Da fé, da desconfiança e de imponderáveis prognósticos; ou de como adestrar os céticos a interpretarem o falar obscuro dos profetas, por Paulo Elpídio de Menezes Neto

“Por que, ó senhor do Olimpo,quando os pobres mortais são presas de tantos males presentes, lhes dar ainda a conhecer, mediante presságios, as desgraças futuras?”,

Montaigne, “Ensaios”, Edições 34, São Paulo, 2016, pág. 78.

Descido à terra dos homens, expulso do Paraíso pelo erro e vacilações reprováveis, segundo registros dos livros sagrados, Adão e sua impulsiva companheira deveram enfrentar o anátema divino, condenados a viverem em um mundo ameaçador e desconhecido. Jeovah, tomado de arroubo em sagrada ira, ao surpreender o casal cúmplice empenhados no desafio de Sua autoridade, privou os primeiros habitantes desse vale de lágrimas dos recursos do entendimento e da capacidade de prever o futuro e de compreender o presente, já que, obra recente mal saída da Sua olaria celestial, a privara a sua criação de coisas vividas e lembradas.

Para Adão e Eva não existia passado, e se houve não era coisa que lhes dissesse respeito: o passado a Deus pertencia. O futuro, por sua vez, nada mais representava além de vaga suspeita que aos filósofos gregos e aos olhos dos apóstolos de Cristo tomaria forma e corpo em futuro remoto, remotíssimo.

A enrascada de Adão e Eva

Tornados terráqueos, por castigo divino, viviam Adão e Eva felizes, aplicados na iniciação aos primeiros pecados, salvo o do adultério que as as circunstâncias não o permitiam, não havia como perpetrá-lo, na solidão de suas vidas recém sopradas na inércia do barro. Em seu favor, refira-se, entretanto não lhes ter sido ensinado a desviarem-se dos perigos que correriam em seu desterro definitivo. É verdade ques ao Criador não ocorrera ensinar-lhes a evitar os riscos por Ele armados, e a eleger as regras elementares da Virtude. Não por inteira desídia, afinal, de quando em vez, enviava-lhes ameaças severas servindo-se da intermediação de anjos zelosos e das provisõess de desgraças e hecatombs acumuladas em Seu arsenal de correções pedagógicas). Por outro lado, o anúncio da Salvação e os requisitos para alcançá-la não haviam sido ainda regulamentados, era por esse tempo mera presunção de oportunidades.

Não foi fácil para o casal fundador dos humanos perceber a enrascada em que se havia metido e entregar-se aos ensaios de busca de saídas propícias, mediante experimentos improvisados que lhe trariam, por fim, a capacidade da convivência com outros casais que se foram constituindo, segundo a ordem impositiva do “crescei e multiplicai-vos” e pelos impulsos incontidos da libido, descoberta recente, humana demasiadamente humana. De nada valeria ao casal ancestral a mordida furtiva na maçã. A exemplo de Prometeu, condenado por tentar roubar ao Olimpo o fogo da sabedoria, nada sobrara à parelha original, além da expulsão da imenso latifúndio celestial. Adão e Eva vieram a mundo sem o conhecer, carecidos de passado e indiferentes ao futuro.

Com a proliferação da grei dos decaídos do Éden, não tardariam por despontar conflitos entre pessoas e interesses, dúvidas e convicções, abrigados pela nossa modernidade sob o manto de nomenclatura complexa — conceitos, teorias e prédicas aliciantes –, criação engenhosa e paciente de filósofos, cientistas políticos e agentes da Fé e do Estado.

De previsões e profecias: os novos “reveladores”

Nessas coisas de futuro e previsões, os gregos eram muito inspirados. Dizia Cícero, entretanto, que “nada se ganha em conhecer o futuro; e infeliz é quem se atormenta em vão”. E, Montaigne, nos primórdios do humanismo, séculos depois, cético: “Na realidade, em todos os governos sempre se entregou parte da autoridade ao acaso”. E conclui, falando sobre as suspeitas que lhe causava a busca de explicações de causas e eventos futuros: “…é um passatempo divertido para os espíritos sutis e ociosos, e acredito que quem adquire suficiente destreza para inventar e interpretar acha o que bem entenda em qualquer escrito”. Como os profetas, os premunidores de coisas futuras recorrem ao “falar obscuro”, às ambiguidades de explicações e vaticínios.

