Dia do trabalho abstrato escravizador

“Sejam resolutos em não servir e vocês serão livres.” 

Nosso comportamento muda de acordo com a nossa compreensão sobre o significado dos conceitos estabelecidos ao longo da nossa vida, felizmente. É a capacidade de pensar e corrigir rumos o que nos faz avançar na busca do crescimento intelectual humano.

“Cogito, ergo sum!” Disse o filósofo e matemático René Descartes, cuja tradução literal mais correta seria “Penso, portanto sou!”.

Sim, é a partir do pensar que se manifesta a nossa melhor racionalidade,  e não pela repetição irrefletida de conceitos equivocados que se afirmaram antes de nós e sobre os quais repetimos tal como papagaios sem saber o seu significado exato.

Há conceitos que se estabeleceram entre nós como verdades virtuosas imutáveis e que ao longo do tempo foram positivados de modo a conservar equívocos que somente a dialética histórica do movimento pode desconstruir e denunciar as suas falácias essenciais.

Vivia o dia de trabalho! Viva o trabalhador!
Como marxista tradicional que fui, repeti, por anos tal frase a cada primeiro de maio como um mantra revolucionário capaz de nos redimir do inferno capitalista que sempre questionei.

Mesmo sabendo que Karl Marx preconizara a superação do trabalho abstrato produtor de valor, fonte da acumulação capitalista, num futuro no qual teríamos uma sociedade sem classes sociais, a sociedade comunista, não atinava para o fato de que incensar o trabalhador e o trabalho, ambas categorias capitalistas assim consideradas pelo próprio Marx, constituía-se numa contadictio in adjecto.

Jamais percebi que a foice e o martelo, símbolos revolucionários bolcheviques do trabalho no campo e na cidade podiam representar, simultaneamente, a base sobre a qual se ergue a lógica capitalista.

O incenso ao trabalho e ao trabalhador derivou do fato de que o Marx da juventude, período no qual crescia a aglutinação urbana de trabalhadores no processo de industrialização capitalista, considerava que a união desses mesmos trabalhadores em um partido político revolucionário – o partido comunista – poderia fazer uma revolução para a derrubada da ordem político-jurídica e lógica de produção capitalistas.

O Marx da maturidade fez uma correção de rumos que corresponde a uma autocrítica implícita.

Retomou na maturidade o que havia estudado em 1844, quando contava apenas 26 anos (quando escreveu em cadernos a obra “Manuscritos Econômico-filosóficos”, de 1844, somente publicada em 1927 em russo, e em 1932 em alemão) e aprofundou a crítica da economia política (nos Grrundrisse, no qual estudou  e anotou observações e conclusões surpreendentes), na qual previu que com o desenvolvimento tecnológico aplicado à produção de mercadorias (esta última categoria fortemente criticada logo no primeiro capítulo de O Capital) faria voar pelos ares toda a lógica funcional capitalista, como ora ocorre.

Segundo Marx, o conjunto das contradições das categorias capitalistas impulsionaria a guerra de mercado na qual se digladiam os capitalistas e as próprias no confronto épico das mercadorias, cada uma pretendendo autofagicamente atingir a hegemonia dela mesma, e assim, contradisse seus próprios conceitos iniciais, o que jamais foi observado pelos politicistas marxistas tradicionais (Lenin sendo um deles, e Stalin um tosco e insensível ditador).

Os marxistas tradicionais, antimarxistas na essência, de tanto incensarem o trabalho abstrato produtor de valor e escravizador dos que dele participam, deu no que deu!!!

Marx deve teria se revirado no túmulo se pudesse ver que os marxistas tradicionais não se aperceberam da correção de rumos que ele mesmo fizera, tanto que em certo momento afirmou: eu não sou marxista.

 

Ainda ontem vi e ouvi pela televisão (e interrompendo o bom jogo de futebol ao qual eu assistia) um discurso de exaltação ao dia do trabalhado e do trabalhador feito pelo presidente Lula em cadeia nacional com custos pagos pelo erário com o dinheiro dos impostos cobrados aos trabalhadores, que além de sofrerem com a extração de mais valia, ainda pagam pela exploração fiscal estatal de que são vítimas.

Que Lula exalte o trabalhado abstrato produtor de valor e escravizador do qual tira o seu sustento, seja como sindicalista, seja como presidente de um partido de trabalhadores, ou seja como político que exerce o mais alto cargo da estrutura opressora estatal, é explicável, ainda que a partir de uma reflexão mais profunda não seja elogiável.

Lula não quer superar o trabalho abstrato produtor de valor que explora quem o produz, mas apenas defendê-los como bandeira autosustentável de sua própria posição e da visão de mundo de tudo o que defende, principalmente da retomada do desenvolvimento econômico (mais capitalismo) como social-democrata adepto da equivocada da possibilidade de vida harmoniosa entre o capital espoliador e o trabalho abstrato escravizador, ambos complementares entre si, e que ora atinge o seu ponto de saturação inviabilizando a vida social e ecológica.

O dia do trabalho abstrato escravizador e do trabalhador escravizado deveria ser tratado com ao solenidade e lamento do sofrimento a que todos os trabalhadores historicamente são escravizados, seja diretamente (como no feudalismo e antes dele), ou indiretamente (como no capitalismo), e não como festa apote~´otica de vitória e sorteio de brindes (não seriam esmolas?), por se tratar de um processo de segregação e exploração que deve ser superado.

A festa da emancipação humana ainda tem data a ser marcada!
ps.: ouça a música.