DE CABRAL A TIRADENTES: Com a Corda no Pescoço

NOSSA$ MOEDA$

Mais de 10 anos depois da Independência do Brasil (1822), a primeira moeda brasileira foi o REAL IMPÉRIO (1833 a 1888), ainda baseada no sistema monetário português.  

A segunda moeda oficial no Brasil foi o “REAL REPÚBLICA” (1889-1942). Com a Proclamação (1889), foram emitidas novas cédulas. Os símbolos imperiais foram trocados pelos símbolos republicanos. Mil Réisera praticamente o nome da moeda, já que valia mil dos antigos Reais do Império.

Embora “oficial”, não tem consistência a afirmação de que a moeda continuou sendo a mesma. Além da mudança do nome, a segunda moeda foi valorizada mil vezes: um Réis da República passou a valer 1.000 dos antigos Réis do Império. Um novo padrão monetário, portanto.

Aconteceu aí o primeiro corte de 3 zeros (3 casas decimais) na nossa moeda. Em outras palavras: o montante equivalente a “Mil Réis” era chamado de “Contos de Réis”, isto é, um milhão de Réis do antigo Império.

Algumas das novas cédulas em circulação:

Em 1879, a cédula de 500 mil Réis; em 1880, a cédula de 500 Réis; ambas com a efígie de Dom Pedro II.

Entre 1923 e 1926, a famosa cédula de Um Conto de Réis, com a efígie de Dom Pedro I. Valia 1 milhão de Réis.

Em 1925, Governo Artur Bernardes, a nota de 20 mil Réis, com a efígie de Deodoro da Fonseca, primeiro Presidente do Brasil.

O Réis republicano foi substituído pelo CRUZEIRO – Cr$, criado por Getúlio Vargas no Estado Novo (1937-1945). 1 Cruzeiro equivalia a 1.000 Réis, ou 1 Conto de Réis. Vigorou de 1942 a 1967.

Getúlio tinha sido Ministro da Fazenda (15.12.1926 a 17.12.1927) no governo do Presidente Washington Luís. Já tinha, portanto, uma afeição pela importância do padrão monetário e pelo significado da moeda.

A primeira cédula a circular nesse padrão monetário foi a cédula de 1 Cruzeiro, com a efígie do Marquês de Tamandaré. Ficou na memória dos brasileiros.

O Ano de 1963, quando ainda vigorava o Cruzeiro, foi marcado por grande instabilidade política e, especialmente, muita turbulência no âmbito fazendário e financeiro.

Nesse ano o Brasil teve nada menos do que 6 (seis) Ministros da Fazenda:

Miguel Calmon
Santiago Dantas (Chanceler no governo João Goulart, 1961-1964)
Antônio Balbino
Carvalho Pinto
Hélio Bicudo
Ney Galvão

Média de 1 ministro a cada 2 meses.

Naquela década de 60, houve um momento em que a cédula brasileira de maior valor era a de Cr$ 1.000,00 (mil Cruzeiros), trazendo na efígie o “descobridor” do Brasil Pedro Álvares CABRAL. Devido à sua cor amarelada, logo ficou popularmente conhecida como “abobrinha”, conceito que também rotulava qualquer “conversa fiada”.

A inflação era muito alta para os padrões da época. Com o aumento desenfreado de preços, o salário perdia a cada dia seu poder de compra.

Daí a frase do Millôr:

– “Vocês já repararam como em cada nota de mil a expressão do Cabral está mais preocupada?”

Foi então preciso lançar uma nota de valor mais elevado. Surgiu a famosa cédula de Cr$ 5.000 (cinco milCruzeiros), com a efígie de TIRADENTES, realce desta publicação. Era primeiramente azul de fome. Mas foi ficando avermelhada, talvez de vergonha, já que o nosso Mártir deu sua vida para livrar o Brasil do “quinto do ouro” (20 por cento de imposto cobrado pela Coroa de Portugal  sobre o precioso metal encontrado em suas colônias).

Com pouco tempo, a moeda brasileira já havia perdido 1.000 vezes seu poder aquisitivo. O governo decidiu mais uma vez aumentar 1.000 vezes o valor do dinheiro. 1967 a 1970. Passou a vigorar o CRUZEIRO NOVO – NCr$.

