Dizem que os bêbados veem coisas

Na fria madrugada de um intenso inverno, a terra úmida e em pleno cio, os bosques exuberantemente verdejantes e os rios furiosamente transbordantes, fauna e flora em extasiante manifestação de irradiante contentamento pela vida, a Natureza em festa, revestida de deslumbrante embelezamento, sob a ampla fronde de uma provecta e generosa mangueira, guardadora impoluta de variegadas memórias , ela, diáfana, sempiterna e translúcida, sentou-se no rústico banco de caule de coqueiro, cruzou, incorpórea, transparente e ubíqua, as ágeis e longas pernas, apoiou, diligente, eficiente e imperturbável, os braços descarnados ao longo das magras coxas e, após um desdenhoso sorriso, macabro e medonho, liberou, insensível, sutil e aguda, o clássico e enfático suspiro, procedimento habitual de confirmação de sua soturna e lúgubre agenda.

E isso foi suficiente a provocar um inesperado e aterrador deslocamento de ar e, por efeito, um tépido e sibilante vento varreu todo o arejado e tão bem cuidado quintal, com algumas folhas secas, esvoaçantes, bailando sem destino e em desatino, enquanto as frestas da janela e porta, em sintonia com as brechas entre as telhas de barro da modesta casa em frente, lamuriavam em arrepiantes assovios a incapacidade de detê-lo.

Maus presságios.

Era madrugada, já quase começo de uma nova manhã. O coaxar dos sapos, nas margens do rio – àquela hora – de suave e silenciosa correnteza, em leito retilíneo, bem ali, logo após a ribanceira, compunha especial sinfonia com o rosnar alucinado dos cães, em contraponto, e o farfalhar sutil do capinzal que esverdeava o vale no lado oposto e balouçava, em sincronia, ao sabor do vento. Não fora isso, e o silêncio reinaria absoluto.

Uma luz de pouco brilho, pálida, esmaecida, se acendeu no interior daquela modesta moradia. De imediato, o vulto mórbido esvaneceu-se. Do nada surgiu; por quase nada evaporou-se, sumiu.

 

Quem ali residia era o velho Bastião, com a sua parceira de longa data. Ali sempre morou. Desde os idos tempos – já lá se vão algumas décadas, mais de meio século em que era conhecido como o Tião da Ciça, um magricela de pele cor de carvão, cabelo de cocô de rolinha, rente ao quengo, e um jeito de ser deveras cativante. Tinhoso, habilidoso e veloz, nunca perdeu a titularidade na ponta direita de qualquer time que naquela região se formasse. Nunca contabilizaram os gols que marcara no curso de sua trajetória de craque do futebol de várzea. Mas foram muitos, com certeza; alguns até de bela construção. Na escola, nunca se houve a contento, não chegava sequer a ser mediano, talvez por considerar aquilo tudo o inaceitável cerceamento da liberdade, cujo usufruto dominava com talento e perfeição. Tal qual um levíssimo pássaro, adorava voar, saltitar de galho em galho. Assim, a sala de aula significava, para ele, a gaiola que lhe anestesiava as asas, empobrecia os sonhos... e tanto lhe entristecia o espírito. Perspicaz e inteligente, ainda moço aprendera a nobre arte de fazer, com esmero e proficiência, o que lhe desse na telha. Era um artífice, na exata dimensão do termo. Sempre esteve nas estatísticas do desemprego, mas nunca lhe faltou trabalho, requisitado que era em tudo que reclamasse algum conserto, algum reparo, alguma reforma – eletricidade, hidráulica, marcenaria, alvenaria, pintura. Se fosse preciso, tirava goteiras de telhados, desentupia esgotos e até capinava. Tião da Ciça era um faz tudo. E, com efeito, merecia a admiração e o respeito de todos.

