Deriva poético-filosófica

Fiquei preocupado com a beleza e saí por aí andando. Saí andando como um peripatético, mais patético do que peripatético, sem dinheiro próprio e pensando em por que diachos, dentre tantas funções no mundo, escolhi duas que normalmente não possuem lugar: a poesia e a filosofia. Isso depois de assistir uma aula à distância de uma cadeira sobre Filosofia e Medicina: de Hipócrates a René Descartes, sem que eu soubesse direito o que deveria apresentar na semana seguinte e como deveria ser o artigo final. Se eu estivesse na França, quem sabe até poderia fazer algum sentido, estaria flanando, mas estou no meu quase bairro, o José Walter.  

A princípio, não me ajustei muito bem às demandas da cadeira; e no caminho pensei numa ideia de Nietzsche contida no prólogo da Gaia ciência: “Eu espero ainda que um médico filosófico, no sentido excepcional do termo – alguém que persiga o problema da saúde geral de um povo, uma época, de uma raça, da humanidade –, tenha futuramente a coragem de levar ao cúmulo a minha suspeita e arriscar a seguinte afirmação: em todo o filosofar, até o momento, a questão não foi absolutamente a ‘verdade’, mas algo diferente, como saúde, futuro, poder, crescimento, vida…”. Certeiro. Nietzsche estava certo quando dizia que apenas os pensamentos que temos caminhando possuem algum valor.

Fui à lagoa do bairro e nem tão ritualisticamente fumei, caminhando tracei meu eterno retorno no entorno desta ideia. Ora, na condição de filósofo ou poeta, o único diagnóstico que me cabe é este, e no meu entender existe uma frase de Paulo Arantes que não para um instante de martelar na minha cabeça, sobretudo após a pandemia de Covid-19: “o paradigma da política só pode ser a medicina de urgência”. Entramos na zona limite da experiência de um tempo (abstrato) que está forçosamente vinculado ao caráter negativo do esquecimento, a falta de consciência histórica, e tudo ocorre como se não houvesse amanhã – já que o ontem também nos foi negado –, então coube-nos um presentismo falso, a gestão de uma sociabilidade em declínio.

Para terminar esta parte da prosa, lembro que três marcos se tornaram cruciais para quem tornou-se adulto no século XXI: vi na televisão as torres gêmeas, o World Trade Center, caírem aos treze anos de idade, indo a um colégio de freira; considerei incontornável, aos vinte anos, o alastramento da debacle financeira em 2008 (até então esse era o principal marco); agora, aos trinta e dois, me vejo de máscara, fumando e catando algum fragmento de beleza no meu eterno retorno em volta da lagoa do bairro.

Ainda não havia concluído o percurso patético, até que resolvo ir à casa do amigo Sebastião – não aquele que se perdeu no Marrocos. Uma hospitalidade de amigos que de alguma maneira enxergam o mundo e o caráter de sua crise, um café, um suco de limão, um almoço e histórias que talvez eu consiga sintetizar em algumas palavras. Todo povo precisa de um mito fundante e um centro histórico; nós, de Fortaleza, não temos nem um, nem outro. O Brasil, de um lado, também não tem, e de outro, tentou forjar culturalmente uma identidade nacional a partir do que resultou do choque de culturas e povos que ou aqui já estavam, ou chegaram visando pilhagem, ou acorrentados em navios negreiros, ou migrando ao longo do tempo. Se Fortaleza não tem, o Brasil está num limiar, e a mais megalômana das ideias é a de um integralista que batizou uma editora: civilização brasileira. Civilização. Diagnostiquem-na.

Sebastião sentia-se um escritor frustrado porque sabia de um “índio” guerreiro, que lutou numa batalha em que se reuniram sete povos “indígenas” contra as primeiras expedições dos brancos, esse sim merecedor de um romance, de alguma narrativa além das de José de Alencar, nosso conterrâneo. Caberia a ele contar melhor a história, e escrever o que é preciso. Então me veio à mente uma ideia a que eu pouco dava atenção, de Drummond, em Procura da Poesia: “Penetra surdamente no reino das palavras./ Lá estão os poemas que esperam ser escritos./ Estão paralisados, mas não há desespero,/ há calma e frescura na superfície intata./ Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário./ Convive com teus poemas, antes de escrevê-los./ Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam./ Espera que cada um se realize e consume/ com seu poder de palavra/ e seu poder de silêncio./ Não forces o poema a desprender-se do limbo./ Não colhas no chão o poema que se perdeu./ Não adules o poema. Aceita-o/ como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada/ no espaço”.

Existe algo da teoria das ideias-formas de Platão nesta concepção da poesia em Drummond. Eu estava buscando justamente algo que fizesse casar poesia e filosofia, como em seu poema Morte do Leiteiro, em que o sangue do entregador se mistura com o leite num tiro dado pontualmente na hora incerta e forma um tom a que chamamos aurora, e forma um tom chamado barroco: luz e sombra, beleza e terror. Parece ser outra a psicologia da composição em Augusto dos Anjos, no poema Ideia: “De onde ela vem?! De que matéria bruta/ Vem essa luz que sobre as nebulosas/ Cai de incógnitas criptas misteriosas/ Como as estalactites duma gruta?!/ Vem da psicogenética e alta luta/ Do feixe de moléculas nervosas,/ Que, em desintegrações maravilhosas,/ Delibera, e depois, quer e executa!/ Vem do encéfalo absconso que a constringe,/ Chega em seguida às cordas do laringe,/ Tísica, tênue, mínima, raquítica…/ Quebra a força centrípeta que a amarra,/ Mas, de repente, e quase morta, esbarra/ No mulambo da língua paralítica”.

Existe uma bela imagem de Augusto ao enlaçar o macrocosmo, no caso as nebulosas, e o microcosmo, o mais recôndito, no caso as estalactites de uma gruta. Existe uma serena e severa consciência, neste poema, que pensamento e língua não são uma só e mesma coisa, existe um abismo entre a ideia e o mulambo da língua paralítica. A este salto acredito que se proponham poetas e filósofos, que ficam como caçadores à espreita do momento exato de dar forma àquilo que por algum tempo vagueou à sua vista, mas ainda não era possível alçar.

De volta ao último choque social, a pandemia, 2020: se na primeira revolução industrial tivemos a mecânica como paradigma, na segunda tivemos o eletromagnetismo; se na terceira tivemos a microeletrônica e o desenvolvimento da informática, na quarta temos nanotecnologia, inteligência artificial e assim em diante: não mais deus ex machina, nem mesmo hominem ex machina, mas machina ex hominem. Todo esse desenvolvimento é fruto de uma utopia científica e liberal-estatista que, hoje, se apresenta incapaz de dar o salto que, espero, o sonho humano ainda alimente: o de não recuar frente ao abismo da crise e encontrar uma alternativa. 

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Escritor, crítico e ensaísta. Livros publicados em 2020 em formato digital, possíveis de serem adquiridos com o autor: Bibelô de recordações; Relicário perdido; Heteronímia; Crônico; Rústico. Licenciado e Mestre em Filosofia pela UECE, Doutorando pela UFRJ. Reikiano e Massoterapeuta pelo espaço Ekobé. Perfil no instagram: @pedrenrique_insta. Encontra-se desempregado e qualquer contato pode ser feito também pelo e-mail: [email protected]

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