Os videntes modernos enfiaram-se na capa segura da ciência e dela fizeram uso como quem empunha um “guarda-chuvas” que protege dos erros veniais e garante a justeza das revelações. Já não são os ministros da fé os arautos da Revelação, os explicadores do futuro; em seu lugar despontaram novos atores midiáticos, empresários, agentes sindicais, homens públicos em seu desvelado apostolado cívico – e, por fim, os feiticeiros da Academia, destros pelejadores com suas teorias, apresadas por sutis cumplicidades ideológicas, fraseólogos melífluos, conquanto ágeis na retórica de suas lealdades contingentes. Tornaram-se essas diligentes criaturas “explicadores” incontinentes de tudo a que assistimos e das nossas angústias e vãs expectativas; mas não se entregam a esse grave mister por mera compulsão, admitamos. Fazem-no movidos por incontornável viés professional, como o padeiro bate a massa do pão e os religiosos expurgam a heresia da alma dos pecadores.

Para Ivan Illitch, o jesuíta-médico da Teologia da Libertação, as doenças e enfermidades passaram a existir desde o instante em que foram nominadas, batizadas em pia esculápia pelos médicos; a realidade social e política não puderam dispensar, a seu modo, as explicações dos “especialistas”, sem elas certamente não existiriam. A realidade, como os fatos sociais, ganham vida a partir do momento quando batizados na bacia dos seus intérpretes

Das conjecturas improvisadas à revelação dos oráculos, as profecias, os transes de visão de Nostradamus, tudo se encadeia e se associa no esforço que acompanha os humanos de prever ou predizer o futuro, de enxergar revelações que poucos veem, dissimuladas sob o peso de uma realidade para lá de real. De prática religiosa, com a doce conivência de ministros da fé com entidades divinas, a vontade de “descobrir” o que nos espera ou nos pode acontecer vem de tempos imemoriais. Uma mistura de medo e curiosidade, de desejo de aprender e de descobrir, ou, simplesmente, da ânsia de aproximar-se da chave do universo que a tudo pode levar explicação e sentido explicam essa necessidade que parece dominar o homem de antecipar-se à realidade do cotidiano de sua vida. A vontade de antecipar o futuro cumpre-se, hoje, com o recurso de meios e métodos sofisticados; não é mais um dom que algumas pessoas iluminadas por sua fé ou por atributos especiais exibiam diante de sôfregas criaturas em busca de certezas e segurança em suas dúvidas existenciais.

As ilusões que despertam a realidade “única” e a “contra-realidade”

Philip E. Tetlock e Dan Gardner associaram-se em uma pesquisa que virou livro, best-seller, em todo o mundo, “A Arte e a Ciência de Antecipar o Futuro”. Como toda novidade e qualquer exploração por campos tomados de dúvidas e incertezas, as conclusões apresentadas pelos autores, com sabor literário, mesclado de anedóticas médicas, tem um pouco de auto-ajuda e de técnicas científicas, com a cumplicidade de especialidades pelas quais as pessoas se enchem de respeito e admiração. Fora esses pequenos arroubos de quem envereda por veredas pouco caminhadas, há coisas interessantes nesse texto criativo e bem humorado.

Por esses caminhos cheios de riscos, a comunicação de descobertas e novidades científicas ou formulações de teorias, o risco que se põe está precisamente no poder que a comunicação tem de criar o que designamos como “realidade”. Afinal, afirma Paul Watzlawick, psicólogo respeitado, de “todas as ilusões, a mais perigosa consiste em pensar que só existe uma realidade”. A ciência não escapa a esses pecados capitais do convencimento. As ideologias são irmãs gêmeas dessas fantasias; assim como a fé e os radicalismos fundamentalistas que rondam os ímpetos humanos.

Galeno, romano, do século II, passou para a História como autoridade médica por mais de mil anos, como assinalam Tetlock e Gardner. E, com ele, a sua vaidade (“Fui eu e mais ninguém, quem revelou o caminho da medicina”). As pessoas que têm certeza não alimentam dúvidas: Galeno “não se abalava com dúvidas”. Todo resultado obtido pelo mestre confirmava as suas hipóteses e premissas.

O campo complexo da formação do real está cheio de armadilhas. A antecipação do futuro pelas vias científicas, pela inspiração da fé ou das ideologias não poderia oferecer menores riscos, muito menos a segurança de uma visão objetiva de dados reais. Não parece diferente que o observador corra os mesmos perigos em sua tarefa de analisar a realidade social que constitui o cenário no qual ele vive e onde se passam as ações cotidianas e as relações que se produzem na sociedade. Em outro sentido, nesse mundo dominado por convicções, certezas, ideologias e as razões da fé, recusar de aderir incondicionalmente uma única definição da realidade, “uma ideologia dada, ousar lançar sobre o mundo um olhar diferente, pode vir a ser considerado um ‘delito de opinião’”, com faz crer Watzlawick…

