DE REPENTE, AS VOZES ESQUECIDAS DE VELHAS GRAVAÇÕES PERDIDAS.

Melhor se o general Mourão tivesse ficado calado. Os argumentos que trouxe a público sobre uma herança macabra são pífios e o tom, pouco respeitoso.

Afinal, às vítimas são imputados crimes cometidos. As vítimas não se tornaram vítimas simplesmente porque eram vítimas. Nos conflitos politico-ideológicos, revolucionários, as vítimas são, em princípio, criminosos putativos. Da mesma forma que seriam os seus algozes, vítimas, em um inesperado desenlace alternativo.

A exumação de lembranças guardadas pelo silêncio do esquecimento, que a muitos tranquilizava, trouxe, de volta, antigos pesadelos. Se a recordação incomoda e assusta, o silêncio sobre esse passado aprofunda velhas dores e culpas dissimuladas.

Os registros que alimentam a História, tomados como fonte primária de informação, podem ser interpretados à luz de ideologias e dogmas de fé, podem ser manipulados, conforme as circunstâncias e as preferências dos analistas. Mas ao analista cuidadoso e atento, ao pesquisador criterioso, não escaparão os argumentos da razão; tampouco o grotesco das caricaturas “ad hominem” que pretendem asfixiar os fatos e desqualificar a sua importância.

A história é construída pelos fatos, pelas suas circuntâncias e pela conjuntura que os determinaram.

A história não funciona a semelhança de um “consórcio”, no qual a vontade dominante molda a “verdade” e esconde o que lhe pareça indesejável, rotulando-a como “mentira”.

As vozes trazidas aos nossos ouvidos em gravações envelhecidas não ressuscitarão os mortos — nem as vítimas —, nem os seus algozes, mas devolverão episódios perdidos e por muitos ignorados. Não há como os ignorar.

No campo dos procedimentos historiográficos, os fatos, a contrário da processualística do judiciária, não podem ser arquivados ou esquecidos “por decurso de prazo” ou por censura orgânica.

Não se há de permitir, entretanto, que, as trilhas de gravações recolhidas ao baú da conveniência, se transformem em denúncias a serviço de interesses partidários e de manipulações ideológicas, no curso de um ano eleitoral. Nem contra as vítimas, nem contra os seus verdugos, personagens eventuais de arrimo de candidatos que não descobriram em nome do que e de quem disputam um mandato representativo.

Por que vestir agora a infâmia com a mortalha dos mortos, em um país no qual se aprofundam o ódio e o medo pelos motivos mais fortuitos?

Ontem, pelo dissenso formado entre ideologias mal formuladas. Hoje, pelo consenso arranjado em torno de interesses e ideias em busca de uma razão ideológica.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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