As Duas Irenes: E a alteridade como norma cinematográfica nacional

O cinema brasileiro encontra na vertente universal de suas narrativas seu maior tesouro. Temos uma grande variedade de filmes no recorte contemporâneo que nos coloca na escala dos Países com obras mais ricas, tanto no trato dos temas quanto nas formas de feitio dessa empreitada cinematográfica. Mas também somos múltiplos, é verdade. E o coeficiente disso é a coexistência de filmes de natureza tão distintas lançadas numa mesma temporada, como quando falamos de Fala Serio, Mãe! (2017) e As Duas Irenes (2017), por exemplo.

Este, para além do clichê recente que os comentários da crítica pode supor, é muito mais que “uma pequena joia brasileira”. Aquele, certamente não nos deveria tomar mais que uma linha de comentário deste texto. Não tomará. O que cabe dizer, é do quanto o primeiro longa-metragem de Fábio Meira, e sim, estamos a falar do singular As Duas Irenes, rompe o rótulo de qualquer análise vaga por meio de um trabalho verdadeiramente consistente. Intenção nas premissas de autoria e o recurso da originalidade a partir do norte que o cinema oferta são chaves para o entendimento desse belo trabalho.

Irene (Priscila Bittencourt) tem 13 anos e faz parte de uma tradicional família de classe média do interior de Goiás. Um dia, ela descobre que seu pai, Tonico (Marco Ricca), tem uma segunda família e outra filha da mesma idade e igualmente chamada de Irene (Isabela Torres). As duas se tornam amigas e Irene entra aos pouco na dupla vida de seu pai, iniciando um jogo de segredo e verdade omitidas. O termo da omissão aqui é importantíssimo porque delineia bem os contornos que Fábio deixa no filme.

Projeto muito particular, já que foi inspirado em um longínquo caso ocorrido na família do próprio diretor, o longa parte, portanto, de um lugar bem íntimo e se molda a partir desse alicerce preestabelecido. Temos uma protagonista que, ao longo da estória, vai se percebendo outra na medida em que se descobre através dos olhos da meia irmã cuja existência, até então, ela desconhecia. Estamos diante de uma narrativa onde a alteridade e o colocar-se no lugar do outro são um ponto determinante da sua razão de ser.

Em As Duas Irenes, a alteridade e o colocar-se no lugar do outro são um ponto determinante da razão de ser do filme.

Aqui, o jogo não diz respeito ao desenvolvimento de eventos ligados pelo ódio ou superficialmente explorados pelo conflito. Este, a propósito, é uma das maiores muletas criativas que as obras, sejam em longa-metragem ou de natureza seriada, mais lançam mão, guardadas as proporções. Não por acaso, também é um sintoma da inconsistência por trás de tantos trabalhos, sejam de filmes nacionais, como Isolados (2014) ou de séries americanas de ficção e aventura, como Punho de Ferro (2017), por exemplo.

Os exemplos soam extremos, mas não o são. Uma vez que Fábio emprega em seu filme um dos maiores cernes do fazer audiovisual com a possibilidade mútua de atores e trama serem (re)imaginados. Esse é um dos trunfos de As Duas Irenes. Diferentemente da mentalidade mercantilista do fazer cinema que apenas cumpre escalas de produções sem compromisso algum, seja com a estória contada ao espectador ou ao próprio elenco nele inserido, nosso longa toma a alteridade como norma para si quando Fábio propõe que Priscila (atriz naturalmente mais extrovertida) interprete a Irene introvertida. E pede que Isabela (atriz de perfil mais introvertido) encarne a Irene mais extrovertida.

De modo particular, o diretor Fábio Meira abriu possibilidades mútuas de atores e trama serem (re)imaginados no filme.

Esse testar-se a si mesmo e ao seu elenco é antes de tudo, uma prova de coragem e um modo claro do quanto o realizador pode ser uma figura que opera como um agente da criatividade. É para isso que serve o cinema dada toda sua potencialidade. Mas indo além desses pontos destacados, é também no trato com a sua cenografia ou design de produção que o filme encontra um modo igualmente original de desenvolver sua trama. Interessante como os cenários, objetos de cena e figurino nos dão pistas acerca dos eventos que são trilhados e construídos por e ao redor dos seus personagens.

O modo como estas personagens partilham o amor que têm é algo singelo e muito marcante.

Em que época se passa a obra? Difícil dizer, uma vez que a estética interiorana mesclada com um conceito visual atemporal nos deixa o instigante senso de podermos, nós mesmos, imaginarmos o tempo de desdobramento daquela narrativa. Há certas roupas e utensílios que nos lembram um lugar setentista que se complexificam ainda mais quando postas junto à paleta de cores monocromáticas do filme. A sua fotografia dá conta disso com a coloração lavada de um ambiente onde o bege sinaliza toda uma monotonia que dá a ver a própria vida daquelas garotas no interior brasileiro.

As cores aos poucos começam a se sobressair à medida que as Irenes vão se dando a conhecer. Isso evidenciado por meio de um resplandecente azul do céu que as recobre à beira de um riacho qualquer. Ou das tonalidades de vermelho e azul mais fortes que surgem nos momentos de maior intimidades entre as irmãs. O modo como essas personagens partilham o amor que percebem pelas suas próprias vidas assim como uma da outra é realmente tocante. É singelo e marcante, assim como o cinema brasileiro tem-se mostrado para a glória da nossa jornada artística.

FICHA TÉCNICA

Título Original: As Duas Irenes

Tempo de Duração:  89 minutos

Ano de Lançamento : 2017

Gênero: Drama

Direção: Fábio Meira

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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