DE CUPINS, DE LIVROS E DAS ARTES DE MESTRE ANTÔNIO, OFICIAL MARCENEIRO DE MUITOS MÉRITOS RECONHECIDOS

Poucas pessoas avisadas conhecerão a dificuldade de doar uma biblioteca em vida.

A primeira suspeita que ocorre a quem recebe a proposta desrespeitosa é de que esteja sendo vítima de um assédio indecente por quem pretende desfazer-se de coisas imprestáveis.

Se for uma bibliotecária de carreira, poderá presumir que se trate de livros roubados ou de publicações fora de uso, sobras de obras retiradas de estantes bichadas. Pensará, ligo, em evitar o contágio com os livros sãos e virgens de leitores que lhe cabe cuidar.

No sebo, só comprarão no peso, nunca se sabe, afinal, para quê servirão os livros usados do acervo de um intelectual carecido de uns trocados.

Se o destinatário for um intelectual, a vaidade induzirá o adquirente a desqualificar a mercadoria. Logo ele, um homem respeitado pela cultura presumida, deveria comprar aquela pilha pretensiosa de livros sem valia?

Chamado um bibliófilo para avaliar os lotes de livros oferecidos, o especialista ficará horrorizado ao perceber que alguns livros estão seriamente comprometidos com anotações deixadas às margens pelo proprietário de origem:

“ — Está tudo riscado! Donde se viu escrever em livros?”.

Nada mais razoável, afinal os livros, na visão objetiva do bibliófilo, não se destinam à leitura, mas a um mercado de compradores orientados por catálogos com cotação internacional de preços. Livro não é um investimento intelectual, sabe-se disso: é uma aplicação de capital que deve atender às regras de lucratividade. Assim como pâté de fois gras ou um vinho educado de terroir garantido.

Consideradas todas essas possibilidades, convenci-me de que os livros não deveriam estar entre os bens de raiz de ninguém. Muito menos de intelectuais, professores, gentinha que não sabe para que serve dinheiro, pelo simples fato de não o possuir.

Bem fazem algumas viúvas, em desfazerem-se da livralhada legada pelo marido. Nem todas se comportam assim, bem se vê, porque entre elas há as estouvadas, capazes de se afeiçoarem aos desvios dos companheiros. Há mulher para tudo.

A derradeira esperança está nas térmitas, vorazes usuárias de coisas impressas em papel.

Há, entretanto, quem não tenha sorte no aprovisionamento prudente de cupins. Como eu.

Contratei um marceneiro e pedi-lhe que atentasse para um inimigo mortal dos livros, que procurasse madeiras deputadas e capazes de resistirem ao ataque desses animaizinhos postos entre os livros por Deus na sua infinidade bondade. Devo ter exagerado na recomendação. Mestre Antônio, concluída a obra magistral, garantiu-me, orgulhoso, afagando as prateleiras incomíveis de cedro, com um argumento cabal:

“ — O senhor embarca antes dessa madeira de lei ser bicada por cupim, doutor”.

Estou suspeitando de que mestre Antônio tem uma capacidade particular de ver as coisas…

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.