Por puro impulso e esperteza, os radicalismos de esquerda e de direita lançaram mão desas estratégias de convencimento. Deram-lhe, até, roupagem científica e filosófica e, assim, metidos nessas indumentárias, entraram na Academia, já que os templos da fé abrigavam os seus próprios ministros e reveladores da Verdade verdadeira. Os bolcheviques de Lenine, os nazistas de Hitler e o fascistas de Mussoline empolgaram esses instrumentos de trabalho, com habilidade. Até mesmo alguns produtos derivados dessas receitas de base bom uso e astutamente formataram explicações convincentes em momentos graves de crises e sublevações. Os golpes militares, na América Latina, serviuram-se, sempre, das reservas morais e jurídicas para avalizar a quebra da ordem constitucional em determinados momentos. Castelo Branco, Pinochet, Maduro, Evo Morales, Fidel e Lula desenvolveram seu próprio arsenal de “verdades”e lealdades com o povo e a democracia…

No plano retórico, criou-se formula mais que eficiente, a “contra-realidade”, aquela técnica que consiste em responder uma acusação ou denúncia, discordância ou replica, com o contra-ataque amparado por denúncia contrária. Ninguém se defende ou se explica — ataca com fatos novos, muitos dos quais falsos. Essa técnica, aperfeiçoada ao longo do tempo, discurso corrente na política, veio chamar-se, em nossos dias, de “pós-verdade”…

Hitler, do voto democrático ao III Reich

Hitler chegaria à Chancelaria do governo alemão e construiria o III Reich com a salvaguarda de milhões de votos, tornaria majoritário no parlamento o seu partido. Da destruição de Weimar, recorrendo aos instrumentos da democracia, consolidaria, com bases no voto dos cidadãos e nos “frykorps” das suas milícias, um Estado de exceção, centralizado, policial e guerreiro, como, de resto, são as ditaduras.

Apelando para o uso da força e da violência (os “brown blocs”, da época, os “frykorps”), intimidou os fracos, as minorias étnicas e até mesmo os poderosos de uma elite decadente, cooptada ou destruída por Hitler. Preso, emu ma das muitas sublevações registradas em Munique, em period caótico da vida política alemã, Hitler aguardou na prisão, caído em desespero e medo, que a sua sorte fosse decidida. Ao tomar conhecimento de que iria a julgamento, vislumbrou no evento a grande oportunidade esperada para enfrentar as débeis instituições do Estado. Era o espetáculo que lhe Servia uma democracia moribunda – a de julgar um líder “popular”. O espetáculo seguiu escript cuidadoso, montado pelos advogados da defesa e pelos seus correligionários. Manifestações de rua respondiam ao discurso do depoimento de Hitler. Acusado de traição, contrapôs a às peças da promotoria a sua condição de líder do povo alemão, vítima da força persecutória do Estado. Denunciou a justiça alemã, detratou os juízes, value-se da condiçnao de vítima e preso politico. Em nenhum momento negou as acusações que se voltavam contra si; ao contrário, verberou suas razões, considerou justas e legítimas as ações praticadas. Apresentou-se como o Salvador da Alemanha. Condenado a cinco anos de prisão, cumpriu pouco mais de um ano, durante o qual deu consistência ao seu ideário desconexo e consolidou sua liderança política.

Se há alguém que se tenha servido, por aqueles tempos, dos restos dos ideaias democráticos, em desagregação na Alemanha, para firmar liderança própria, Hitler foi essa figura. Chanceler por eleição popular, foi, aos poucos, fazendo o expurgo das dissidências e e dos derradeiros opositores, forçou a saída de Hindenbourg da Chefia do Estado, O resto da história todos conhecem. O modelo prosperou e fez muitos adeptos.

Por conta desse falar obscuro e vago, a que se referiu Montaigne, tornamo-nos, por fim, perscrutadores do imponderável de nosso destino coletivo: conseguimos realizar o que aos filósofos e homens de sabedoria parecia façanha improvável: fixar a imprevisibilidade do passado e tolerar o infortúnio do presente, diante das certezas ilusórias de nossas visões do futuro. E, assim, apagar as incertezas inspiradas pelo futuro e abandonar as suspeitas guardadas sobre o passado.

Referências:

Montaigne, Michel – “Ensaios”, tradução de Sérgio Milliet, Edição, 34, São Paulo, 2016, pág. 72/73/78;

Tetlock, Philip e Gardner, Dan — “Superprevisões: A Arte e a Ciência de Antecipar o Futuro”, Objetiva, Rio de Janeiro, 2016, pág. 34;

Watzlawick, Paul – “La réalité de la réalité”, Essais, Éditions du Seuil, Paris, 1978, pág.8/9.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

Mais do autor

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.