Crise de Representação V: Considerações finais

A Revolução Gloriosa, na Inglaterra, a Revolução Francesa, o Federalismo americano e a Revolução Industrial foram importantes acontecimentos para configurar o tipo da sociabilidade, a ordem social e a política que foram desenvolvidas na modernidade. Houve não apenas a ascensão da burguesia, ampliou-se a competição pela posse de bens materiais e a sacralização da propriedade que estimularam o individualismo possessivo imanente. Uma nova ordem mundial estaria por vir em substituição definitivamente ao feudalismo..

O destaque de dois intelectuais alemães para o desenvolvimento das Ciências Sociais, ainda no século XIX e início do século XX, Karl Marx e Max Weber, no meio dessas transformações, reforça o papel que a Alemanha também desempenhou para essa configuração da modernidade.

Apesar de ter chegado ao século XX de forma singular, sem ter passado por uma revolução como os Impérios ocidentais, a Alemanha chegou como um emergente e já  unificada, competindo com quem chegou primeiro por esse caminho de revoluções na ocupação de espaços globais, como Inglaterra e França, disputando espaço com quem chegou primeiro.

Na configuração do século XX, Inglaterra e França foram os ganhadores das duas guerras mundiais, mas que cederam para os Estados Unidos a liderança imperial do Ocidente. Como já apresentamos, Estados Unidos e União Soviética foram os líderes da ordem social da chamada guerra fria que vigorou no século XX. O nazi-fascismo, considerado o holocausto, foi um parêntese macabro dessa passagem entre a democracia ocidental e o comunismo, mais mais para o oriente

A democracia representativa foi, portanto, a política que se apresentou na consolidação dessa modernidade, embora acontecendo a tentação de caminhos alternativos, como a própria ditadura. A modernidade, é bom destacar, trouxe os valores de igualdade e liberdade, necessários para o desenvolvimento da economia de mercado, para a existência de compradores e vendedores e para abrir espaço para os novos atores, sem o sangue azul. Essa é a base social da democracia liberal.

No debate sobre essa configuração, Rousseau, o teórico da Revolução Francesa, ressalta que a “Vontade Geral”, o valor republicano típico da modernidade, a paixão pela igualdade, foi contaminada pela desigualdade na posse de bens materiais e que afetou a solidariedade do “Bom Selvagem”, o homem bom por natureza, mas perdeu para o individualismo que o mercado trouxe. A sua defesa era a Democracia direta, que o soberano, o povo, deveria se expressar por plebiscito ou pela consulta popular, e não pela via do parlamento. Os partidos políticos só viriam a ser pensados pelos liberais pós revolução francesa, com o reconhecimento da diversidade de interesses das forças sociais da sociedade civil. Foi a expressão da representação política.   Edmund Burke, um deputado irlandês no parlamento britânico, crítico da revolução francesa pelo sentimento de igualdade que colocaria em xeque a estrutura política do feudalismo, é quem primeiro define o partido e sua existência. Gramsci, na Itália, percebe que o “Moderno Príncipe”, de que falava Maquiavel, era, na modernidade, o Partido Político.

A crise de representação política, símbolo da nacionalidade, na base da sociedade, vem junto com o reconhecimento também da crise da Organização das Nações Unidas (ONU), símbolo da ordem social da globalização. Ela, ao representar os ganhadores da Segunda Guerra Mundial, foi superada pela própria dinâmica das relações entre as nações no percurso em que a Guerra Fria dominou. Novos atores, como a China e os integrantes dos BRICS, ou a requalificação de status, como a Alemanha, desafiam a reestruturação dessa Ordem Mundial.

O conflito entre a Rússia e a Ucrânia representa uma nova configuração na ordem mundial, novas correlações de forças, com surgimento de novos atores não apenas relevantes, mas poderosos também na política e na economia. Celso Amorim destaca que a solução da guerra na Ucrânia depende da China. Mas não é a Rússia e a OTAN? Claro que não, pois nessa nova realidade muita água vai passar por baixo da ponte.

Para encerrar essa reflexão, basta lembrar a pergunta que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, fez no dia 5 deste mês, abril, por videoconferência ao Conselho de Segurança da ONU, em Nova York, pressionando os demais países a agirem para conter a Rússia. Diz ele: “Onde está o Conselho de Segurança da ONU?” Perguntou lembrando que a ONU foi idealizada para “assumir a função de parar a agressão e restabelecer a paz, mesmo que pela força”.


Zelensky acusou a ONU de ter fechado os olhos diante dos oito anos de guerra no Donbass e da invasão da Crimeia, em 2014, mas hoje não poderá mais fazer que não vê”

Vide: https://www.msn.com/pt-br/noticias/mundo/para-que-serve-a-onu-pergunta-volodymyr-zelensky-no-conselho-de-segurança/ar-AAVTdV4?ocid=msedgdhp&pc=U531&cvid=efbcf468b2b44c5c9162657569e7d547

Essa nova ordem não se inicia agora, já foi preparada desde a queda do muro de Berlim. Somos não aqpenas observadores desse processo,  e o Brasil não está apenas passivo. Estamos na perspectivas do que nossos netos herdarão dessa nova correlação de forças aue se processa.

Vamos em frente!

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.