Enquanto as novas cédulas de NCr$ não eram emitidas, as notas de Cr$ em circulação eram carimbadas pelo Banco Central. De tal modo que, para exemplificar, 1 Tiradentes, que antes valia 5 mil Cruzeiros, passou a valer 5 Cruzeiros Novos.

Botaram um N na frente mas, aliteração à parte, não deu em nada.

A inflação era galopante. O poder aquisitivo da cédula de CR$ 10.000,00 (dez mil Cruzeiros), lançada com a efígie de Santos Dumont, em pouco tempo virou uma bagatelae voou pelos ares  (N.A).


OS PRESIDENTES E OS MINISTROS

No regime militar instalado em 1964, houve Ministros da Fazenda e do Planejamento famosos por seu conhecimento técnico sobre Economia, Finanças Públicas e Moeda:

Octávio Gouvêa de Bulhões, que assinou as cédulas de CR$ 5 mil Cruzeiros e de 5 Cruzeiros Novos, com estampa de Tiradentes. Foi Ministro da Fazenda no Governo Castelo Branco (04.04.1964 a 16.03.1967).Criador do BNH e do SERPRO. Advogado, Doutor em Economia pela UFRJ e Especializado pela American University. Liberal, influenciado por Adam Smith (“A Riqueza das Nações”).

– Roberto Campos (conhecido como Bobby Fields, por sua ideologia entreguista, defesa do capital estrangeiro e do Estado minimalista). Foi Ministro do Planejamento no mesmo período. Economista, Filósofo, Teólogo, Escritor (Membro da ABL) e Diplomata de carreira. Havia presidido o BNDES no governo Juscelino Kubitschek. Foi Embaixador do Brasil em Washington no governo João Goulart; e em Londres no governo Ernesto Geisel

Delfim Netto, fautor do “Milagre Econômico” e do lema “Deixa o bolo crescer pra depois dividir”. Catedrático da USP. Foi Ministro da Fazenda no governo Emílio Médici(17.03.1967 a 15.03.1974). Moeda: NCr$ Cruzeiro Novo(1967-1970). Foi embaixador do Brasil na França (1974 a1978), Ministro da Agricultura (1979) e Ministro do Planejamento (1979 a 1985)

Mário Henrique Simonsen, estrela de primeira grandeza da Fundação Getúlio Vargas e da UNB. Especializado em Macroeconomia. Foi Ministro da Fazenda no governo Ernesto Geisel (16.03.1974 a 15.03.1979) e Ministro do Planejamento no governo de João Batista Figueiredo (15.03.79 a 10.08.1979). Não caiu na tentação de trocar o nome da moeda. Desentendeu-se com Delfim Netto. Era mais Keynesiano Estruturalista do que Monetarista.

– – Simonsen era um caso à parte. Além de Engenheiro, Economista e Professor, era também Músico erudito (operista clássico). Vozeirão potente, cantava árias ao piano. Associava o papel do econometrista ao de um maestro, conduzindo sua obra. Foi Presidente da Orquestra Sinfônica Brasileira.

– – Seu Assessor de Imprensa no Ministério, amigo de noitadas e boemias cariocas, era o jornalista cearense Nertan Macedo, que havia sido Secretário de Comunicação no primeiro governo Virgílio Távora e colega de Simonsen na Confederação Nacional da Indústria.

– – Uma vez, no Rio, fui com o Nertan no restaurante Antiquarius, do qual Simonsen era assíduo frequentador. Prato escolhido: “Arroz de Frutos do Mar à Mario Simonsenque ali comia, bebia e fumava exageradamente. Enquanto chegava a janta, haja goles, histórias e estórias sobre a vida e o estilo do Ministro.

– – Sobre o caos urbano no Rio de Janeiro, antes denunciado por Millôr Fernandes e, anos depois,decantado por Chico Buarque (As Caravanas), profetizou Simonsen (Veja, 1986):  

“No dia em que descerem os morros do Rio, famintos e desnorteados, como soldados abandonados por seus generais, eles tomarão conta da cidade, da zona norte, sul e as classes médias e ricas serão prisioneiras de suas próprias avarezas e descuidos com os mais pobres. Será como um exército de centuriões romanos, de olhos arregalados, famélicos, entorpecidos e desesperados, tentando a última conquista antes da morte.”

