A DESASTROSA ENTREVISTA DE MANUELA D’ÁVILA PARA O PROGRAMA RODA VIVA. por Eduardo Fontenele

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A edição do dia 25/06, do programa Roda Viva, da TV Cultura, foi um massacre, onde a vítima foi menos a candidata à presidência da República Manuela D’Ávila (PC do B), mas sim o jornalismo de qualidade, que se diz imparcial. O que se viu foi um atentado contra o bom jornalismo, onde a entrevistada teve o seu direito de expor suas ideias cerceado a todo instante, com interrupções grosseiras constantes de suas falas pelos ditos “jornalistas” da bancada do programa.

Se coloquei jornalistas entre aspas foi propositalmente para enfatizar a falta de preparo dos entrevistadores, que eram extremamente mal-educados (pra dizer o mínimo) com a entrevistada ao ponto de interrompê-la 62 vezes. Sem contar o machismo reacionário e a misoginia evidenciados pelos membros da bancada do Roda Vida, sob a comando do mediador Ricardo Lessa.

Manuela foi constantemente atacada por ser mulher e por ser de esquerda. O caso da candidata foi atípico, se comparado a outros presidenciáveis, homens ou mulheres, que estiveram no programa recentemente. Eles não sofreram tanto com tal falta de respeito. Marina Silva (Rede) foi interrompida apenas 3 vezes, Ciro Gomes (PDT) foi interrompido 8 vezes e Guilherme Boulos (PSOL) foi interrompido 9 vezes.

Manuela, que atualmente é deputada estadual pelo Rio Grande do Sul, e também é jornalista, se manifestou algumas vezes durante o programa para reclamar do tratamento dado a ela pelos entrevistadores, ela disse para o economista e filósofo Joel Pinheiro, que estava na bancada: “Eu posso terminar alguma frase?”.

A parte mais acalorada do debate foi quando a deputada gaúcha passou a se digladiar verbalmente com Frederico D’Ávila, coordenador do programa rural do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), adversário político e ideológico do partido da candidata. Em outro momento, após uma saraivada de interrupções e de ataques envolvendo o nome do ex-presidente Lula, amigo de Manuela, a bela candidata à presidência reclamou: “Vocês gostam de falar mais do que eu. É fantástico.”

O nome dado pela literatura feminista a esse ato praticado pelos entrevistadores do Roda Vida é chamado de “Manterrupting”, que é um termo que junta as palavras em inglês “man” (homem) e “interrupting” (interrompendo). Significa “homens que interrompem”. É quando uma mulher é constantemente interrompida em sua fala por homens presentes no ambiente e não consegue desenvolver sua linha de raciocínio devido a isso. O objetivo é desestabilizá-la emocionalmente. É mais comum do que se imagina no ambiente de trabalho. É uma forma de discriminação contra o sexo feminino, ou misoginia.

Ricardo Lessa negou que tenha havido discriminação. Segundo ele, a candidata teve mais de 50% de cada bloco do programa para falar sem interrupções. Ele acrescentou que ela teve mais de 40 minutos de falas limpas, de um total de 80 minutos. Ele disse que é normal que um debate fique acalorado. Segundo o jornalista, não é questão de gênero, mas de jornalismo. Ele disse que ela não saiu do programa se sentindo vítima de ninguém, e que essa repercussão negativa surgiu depois do término do Roda Viva.

A candidata recebeu o abraço solidário de muita pessoas, indignadas com o tratamento que ela recebeu. Ela deu seu depoimento depois do programa comentando o que ocorreu em sua desastrada entrevista e agradecendo o apoio das pessoas que se manifestaram a seu favor. “Agradeço a solidariedade e os elogios por ter, em ambiente tão violentamente hostil, apresentado propostas consistentes e lutado o bom combate”. Ela completou: “É revoltante mesmo o que houve. Mas é assim todo dia com as mulheres, e não só na política: no trabalho, na universidade, em casa”.

Manuela ainda disse que esse tipo de situação não é algo excepcional, que isso não é exceção, que é regra e não exceção, e que é assim que as mulheres vivem todos os dias e fazem sua luta desta forma.

Pelas redes sociais, Marina Silva declarou apoio a Manuela. Ela disse que nem homem nem mulher “pode sofrer interrupção de suas falas no ato de expor suas propostas e ideias, pelo bem de uma cultura de paz e pelo bem do País”. Pelo Twitter, Ciro Gomes também se manifestou favoravelmente à candidata. Ele se solidarizou com Manuela, referindo-se a ela como querida amiga e como uma das maiores lideranças políticas do Brasil. Ele concluiu dizendo que não vão conseguir calar a voz da deputada gaúcha.

O episódio narrado neste texto só ilustra a luta das mulheres por ter sua voz ouvida e da esquerda por ter suas propostas para o País reconhecidas em sua viabilidade. Ainda que uma imprensa retrógrada, que age como uma facção, tente calar quem possua uma proposta política dissidente da ideologia conservadora que se encontra atualmente no poder.

 

 

Eduardo Fontenele

Eduardo Fontenele

Eduardo Fontenele formou-se em jornalismo pela Devry Fanor em 2016, publicou o livro de contos Abstrações em 2017 e é administrador dos blogs Drops de Filmes e Pensando desde 1978.

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