Filho único, adolesceu, amadureceu, virou homem. Casou-se e, com a anuência dos pais, trouxe a sua prenda para morar com eles. Ali viu os filhos nascerem, crescerem e ganharem o mundo. Sofreu com a despedida de cada um deles, mas sofreu muito mais quando os velhos partiram para a eternidade. Os dois quase ao mesmo tempo. A vida fluía inexoravelmente. Ele envelheceu. Perdeu a candura jovial. Voar, nem pensar. Sorrir mesmo só quando os netos invadiam a sua alma. E o faziam rejuvenescer. Mas eles sempre iam embora. Aposentaram-no. Todos e em tudo. De positivo, só os parcos valores recebidos da previdência. Sentiu-se inválido, quase-morto. E o nada fazer levou-o ao vício da embriaguez, que, é forçoso dizer,dormitava em suas entranhas, masagora despertou. E, para quem se arriscasse a adverti-lo quanto as consequências danosas do álcool, ele tinha uma reação pronta e até grosseira: Nunca me intrometi na sua vidinha; portanto, cuide da sua, que eu cuido da minha.

A poucos passos da sua casa, havia a bodega do Chico Piaba, alcunha que lhe caía muito bem, haja vista o recorrente tipo de tira-gosto que oferecia à sua clientela, quase todos genuinamente cachaceiros e assíduos frequentadores do seu acolhedor alpendre. Lá era onde o Bastião preenchia os desvãos da alma, o vazio da vida. Na verdade, buscava anestesiar-se ante a deprimente dor do esquecimento, da marginalização, da pouca serventia. Não sabia o que era ressaca, porquanto antes que ela azedamente dele se aproximasse, o ritual etílico se reiniciava. Assim, assim. Por motivos vários e até por falta deles.

Naquela noite, o velho e bom Bastião voltou pra casa tropeçando nas próprias pernas, após uma espichada jornada de satisfação do vício que gradativamente o consumia. Cambaleante e taciturno, ele mal cumprimentou a mulher que, como sempre, o recebeu sem cobranças, sem censuras, sem questionamentos, porquanto, conhecendo muito bem o marido, compreendia a situação em sua plenitude, conformava-se por saber ser incapaz de alterar a trajetória dos fatos e admitia que o álcool só a ele causava tanto mal, tantos estragos. Apenas perguntou, com um gesto de carinho, se iria tomar banho e se queria comer alguma coisa. As respostas – Não! e Não! – saíram da boca do amado como sussurros. E os dois, então, silenciaram. Trôpego e inconsciente, ele seguiu até a rede, previamente armada num dos cantos do quarto de dormir, e desabou. Apenas o ronco de poucos decibéis, plenamente suportável, consistia na única prova de que a vida permanecia naquele envelhecido corpo, inerme e inerte.

Logo, a mulher fechou a porta de entrada, reacendeu o coto de vela em agradecimento a Nossa Senhora dos Aflitos por ter trazido de volta, são e salvo – embora bêbado, como sempre, – o seu bem querer, apagou as luzes, acomodou-se no seu aconchegante cantinho na larga cama de casal, e, até pelo cansaço de mais um exigente dia, adormeceu.

Quando o vento morno, ali jamais sentido, soprado por algum fenômeno sobrenatural, vindo das bandas da pródiga mangueira, invadiu o quarto pelas frestas da janela, em assovios pavorosos, Bastião se remexeu violentamente na rede de varandas, gemeu fortemente, num desespero de quem acorda sem saber que já saiu de um pesadelo, contorceu-se numa luta inglória contra arrepios que explodiam, em sequência, como se fossem lavas de vulcão em início de erupção, saídos das profundezas da alma e, embora ainda estivesse sob efeito do álcool, vislumbrou a possibilidade de a Morte estar ali por perto, à espreita, aguardando um vacilo seu. Covarde e traiçoeira.

Sentou-se nas bordas da rede. Notou que a mulher dormia tranquilamente, ou seja, nada a houvera perturbado. Ia levar as mãos ao rosto quando algo diferente chamou-lhe a atenção. Em reação automática, afastou-as o mais que pôde, inclusive uma da outra.

Sob forte arrebatamento, extasiado, levantou-se, acendeu a luz do quarto, olhou novamente para as palmas pálidas e calosas das mãos e o que antes vira apenas em uma delas, a esquerda, mais nitidamente saltou-lhe aos olhos perplexos. Balbuciou, então:

Meu Deus, que diabo é isso?!

