DA DEMAGOGIA À FAKE NEWS, A DISSIMULAÇÃO E O MULTIPARTIDARISMO

“Nas democracias,as revoluções são, quase sempre, obra dos demagogos”, Aristóteles
Os políticos de um modo geral não gostam da palavra “demagogia”. E, quando a usam, revelam um encabulado acanhamento, como se assim pretendessem desconhecê-la ou apagá-la do uso corrente.
Demagogia significa no entendimento comum, à margem da ciência política, corrupção da democracia, mistificação da política e manipulação da boa fé do eleitor.
A demagogia é, em sentido lato, a deformação dos princípios essenciais da democracia; conspurca a representação e desmerece o voto.
Dos 6 candidatos que emprestaram a sua figura ao debate da BAND, assistido pelos que ainda acreditam na força da palavra e na sedução da eloquência, nenhum deixou de servir-se abundantemente da velha e boa demagogia. Sob esta designação genérica, amplo espectro, cabe quase tudo que identifica a arte da política. A redução ética dos propósitos, a cupidez escondida nos gestos largos das boas intenções, as meias-verdades, o espírito conciliador, como escudo bem empunhado que protege e abranda os ímpetos remanescentes das oligarquias ancestrais são a bagagem desses missionários em desobriga patriótica. Muitas vezes, os candidatos apresentam-se nestes prélios armados com as velhas metáforas de encantamento. Aquelas que tudo negam e tudo prometem  e as que não negam os seus vícios de origem.
Foi assim, nesta exibição performática montada por marqueteiros e contra-regras e inquiridos mal equipados de ideias e conhecimentos. Lá se puseram os candidatos, os árbitros e os interpeladores. Do lado de cá, muitos como eu, curiosos por entender o fio condutor do interrogatório e o mecanismos das perguntas cruzadas trocadas pelos presenciáveis.
(Vou de parênteses aqui: “presidenciáveis” nenhum deles era, a rigor; postulantes, todos assim bem pareciam).
Foram todos convenientes, como convém mostrar-se o réu na presença dis seus julgadores. Dissimularam, meio desajeitados, intenções inconfessáveis, mostraram-se, cada um a seu modo, à altura do seu limitado entendimento — visceralmente democratas. Foram  indulgentes consigo mesmo, deixaram expostas as suas fraquezas, que não havia como as esconder; não puderam dissimular  o domínio frágil da palavra e o equilíbrio incerto da lógica do discurso.
De todos, três demonstraram as habilidades de candidatos treinados, com alguma ideia do papel que lhes incumbiria na  hipótese de serem eleitos. Os outros três, lá estavam trazidos pelas circunstâncias de candidatos registrados e comissionados por uma enorme franja de partidos e inusitadas alianças, todos alimentados pelas fontes milionárias do fundo partidário e por outras verbas de origem mal identificada.
Ciro demonstra  nestas ocasiões,   familiaridade com o pensamento lógico, porém, não consegue reprimir os impulsos ancestrais das oligarquias nordestinas. Um toque salvacionista da sua fala lembra o perfil das lideranças latino-americanas, no gestual e nas afirmativas auto-suficientes. Como os dois outros da linha de frente do debate, Ciro sabe das coisas, tem malícia, mas não consegue controlar as interjeições e as exclamações. A exemplo de Lula e Bolsonaro, aliás.
Lula repisa narrativa de uma nota só. Recorre a argumentos gastos em defesa de velhos projetos e estratégias antiquadas,  fora de uso.  Empunha contra o sol a peneira esburacada que não faz sombra aos pecados e reincidências confirmadas  (alguns deles, imperdoáveis …) de seus dois governos. Maltrata a verdade, com a indiferença de menino peralta chupando picolé, tropeça nas palavras, engole sílabas desperdiçadas e ri da própria ousadia.
Bolsonaro desfia números, estatísticas improváveis, range os dentes para prender os arroubos e surpreende, em muitas passagens do discurso, com assertivas repetitivas, ainda que expressivas. De longe, o mais castigado, vítima de um jogo de dobradinha armado graciosamente pelas senhoras candidatas e as interpelantes, do qual é o alvo perseverante, embora não lhe coubesse respondê-lo, por força dos  regramentos das emissoras consorciadas em causa.
Os entrevistados não escondem a vontade de massacrar o presidente, de dar-lhe a lição que julgam merecer. Mas têm medo de cutucar a onça com vara curta. Salvo Ciro, ora, por quem sois? Quem consegue calar o orador combativo ao qual faltou um parlatório à sua altura — o Senado da República?
As duas senhoras e o terceiro não justificaram a sua presença ali. Muito menos a candidatura.
A fala hesitante, o teor do discurso, a falta de domínio sobre os temas acerca dos quais se propuseram indagar e responder expuseram a sua imaturidade e a limitação do seu senso crítico. A questão feminista, de tão gasta e mal formulada pelas candidatas, retomou uma linha “wok” de militância identitária que uma das jornalistas interpelantes tornaria ainda mais inapropriada.
Debates como este a que assistimos, calados, emudecidos pelo acanhamento de testemunhas de araque, preocupam.
Nada, entretanto, que a urna eletrônica possa desnaturar.  Resta aos brasileiros aguardar, com renovada paciência (“Brasil, país do futuro”…) pelas eleições de 2026.
Claro, se até lá a franquia da reeleição for abandonada. Em homenagem à democracia.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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