Ernani Galvêas sucedeu a Simonsen no Ministério da Fazenda, governo João Figueiredo (18.01.1980 a 14.03.1985).

Bulhões, Delfim e Roberto Campos eram considerados monstros sagrados da Economia, porém influenciados pela Escola Monetarista (Milton Friedman). Estavam mais para Adam Smith do que para Lord Keynes (Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda).


DINHEIRO TROCADO

O fato é que o “N de Cruzeiro “Novo não deu certo. O dinheiro voltou a se chamar CRUZEIRO (1970-1986).

O antigo Cruzeiro não resolveu. Veio então o “CRUZADO” (1986-1989).

O Cruzado também não emplacou. Veio o CRUZADO NOVO (1989-1990).

O Cruzado Novo não deu conta do recado. Pela terceira vez, nossa moeda voltou a se chamar CRUZEIRO (1990-1993).

O Cruzeiro não correspondeu. Com o governo Itamar Franco, adveio o CRUZEIRO REAL (Janeiro de 1993 a Junho de 1994).

A nova moeda conseguiu avanços na primeira metade do novo governo, mas a inflação dava sinais de recrudescimento.

Era estrategicamente preciso, naquele momento, estrangular o dragão.

Ainda com Itamar Franco na Presidência, surgiu o “Plano Real” (denominação do Plano Econômico criado por FHC, seu Ministro da Fazenda). Mas, até 30.06.1994, a moeda era o Cruzeiro Real (CR$).

Somente em 01.07.1994 é que foi criada a moeda “Real” (R$), quando já era Ministro da Fazenda Rubens Recupero (FHC já havia deixado o Ministério para se candidatar à Presidência da República).

Sobreveio o governo Fernando Henrique Cardoso, que cuidou de preservar o Plano Real e a moeda Real, por ele criados. Ministro da Fazenda: Pedro Malan.

A inflação foi reduzida a índices de crescimento lento. Em vigor de Julho de 1994 aos dias atuais, o Real vem atravessando os governos Lula, Dilma Roussef, Michel Temer e Bolsonaro.

Em síntese, grosso modo: desde o Grito da Independência, do povo heroico o brado retumbante, até os dias de hoje, oBrasil teve, nesses 200 anos, 10 (dez) moedas:

1. Real Império ou Réis (1833 a 1888). Dom Pedro I e Dom Pedro II.
2. Real República ou Mil Réis (1889-1942). Governo Deodoro da Fonseca e seguintes.
3. Cr$ Cruzeiro (1942-1967). Governo Getúlio Vargas e seguintes. 1 Cruzeiro passou a valer 1.000 Réis.
4. NCr$ Cruzeiro Novo (1967-1970). Governo Castelo Branco. 1 Cruzeiro Novo passou a valer 1.000 Cruzeiros.
5. Cr$ Cruzeiro (1970-1986). Governo Ernesto Geisel e seguintes. Não houve valorização da moeda.
6. Cz$ Cruzado (1986-1989). Governo Sarney. 1 Cruzado passou a valer 1.000 Cruzeiros Novos.
7. NCz$ Cruzado Novo (1989-1990). Governo Sarney. 1 Cruzado Novo passou a valer 1.000 Cruzados.
8. Cr$ Cruzeiro (1990-1993). Governo Collor. Voltou a vigorar o Cruzeiro. Não houve valorização da moeda.
9. CR$ Cruzeiro Real (Janeiro de 1993 a Junho de 1994).Governo Itamar Franco. 1 Cruzeiro Real passou a valer 1.000 Cruzeiros.
10. R$ Real (Julho de 1994 até hoje). Governos Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e seguintes. 1 Real passou a valer 2,75 Cruzeiros Reais.


