Declaração-justificativa de voto, por Luana Monteiro

Antes de escrever este texto pensei em fazer algo mais concreto, mais concreto que a realidade esmagadora tem conseguido ser, para poder expressar que preferiria não votar. Na situação em que nos encontramos declarar voto parece só mais um gesto de vaidade.

Porém, vemos que uma inexorável farsa destrutiva da “tão sonhada” (não digo correta) democracia é o que se alastra a cada minuto. Apesar de não ver com muita clareza, em um cenário que inspira pouca fé, motivos para aceitar o processo falseável que é a eleição, sinto a necessidade de dirigir meu dedo e escolher com decisão.

Outrora, minha negação do ato de votar era resultante de uma expressão ideológica, como forma declarada de negação ao sistema político vigente. Hoje o que eu sinto é, porém, tão mais palpável: uma realidade demente e cruel de indivíduos que clamam pelo fim dos seus direitos e pelo fim da obrigação que um Estado deve à sua nação. Temo pelo fim dos meus próprios direitos enquanto mulher (atualmente ainda estatutária de uma figura masculina). Temo por não conseguir, ainda mais, andar livremente na rua. Tenho medo de perder meu poder de expressão e minha possibilidade de atuação. Desenha-se cada vez mais um cenário onde o conservadorismo é central e a moeda de troca é a violência. Isso faz com que aquilo que temo, por minha parte e pela de outras minorias, não esteja assim tão distante.

Em meio a tantos jargões, vejo o gritante vazio. A pobreza extrema de ideias e soluções. Acredito que em verdade já não há mais o que se dizer. A elite desenha em letras garrafais cada vez maiores seus projetos de privatizações e privações aos desprovidos de recursos, dependentes dos serviços ainda fornecidos pelo Estado. Enquanto isso, Fortaleza se destaca por ser a capital que desponta no índice de “dançarinos” conservadores de rua. Uma cidade tão desigual que acolhe no mínimo uma favela dentro de cada recinto da elite. Uma cidade retrato da intolerância que cresce no país.

Em um projeto gigantesco de danos sociais não calculáveis, Estado e empresariado podre de rico se juntam para concretizar a política do “deixa morrer”. E quem morre no final? O mesmo sujeito pobre, o ingrediente principal para as grandes manobras historicamente realizadas no país, que morde a isca e entra na dança dos gigantes. É um complexo de ventríloquo que nos segue.

Por medo do futuro incerto que nos espera, caio novamente nas armadilhas da democracia representativa: escolher alguém e presentear sua atuação com meu termo de concordância. E por uma busca (incoerente no fundo) de ideologia na política, por vontade de ver boas transformação capazes de gerar desenvolvimento social através de direitos – não de sua retirada –, ainda escolho a figura daquele que foi capaz de gerar tantas mudanças nesse país. Poderia ter feito muito mais. Poderia ter possibilitado mais conhecimento e voz ao povo. Isso para que não nos víssemos na situação de ignorância generalizada e de desejo pelo cruel e injusto como nos encontramos atualmente.

A decisão pelo voto, nas atuais circunstâncias, se apresenta menos, em minha pessoa, por uma escolha ideológica e mais por medo de ver e sofrer privações de direitos básicos que foram conseguidos a tanto custo. Sem falar nos muitos que se encontram em processo de construção.

Opto por aquele que tem nos direitos sociais o foco de atuação. Lula não é candidato porque a armadilha o prendeu justamente para que a elite conservadora não corresse o risco de o ter novamente no poder. Sua popularidade é alta. O motivo não é vão. O impedimento de sua candidatura, assim como o processo de deposição de Dilma, são os atestados mais claros do fim do social como uma questão pública. Fernando Haddad é o candidato presidenciável que tem o apoio de Lula. E por manter um direcionamento político que o torna próximo do desenvolvimento social, meu voto vai para Haddad.

 

Por Luana Monteiro

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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