A mulher permanecia imóvel, aparentemente dormindo o sono da tranquilidade. Aproximou novamente as mãos ao rosto, arregalou bem os olhos e percebeu que o minúsculo ponto de cor rósea, de baixa luminância, do tamanho da cabeça de alfinete, fixado bem no centro da palma da mão, ali na bifurcação das linhas internas do eme, ampliou-se espontânea e gradativamente até alcançar a forma de um botão de camisa de homem. Verificou que se tratava de uma bola provida de pequenos tentáculos harmonicamente distribuídos por toda a sua superfície. Cotejou aquela insólita imagem com a gravada na memória, recolhida de recentes programas televisivos, e a conclusão fê-lo estremecer. Bastião não se conteve e esbravejou:

É o coronavírus! Puta que pariu a minha velha sogra!

A mulher então despertou e reagiu:

Meu velho, por favor, respeite a memória da minha saudosa mãe!

Mil perdões, minha velha! Mil perdões!

Bastião, o que é que está acontecendo, homem de Deus?!

Nada, mulher! Absolutamente nada!

Você está sentindo alguma coisa? Febre? Parece estar tresvariando…

Que é que é isso?! Eu estou bem. Apenas uma dorzinha de cabeça, cujo motivo você sabe muito bem qual é. Perdi o sono, só isso. O quarto está abafado. Eu acho que vou tomar um ar fresco lá fora.

Você não acha que é arriscar-se demais e sem necessidade, meu velho?

Não, minha velha. Já é quase manhã. O que de mal pode me acontecer?

Tudo bem. Você já está bem crescidinho para responder pelas besteiras que faz.

Silêncio.

Bastião, ainda com a mão esquerda cerrada, como se pretendesse manter aprisionado o coronavírus que ali se instalara, saiu de casa e, cambaleante, tomou o rumo do rio.

Ao chegar à margem pouco declivosa, descalçou-se, desvestiu-se por completo e entrou calmamente naquelas águas frias e claras, até que elas subiram até a altura da cintura. Ali, de pé, lavou as mãos repetidas vezes. Nada de a bolinha rósea desaparecer. Mergulhou e retirou do fundo do rio um punhado de areia e com ela esfregou insistentemente as palmas das mãos. Debalde. Lavou-as inúmeras vezes. E o vírus resistia incólume. Desistiu de tudo aquilo.

Deixou o rio para trás e seguiu para a bodega do Chico Piaba, a quem saudou já com um pedido pouco habitual:

Chico, me prepara um boa e robusta talagada da branquinha. E me traz também uma banda de limão.

O bodegueiro atendeu o pedido do amigo. Mas estranhou o destino por ele dado ao produto servido. Bastião lavou as mãos com o conteúdo do copo, esfregou a banda do limão na palma de uma das mãos e, após olhar fixamente para uma delas, abespinhou-se: Não pode! Isso não é possível! Essa porra tinha de morrer! Mas não morre… Caraca!

O Chico Piaba aproximou-se dele e o interpelou:

Você está perturbado… Por quê?

O bom e velho Bastião, com a esquerda espalmada e o indicador da direita apontando para o centro da mão, indagou com alguma ênfase:

Chico, você está vendo isto aqui?

Não. – Respondeu intrigado o Piaba.

De jeito nenhum? Tem certeza disso?

De jeito nenhum. Eu tenho certeza.

Bastião impacientou-se. Enfezou-se. Não podia ser. Lá estava o ponto de cor rósea. Intacto. Só cego não podia ver. E o Chico disse que não via. Ou fazia de conta que não via.

Procurou acalmar-se. Mudou o rumo da prosa. Pediu ao amigo que se esquecesse daquilo tudo. E acreditasse: Eu não estou louco! Sentou-se numa das cadeiras do alpendre, mantendo a mão esquerda sempre cerrada. Fechou os olhos e concluiu que não poderia voltar pra casa antes de desfazer-se do renitente inquilino de sua mão. Preferia morrer a correr o risco de levar a morte até a sua amada parceira. Isso não. Nunca.

Levantou-se. Dirigiu-se ao balcão. Fez um novo pedido.

Chico, meu amigo, você me confia um litro de cana?  Ah, e mais três limões partidos ao meio… e um copo?!

