DEMOCRACIA VIRTUAL E ANALÓGICA

A “intelligentsia” para tornar-se pós-moderna passou por grandes transformações e penitências exemplares. Tanto como linguagem quanto como instrumento de comunicação foi forçada a adaptar-se a novas e insuspeitadas circunstâncias.

O saber ancestral alcançou o auge da sua importância com os copistas, na versão impressa dos incunábulos pós-Gutenberg e na mídia de papel. Eram, em fases seguidas, manifestações “analógicas”.

Como formatação nova a intelligentsia fez-se virtual e caiu no gosto da web. De analógica a virtual percorreu um longo caminho de surpreendentes novidades tecnológicas.

No Brasil, a revolução foi mais profunda.

Já não éramos dados a ler na primitiva forma de papel impresso, agora deixamos de ler com a ajuda da internet e dos meios auxiliares nas nuvens ou na telinha do monitor. Seremos alfabetos funcionais até mesmo nos espaços das páginas infinitas da web. E desvalidos dos benefícios do saber, transitados nos tabletes e smartphones

O mote deixado por responder era o desinteresse pela leitura. A falta de hábito, serei mais indulgente nessas amargas acrimonias.

Se pouco líamos em papel impresso e belas encadernações, o que esperar que possa encorajar essas mesmas criaturas a lerem no monitor de um smartphone ou de outro artefato dessa numerosa família de numerosos apetrechos ? O contraste, a luminosidade e as restrições da visão mecânica das páginas que o livro impresso permite, reduz o prazer da leitura do texto sobre papel. Mal comparando, tome-se o relógio de ponteiros e o de registro numérico. No primeiro, há espaços presentes, passados e futuros. O tempo presente, o tempo pretérito e o tempo anunciado. No relógio eletrônico, só existe o tempo presente…

Os estudantes, que passaram a sê-lo “a distância”, fazem as suas desobrigas longe dos professores, entidades falantes que mal conhecem, o que, aliás, pode ser uma saída protecionista compreensível. (Não me obriguem a dizer porquê).

Estudam em apostilas virtuais ou em ambientes coletivos que vêm a ser uma aula, sem professor. Textos sem voz…

Não que se devesse esperar que essa garotada com pressa de futuro preferisse livros de papel para guardar. Nada mais brega do que livro em papel, condenariam alguns membros dessa comunidade wok/queer em via de mudar o mudo e eliminar o que havia de melhor na Criação — a diferença de sexos.

A democracia analógica seria, mal comparando, o registro estático de conceitos e preceitos de longa duração, transformados em regras e ordenamentos. A virtual gozaria da amplitude que justificaria racionalmente a essência das liberdades que marcam e fixam os domínios da democracia.

Os juristas, intérpretes das leis, são burocratas conspícuos que fazem da hermenêutica a chave do entendimento da verdade e da revelação das coisas e dos seus verdadeiros propósitos…

O que haverá de ser destes pareceres e sentenças, dos “consideranda” profusos que inundam as razões de justiça e dos artigos e parágrafos únicos que absolvem, condenam e perdoam suspeitos e convictos de toda ordem? Quem os ler, um dia, em um exaustivo esforço de arqueologia processual, o que encontrará, além dos tropos circuncidados pela semântica e das intenções dissimuladas e por todos esquecidas?

Quanto tempo durará a tirania da mentira ou a metamorfose da verdade nas mãos de criaturas verbalizadoras, dominadas pela ânsia dos seus entendimentos, “ressignificáveis”, para empregar esta palavra da moda?

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.