DIÁRIO DE UM LOCKDOWNED CRIACIONISTA

(Dos guardados, quase esquecidos)

“Cancelei as assinaturas de jornais, excluí a tv da minha vida, salvo ”+vinho” e “o mundo visto de cima” ( cansei de vê-lo de baixo). E a netflix diante da qual porfio em descobrir filmes que não sejam de ninjas vingadouras, da policia de Miami, ou séries de ciência ficção. Ignoro impatrioticamente o cinema Globo, salvas as raras exceções que amigos me animam a assistir. Me ligo nos clássicos, vistos uma centena de vezes: John Wayne e Clint Esstwood fazem a festa no velho Oeste, filmes de guerra, a saga erótica das mulheres de Hoolywood… Jacqueline Deneuve em qualquer filme com aqueles olhos de “fuck me please”. Ou uma homilia do papa… cada coisa a seu tempo, segundo as suas singularidades.

Hoje darei uma saidinha para o “Chez moi”, aqui mesmo pelo Leblon, no terraço do meu isolamento legal, para encarar um “gerwitzaminer” suave, com sabor de mulher inteligente, dessas que não dizem besteira, que, felizmente, a muitas não faltam provisão de inteligência e a beleza essencial de Vinicius de Moraes. Conforme a receita de mulher deixada pelos entendidos, de Casanova a Stanislaw Ponte Preta, essa doce criatura, animada por tantos dotes de aliciamento, tem poucas, raríssimas afinidades com a estultícia e, bonitas como devem ser e indulgentes, nem sob as dolorosas torturas de amor haverão de revelar os seus segredos de sedução.

Estou lendo o “Romance do Corpo”, numa edição espanhola, uma história bem contada e romântica sobre essa complexa invenção que Jeová pôs sobre a terra, tomando o barro da Criação por empréstimo e uma costela nas sobras do cozimento de Adão.

Descobri o corpo feminino, numa perspectiva teórico-anatômica, vitruviana. Me amarrei nos requintes do grande Artesão, pense numa máquina bem construída… Segui o passo a passo da engenhosidade do Criador e da modelagem da sua obra.

De onde o Criador tirou a ideia para modelar a mulher, se Ele não conhecera nenhuma na solidão da Eternidade? Por que lhe aplicou os lábios provocadores, as inquietações da luxúria em comedido território ? E, inexperiente, como escultor dos contornos femininos, atreveu-se a dar-lhe dorso e coxas ainda livres de estrias, imponentes, com a dissimulação dos vales e montanhas da humana criação ? Como inventou a lascívia em ambiente recatado sem narrativas indecorosas que alimentassem a imaginação transgressora?

Desta máquina, ferrari poderosa, inspiradora, não é fácil operar os controles, dar-lhe velocidade; mas é gostoso ouvir-lhe os gemidos roucos que assustam e seduzem quem pilota a salvo, como Ulisses, da sedução das sereias… Muitos manches e botões e a capacidade enorme que este aparelho feminino tem para contestar e impor seus ímpetos indomáveis ao piloto, quanto maiores forem as suas aliciadoras cilindradas… 

Jeová foi imprudente — admitamos com todo o nosso reverencial respeito —, embora de boa fé, como geralmente ocorre às criaturas feitas de cordura, ao proceder as escolhas entre os divinos impulsos que atormentam os viventes. Ao compartilhar “up grade” de grande resolução a esta atraente arquitetura, entretanto, emponderou-a mais do que devera e feminilizou-a a gosto, exacerbando os ciúmes do primeiro morador do Paraíso, fundador da especie — Adão de tal…

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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