Lógico que sim, amigo. Desde que você me diga o que pretende fazer.

Eu pretendo andar por aí, ao longo do dia. Preciso pôr em ordem algumas ideias. Talvez siga rio abaixo, até… talvez… quem sabe… até o poço das Pedras.

Vai fazer todo esse trajeto sozinho?

Sim. Distanciamento social.

Pelo amor de Deus, não vá morrer afogado. Sai por aí, sozinho, bebendo… vai acabar fazendo merda.

Não se preocupe, homem de Deus. Tá com medo de ficar no prejuízo? Eu lhe garanto que, se eu morrer, a minha velha paga a conta.

Não é isso não, filho da mãe! Eu não quero é perder um freguês como você.

Ah, bem! Vou acreditar pra não perder o amigo.

Pronto. Pedido atendido. Conforme o desejo do freguês. Fiado… como você quer.

Obrigado, amigo. Até mais ver.

Até. Cuide-se.

E o Bastião partiu para a longa caminhada pelas margens do rio que o viu crescer, virar gente. Fazia algumas paradas. Insistia em lavar as mãos em água corrente, esfregá-las com areia e frustrar-se com a resiliência do vírus. Servia-se, então, de generosa dose de cachaça com limão e retomava a caminhada.

Já era o meio-dia, sol a pino, quando ele chegou ao poço das Pedras. Lembrou-se dos arriscados pulos de ponta-cabeça ou mortais, das braçadas vigorosas para atravessá-lo a nado, dos mergulhos demorados em disputas de quem tinha mais fôlego, dos cangapés. Achou que ia chorar, mas as lágrimas se negaram a participar daquele momento de profunda tristeza. Preparou a última dose de cana, copo quase cheio e sem limão. Pôs o litro vazio sobre a pedra mais alta. Completamente embriagado, aproximou-se das águas tranquilas, abriu a mão esquerda e, no meio da palma já engelhada de tanto ser lavada, acompanhou o movimento de ampliação do vírus, com o minúsculo ponto de cor rósea crescendo até atingir o tamanho de um botão de camisa de homem.

Bastião trouxe a mão esquerda até a boca, lambeu a palma sofregamente, repetidas vezes, e, já quase nada mais vendo, entornou, lenta e suavemente, o copo de aguardente.

Cambaleou. Empertigou-se. Deu um suspiro demorado, profundo. Reteve por algum tempo o ar nos pulmões. Liberou-o lentamente. Fechou os olhos. Despediu-se da mulher, da amada, da parceira de tantas lutas. Agradeceu por tê-lo suportado por tantos anos. Deu alguns curtos passos em direção ao centro do poço. Sentiu a frieza das águas já na metade das magras pernas. Despediu-se dos filhos. Mais alguns passos e já eram as coxas que se molhavam. Pediu perdão aos netos. Prosseguiu com a leveza de quem está decidido a cometer um desatino. E já é a cintura que submerge à flor das águas tranquilas. Lembrou-se do pai e de uma frase quantas vezes por ele repetida: Na hora do fim, por mais que pessoas estejam bem próximas, sozinho você vai morrer. As águas já tocam suavemente a ponta do queixo. Sentiu saudades da mãe, dos seus conselhos, das suas advertências. A sensação, agora, é de que uma força repentina e vigorosa o puxa para o fundo. Não reage. Deixa-se levar. Já nada mais pode fazer. Percebe-se só. E a morte é um ato derradeiro e solitário.

Uma nuvem cor de chumbo encobriu o sol. Algumas bolinhas de ar emergiam sequencialmente e explodiam tão logo chegavam à tremeluzente lâmina d’água. Na copa de uma árvore, o solitário canto de um pássaro: bem te vi… bem que vi…

E ela certamente esteve ali, eficientíssima.

 

A morte do Tião da Ciça não entrará nas estatísticas dos sistemas de controle dos efeitos da pandemia. Será sempre tratado como mais um caso de suicídio.                  

 

“Ela chegara, transparente e invisível, e se sentara à beira da piscina, cruzando as pernas longas, antiquíssima, atual e eterna.” (Moreira Campos, em Dizem que os cães veem coisas).

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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