Crônica de uma Sexta-feira 13 duplicada: o gosto amargo das conspirações, por João Paulo Bandeira

Com um susto e um café quente acordei nesse dia singular. Pela primeira vez na vida vivencio esse raro fenômeno que é uma Sexta-feira 13 antecipada, ou melhor, duplicada. Que todos os monstros e assombrações imaginárias e políticas se levantem e comemorem! Temei cidadão de bem, um vampiro sem votos tomou o poder. Por isso ganhamos uma Sexta-feira 13 extra, duplicada, numa só não caberia tamanho terror!

Ainda fazendo troça, pois só rindo para aguentar, lembrei de uma pilhéria popular na Rússia após a queda da União Soviética muito útil para ajudar a entender os desdobramentos da tragédia política que compartilhamos. A piada dizia que tudo aquilo que fora dito aos russos sobre o socialismo era mentira, mas havia algo pior, aquilo que diziam sobre o capitalismo era verdade.

Nessa história não tem socialista, mas do PT ao PMBD restará ranger de dentes e muitos pensarão como na anedota acima contada a respeito do governo Temer quando a implementação das intenções reais da Conspiração fantasiada de farsa política e jurídica que apeou Dilma da Presidência da República começarem a produzir distúrbios sociais e calamidades públicas há muito tempo não vistos no Brasil. O ministério formado sem nenhuma mulher, com sete indiciados na Lava-Jato e o maior inimigo das cotas, Prouni e FIES no Ministério da Educação do DEM, ex-PFL, ex-ARENA, já anunciam o buraco para o qual a ponte nos conduzirá.

Admito que se existem legítimas controvérsias sobre se o uso do Impeachment sem um crime de responsabilidade tipificado, ser ou não ser um golpe, também entendo que restam poucas dúvidas que uma vitoriosa conspiração foi engendrada sob as saias da República. Movimento conspiratório formado por sem votos, liderada politicamente por Michel Temer, Eduardo Cunha, setores do PMDB, PSDB, DEM, Barões da Mídias e classes médias ressentidas planejado por interesses d´além mar.

E todos sabem as cargas de ilegitimidade e violência que carregam governos originados em conspiratas. Não é por acaso que Nicolau Maquiavel dedica um dos maiores capítulos da obra monumental Comentários sobre a primeira década de Tito Lívio para alertar sobre os perigos das conspirações, seus efeitos sociais deletérios e consequências políticas desastrosas.
No capítulo sexto da terceira parte dos Discorsi o pensador florentino ressalta que as conspirações são extremamente perigosas e temerárias para o povo, daí o motivo de várias serem planejadas e poucas efetivadas. Maquiavel lembra que as conspirações fracassam na maioria das vezes, não na fase de planejamento, mas na fase de execução e que conspiradores nada podem contra o povo em fúria.

Quiçá eu esteja equivocado e este artigo seja um mero alinhave de melancolias políticas e frustrações democráticas, talvez o leitor mais arguto, anteveja dias melhores. Daqui dessa Sexta-Feira 13 duplicada só consigo enxergar até onde a vista alcança, e no meu horizonte só vejo instabilidade civil, revolta social, caos econômico, desarranjo político e luta, muita luta. Resta dizer que enquanto escrevia essas considerações, esqueci o café esfriando na xícara e que nenhuma anedota serviu para adoçar o gosto amargo das conspirações do último gol(p)e de café gelado que bebi!

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João Paulo Bandeira de Souza

João Paulo Bandeira de Souza

Cientista político, Doutor em Ciências Sociais (UFRN), Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (MAPPS/UECE), membro dos grupos de pesquisa Marginália-UFRN e Democracia e Globalização-UECE.

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