… vocês gostaram do que comeram, né?! Calmo, gozador, o Ng. encerrou o causo: E eu até chupei cada ossinho, pra saborear o tutano… Riu. E todos nós rimos. Para quem já havia comido coxa de gia frita… lombo de tejo nutrido torrado em banha de porco… mais um prato insólito se incluía no meu nada ortodoxo cardápio.

Agora, no plano mais alto, com certeza o Ad. já deve ter encontrado os seus comparsas e retomado os seus animados eventos etílicos, regados a descontração, histórias hilárias e risos travessos.

 

(…)

 

Há poucos dias, um vídeo postado nas redes sociais causou-me um misto de inquietação e desventura.

A inquietação ante a presença de tanta gente jovem, aparentemente saudável, aglomerada nos estreitos e sombrios corredores de túmulos, isso mesmo, no interior lúgubre de um cemitério, protagonizando o adeus derradeiro, a despedida pungente, lancinante, o depósito de ataúde com os restos mortais de um ente querido em gaveta de jazigo, mas contrariando todas as recomendações de como agir com responsabilidade em plena pandemia, com vistas à proteção de cada um e, principalmente, dos outros.

A desventura ante a perda irreparável de um amigo, o QR, cujo vozeirão ecoou pelos ares de Caucaia e adjacências, ele que adotara como profissão a locução radiofônica, em especial, a esportiva, com algumas inserções por programas televisivos. A última vez que o vi, estávamos – eu, ele, o Ari, o Suevan e o doutor Uchoa – na quadra coberta do Luzardo Viana, em conversa sem grandes propósitos, à espera do jogo Caucaia e Maranguape, seleções de masters, que acabou não acontecendo. O QR entremeava o descontraído palavreado, repleto de reminiscências, com queixumes de dores nas articulações, vivenciando ainda a fase final dos males causados pela Chikungunya (que, em um dos idiomas da Tanzânia, onde o vírus debutou, significa “aqueles que se dobram”), por mim confirmados, porquanto há poucos dias houvera saído do incômodo caminhar claudicante – e degradante, por sinal –, pela mesma razão.

Agora, as transmissões esportivas dos campeonatos celestiais ganharam mais um dos mais respeitáveis narradores. Fala, QR!

 

(…)

 

Todas as vezes que nos encontrávamos no interior do Mercado São Sebastião, nas manhãs de sábado, o convite consistia na parte fundamental do enredo: Professor, vá hoje à noite saborear as delícias do Caboba. Eu prometo lhe dar um tratamento mais que especial. Eu fui algumas vezes. Na mais recente, ele me serviu, como sempre na barraca montada em área reservada, a céu aberto, ao livre comércio de comidas caseiras&bebidas na ampla praça do Conjunto Vicente Arruda, um pratinho de baião de dois – só arroz e feijão –, guarnecido de farofa de torresmo e cebola, com finos nacos de alcatra bovina frita em chapa untada de margarina. Um manjar! E ele ainda me permitiu que me fizesse acompanhar do meu cooler, com uma boa reserva de buchudinhas da Original, preservadas em gelo em cubos. Uma delícia! E a meninada – netos, sobrinhos e amiguinhos – se divertiram com outras apetitosas iguarias que o bom rapaz então lhes ofereceu. Uma festa!

Festa, agora, deve ele estar promovendo em plano mais alto, chamado que foi pelo Pai. Pois é, o Cc. não resistiu ao ataque invasivo e letal do impiedoso coronavírus. E sucumbiu aos seus danosos efeitos. Nós nunca mais o veremos caminhando com molejo, gingado, malemolência, o que lhe era tão peculiar. Não mais nos encontraremos – eu e ele – nas manhãs de sábado no Mercado São Sebastião. E ele não mais me fará o recorrente convite. E eu também já não mais serei o seu professor, com direito a tratamento mais que especial. Restou entre nós, velhos amigos, o vazio que a translúcida, onisciente e inexorável Morte causa aos que insistem em viver. Vazio que só a saudade será capaz de preencher. Será mesmo?!

 

(…)

 

Conterrâneos, nós fomos, no segundo quinquênio da década de 1960, contemporâneos no Ginásio Salesiano Domingos Sávio, onde fincamos as raízes de uma amizade, estimulada basicamente no esporte, que já se projetava longeva. Podia até ter havido entre nós, adolescentes de distintos históricos de vida, um fator de distanciamento social – eu era um dos “índios” do Putiú, carregando nos ombros o sentido pejorativo do termo; ele morava na principal via pública da cidade, no centro, integrando naturalmente a “elite” da sociedade baturiteense de então. No entanto, ele era diferente, não se deixava envolver por essas bobagens. Logo descobrimos um outro fator comum a nós, este de caráter aproximativo: éramos alvinegros, torcedores saudáveis do Ceará Sporting Club.

Mais recentemente, tão logo me vi preenchendo os vazios da aposentadoria com a deleitosa arte de escrever, postando a minha produção textual no Facebook, ele declarou ser leitor assíduo das minhas mal traçadas linhas. E isso causava em mim, além de uma estimulante satisfação, a convicção de que era lido – e nada é mais importante que isso para quem se aventura no universo da literatura.

Na tarde em que recepcionei a mensagem em que um familiar comunicava o precoce passamento dele, vítima da Covid-19, confesso que sofri, de imediato, um doloroso processo de paralisia, do corpo e da alma. O choque me foi deveras violento. Sofri pela irreparável perda do amigo; temi pela minha sorte e, mais ainda, pela dos entes que são para mim muito queridos. A sensação que, na sequência, invadiu meu alquebrado, extenuado ser pareceu a ameaça de uma onda letal do insensível e imperturbável vírus, a aproximar-se demasiadamente de mim. Senti-me um nada.

Reagi como pude. E, então, me percebi abraçando virtualmente o bom homem Xk., numa despedida que, muito mais que amoldar-se a um “novo normal”, celebrava o real significado da amizade verdadeira.

Requiescat in pace, Xk. Descansa em paz, amigo.

 

(…)

 

Para concluir este texto, pretendo registrar duas distintas e merecidas homenagens póstumas. Uma, restrita, individual, dirijo a Ted Pontes, ex-vereador e ex-deputado estadual, vitimado pela Covid-19. Era filho de Juaci Sampaio Pontes, ex-prefeito, líder oposicionista – em pleno regime militar – que modificou profundamente o cenário político caucaiense, e de dona Ana Pontes, exemplo de mulher, de mãe, de cidadã. A outra, ampla, coletiva, tributo aos mais de 400 mil brasileiros que perderam a vida na comovente luta contra o coronavírus.

A vida de todos nós é o que importa. Lutemos por ela. Fique em casa! Vacine, sim!

 

“Contar o que nos faz sofrer traz muito consolo.” (Alexandre Dumas Filho, em A dama das camélias).

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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