ESPIRAL INFLACIONÁRIA E PLANOS ECONÔMICOS

Primeiro governo Getúlio Vargas (1937-1945):
– 20% em 1944
15% em 1945

Governo Dutra (1946-1951):
9% em 1947 (a emissão de moeda foi praticamente zero)
12% em 1950

Segundo governo Getúlio Vargas (1951-1954):
12% em 1951
21% em 1952 (medida pelo índice do custo de vida)

Governo Juscelino Kubitscheck (1956-1960):
– 12% em 1956
– 34% em 1960

Governo Jânio Quadros (31 de janeiro de 1961 a 25 de agosto de 1961). Desvalorizou em 100% a moeda nacional em relação ao dólar.

Governo João Goulart (Ministro do Trabalho de junho de 1953 a Agosto de 1954 no segundo Governo Getúlio Vargas). De 07.09.1961 a 31.03.1964:
34,7% em 1961
– 50,1% em 1962
– 78,4%  em 1963

No segundo ano do governo Jango, foi lançado o “Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social – Ministro do Planejamento: Celso Furtado.

No Regime Militar:

– De 1964 a 1967 Castelo Branco assumiu com a inflação em 92,12% e entregou com 25,01%.

De 1968 e 1973 (governos Costa e Silva e Médici) Ainflação caiu de 25,49% para 15,54%.

De 1974 a 1985 (governos Geisel e Figueiredo) A inflação subiu para 242,24%. Mais de 150% em relação ao governo Goulart.

O endividamento externo alcançou limites insuportáveis, asfixiando a Economia brasileira.

Algumas das mudanças monetárias dos governos seguintes vieram acompanhadas de Planos Econômicos:

Plano Cruzado. Governo José Sarney (28.02.1986 a 15.01.1989). Ministros da Fazenda: Dilson Funaro e Bresser Pereira. “Fiscais do Sarney”. Falhou pela imposição do congelamento de preços, que provocou desabastecimento.  

Plano Verão. Governo José Sarney (16.01.1989 a 16.03.1990). Ministro da Fazenda: Maílson da Nóbrega. Reforma monetária. Sarney assumiu o governo em 1985 com inflação de 242,24% e entregou com escandalosos 1.972,91%.

A moeda estava tão desmoralizada que era comum ouvir-se: “Fulano não vale um cruzado”.

Planos Collor I e II (Plano Brasil Novo). Governo Fernando Collor (Março de 1990 a Dezembro de 1992). Ministra da Economia: Zélia Cardoso de Mello. Moeda: Cruzeiro. Choque econômico. Bloqueio de investimentos financeiros, contascorrentes e poupança de cerca de 60 milhões de cidadãos. “Caça aos Marajás”. Falhou em razão de gravíssima crise político-administrativa e escândalos de corrupção. Processo de Impeachment.Renúncia presidencial em 29.12.1992. Collor assumiu com a inflação de Inflação de 1.972,91% e entregou o governo com ainda intoleráveis 1.191,09%. Foi substituído por seu Vice-Presidente, Itamar Franco.

Plano Real. Presidente Itamar Franco (Dezembro de 1992 a Dezembro de 1994). Ministro da Fazenda, a partir de maio de 1993 até março de 1994: o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, até então Ministro das Relações Exteriores. Estabilização da Economia. Medidas monetárias e de controle das contas da gestão pública. Atingiu o objetivo de frear o descontrole inflacionário. Itamar assumiu com a inflação em 1.191,09% e entregou com 22,41%.

Observe-se que, com Itamar Franco na Presidência:

– Surgiu o “Plano Real” (denominação do Plano Econômico criado por FHC, seu Ministro da Fazenda). Mas, até 30.06.1994, a moeda no período Itamar era o Cruzeiro Real (CR$).

Somente em 01.07.1994 é que foi criada a moeda “Real” (R$), quando já era Ministro da Fazenda Rubens Recupero (FHC já havia deixado o Ministério para se candidatar à sucessão de Itamar.

Eleito Presidente no 1º turno com 54% dos votos, Fernando Henrique Cardoso manteve o Plano Real e a moeda Real, por ele criados – e graças aos quais chegou à Presidência. Moeda até hoje vigente.

Todas essas mudanças tiveram como principal intenção controlar a inflação e o déficit orçamentário.


O CORTE NOS ZEROS

Recapitulando, para não perder o fio de Ariadne: todas as vezes que houve valorização da moeda, o novo dinheiro passou a valer 1.000 vezes mais do que o anterior.

De tal forma, por exemplo, que 1.000 Cruzeiros (Cr$ 1.000) passaram a valer 1 Cruzeiro Novo (1 NCr$). 5.000Cruzeiros (carimbados pelo Banco Central), passaram a valer 5 Cruzeiros etc.

Reparem num detalhe: na cédula Tiradentes, como em muitas outras, o nome do país é “República DOS ESTADOS UNIDOS do Brasil.

É que, desde a primeira Constituição (1891) o nome oficial do nosso país era “República dos Estados Unidos do Brasil”. Somente com a vigência da Constituição de 1967 (governo Costa e Silva), nosso país passou a denominar-se “República do Brasil”, depois República Federativa do Brasil.

Voltando ao Tiradentes:

As cédulas em azul-escuro (1ª estampa) foram impressas no “American Bank Note Company”.

As cédulas vermelhas (2ª estampa) foram impressas na empresa britânica “Thomas de La Rue & Company Limited”, maior fabricante de papel-moeda do mundo, fornecendo a 150 países.

Esse detalhe talvez não tivesse importância se o imaginário popular não fosse permeado pela percepção de que os governos brasileiros eram manietados e manipulados pelos Estados Unidos da América do Norte e pelo capital dos demais países a ele aliados.

O que poderia pensar um cidadão-comum: se o Brazil (com Z) não controla nem o nosso dinheiro, como é que vai controlar o dinheiro estrangeiro? Essa dúvida acendrava o sentimento nacionalista e anti-imperialista.Sentimento de perda da identidade nacional e cultural.

Daí a ilustração desta publicação com o valor da nossa cédula em cor verde absoluto, já que as cédulas do dólar americano eram conhecidas como “verdinhas”.

A Casa da Moeda foi fundada em 1694. Sempre produziu as moedas metálicas. Mas as cédulas, em sua grande maioria, eram adquiridas no exterior.

Em 1973, no regime militar, a autarquia Casa da Moeda do Brasil foi transformada em empresa pública e ganhou exclusividade para fabricação de papel-moeda.

Em 1994, a edição do Plano Real exigiu a substituição de todo o meio circulante brasileirocerca de 6,2 bilhões de cédulas e 19,6 bilhões de moedas. Somente 10% desse dinheiro foi importado.


SÍNTESE DAS MUDANÇAS NO PADRÃO MONETÁRIO BRASILEIRO

1822 – A Moeda era o Real Império
1889 – 1.000 Réis do Império tornaram-se 1 Réis da República
1942 – 1.000 Réis da República (ou 01 Conto de Réis) tornaram-se 1 Cruzeiro
1967 – 1.000 Cruzeiros tornaram-se 1 Cruzeiro Novo
1970 – A moeda voltou a se chamar Cruzeiro, sem corte de zeros
1986 – 1.000 Cruzeiros tornaram-se 1 Cruzado
1989 – 1.000 Cruzados tornaram-se 1 Cruzado Novo
1990 – A moeda voltou a se chamar Cruzeiro, sem corte de zeros
1993 – 1.000 Cruzeiros tornaram-se 1 Cruzeiro Real
1994 – 2.750 Cruzeiros Reais tornaram-se 1 Real

Ao que depreende da leitura de todo o texto:

O Brasil já teve 10 moedas
A Moeda mudou de nome 9 vezes
Em apenas 2 dessas mudanças não houve valorização monetária nem corte de zeros
Em 7 vezes a moeda foi valorizada e perdeu, a cada vez, 3 zeros
De 1889 (Proclamação da República) até 1994, 1 REAL substituiu 2.750.000.000.000.000.000.000 RÉIS.

Em outras palavras: nossa moeda já perdeu 21 (vinte e um) zeros.

desde a sua criação (já faz 28 anos), o Real (R$) já perdeu mais de 90% de seu poder aquisitivo.  


JORNADA NAS ESTRELAS E O VIL METAL

Se tomássemos hoje a cédula de apenas 10 reais e, em movimento oposto (ao invés de cortar), a ela acrescentássemos 21 zeros 7 (des)valorizações X 3 zeroscada, chegaríamos a um valor inimaginável: 10^21 (10 elevado a 21) = 1 + 21 zeros = 1.000.000.000.000.000.000.000

Por extenso: UM SEXTILHÃO !

Para se ter uma ideia de tal ordem de grandeza, basta considerar o seguinte: calcula-se que há no Universo, aproximadamente, 10 elevado a 22 estrelas: mexendo 01 zerinho em nossa moeda (a mais ou a menos, tanto faz), teríamos mais réis do que as estrelas no universo ou do que grãos de areia em todos os desertos e em todas as praias do nosso planeta.

Ou, se quisermos fazer uma comparação menos onírica, o PIB brasileiro em 2021 (soma de todos os bens e serviços finais produzidos no país) totalizou R$ 8,7 trilhões de reais. Arredondando o cálculo, 11 zeros a menos!

Daí, talvez, a outra frase antológica do Millôr, em sua peça teatral “Liberdade, Liberdade”:

– “Isso não é nada. Dizem que, na nova emissão da nota de cinco mil, Tiradentes já vem com a corda no pescoço…”.

E por falar no vil metal, 3 semanas atrás (27.03.2022), deu na TV: Filho mata o pai por causa de 2 Reais”. A vida paterna ao preço de 2 ovos.

 

NÃO TEM TRADUÇÃO

Alguns poucos artistas, intelectuais e cientistas tiveram suas efígies inscritas em nosso dinheiro, em diferentes padrões monetários. Hoje, como no samba do Noel, essas cédulas não têm tradução.

Machado de Assis – 1 mil cruzados
Cândido Portinari – 5 mil cruzados
Mário de Andrade – 500 mil cruzeiros
Augusto Ruschi (Mata Atlântica, Beija-flores) – 50 mil cruzeiros reais
Marechal Rondon – 1 mil cruzeiros
Cecília Meireles – 100 cruzados novos
Carlos Drummond de Andrade – 50 cruzados novos
Heitor Villa-Lobos – 500 cruzados
Rui Barbosa – 10 mil cruzeiros e 10 cruzados
Carlos Chagas – 10 mil cruzados
Oswaldo Cruz – 50 mil cruzeiros


Acho que, a pedido póstumo dos homenageados, resolveram substituir as efígies de pessoas célebres por figuras de animais:

R$ 1 – Beija-Flor (deixou de circular)
R$ 2 – Tartaruga
R$ 5 – Garça-Branca
R$ 10 – Arara-Vermelha
R$ 20 – Mico-Leão dourado
R$ 50 – Onça-Pintada
R$ 100 – Garoupa
R$ 200 – Lobo-Guará  


ZERO A MENOS JÁ DEU SAMBA

Ary Barroso e Benedito Lacerda, compuseram seu famoso samba, gravado por Francisco Alves: Falta um zero no meu ordenado:
https://www.youtube.com/watch?v=lJBhNXg535U


“Trabalho como louco
Mas ganho muito pouco
Por isso eu vivo sempre atrapalhado…
Tá faltando um zero no meu ordenado”.

NOTAS E REFERÊNCIAS


– Bagatela (Nota 1 do Autor)
Como se recordam os leitores, o primeiro vôo realizado pelo 14 Bis, pilotado por seu inventor Santos Dumont, aconteceu em 1906, no Campo de Bagatelle, Paris.


– Índices de Inflação (Nota 2 do Autor)
Inconsistências de alguns números – São explicadas pelos seguintes fatores:

a) Existência de várias Instituições que produzem índices de preços, tais como Fundação Getúlio Vargas; Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) da Universidade de São Paulo; Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  

b) Combinação diferenciada de vários índices de preços.

c) Não-coincidência de mandatos e exercícios presidenciais mencionados no texto com o fim do ano civil.

Importante: Da série #”10 anos 100 Millôr

– Desenho Digital de Pedro Gurjão ©

– Frases de Millôr Fernandes na sua peça teatral “Liberdade, Liberdade”.

Pedro Gurjao

Escritor, Jornalista, Advogado, Pós-graduado em Gestão Pública (Fundação João Pinheiro, BH-MG), 2 vezes vencedor do Prêmio Nacional Ser Humano (ABRH, SP). Foi colunista e debatedor no Programa de Debates (Jornal O Povo e Rádio AM do Povo).

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.