Crise de Representação IV: O Estado Laico e o ateísmo

As revoluções burguesas foram importantes para compreender a sociabilidade no mundo Ocidental, a ordem social e política da modernidade. Houve aumento da racionalidade e ampliou-se a competição pela posse de bens materiais, aliada
com a sacralização da propriedade. Dois intelectuais da Alemanha, no século XIX, nos ofereceram contribuições importantes para compreender esse dilema: Karl Marx e Max Weber. O primeiro faleceu em março de 1883, participando ativamente do debate da primeira metade do século, e Weber nasceu em 1863, e morreu quando começava a importante década de 1920, dois anos após a Primeira Guerra Mundial, suas reflexões também foram decisivas. Na França, contemporâneo de Weber, Émile Durkheim, enfatizava também a importância da cultura (maneira de agir, sentir e pensar) no processo de coesão social para restabelecer a ordem liberal.

A importância que os dois primeiros tiveram corresponde também à importância que a Alemanha representou no cenário da modernidade, ao chegar ao século XX unificada e desenvolvida materialmente, embora sem ter realizado a revolução burguesa pelas mãos dos atores principais, a burguesia, como aconteceu com a Inglaterra e a França. Chegou, portanto, ao capitalismo tardiamente e já teve que vençer as barreiras que os dois países chegaram primeiro ao capitalismo, Inglaterra e França, e lideraram a competição natural da ordem social.

Para entender a diferença deles é bom lembrar que Marx vai visitar a Inglaterra e sua revolução liberal, dialogando com Adam Smith. Compreendeu o papel do mercado como base estruturante da sociedade e da política e como os seus valores essenciais, a liberdade e a igualdade, chegam à política em forma de ideologia: liberalismo e democracia. Essa é a base do método do Materialismo histórico, que aliada à lógica dialética abre caminho para compreender a dinâmica que o capitalismo trouxe à sociedade e à política. É com esse quadro que Marx critica os ideólogos alemães, essencialmente ligados aos idealistas históricos, pois consideram o Estado e a política como os elementos estruturantes da sociedade e da política. Assim, Materialismo histórico não é ateísmo. Bom ressaltar, pois foi aproveitado na disputa de narrativa da guerra fria como tal, na esteira do clima de ódio inerente.

Marx, aliás, escreveu, sim, sobre Religião, como me fez ver o colega professor de filosofia da Universidade Estadual do Ceará, Auto Filho, um estudioso dessa dinâmica, mas ele escreveu apenas como um componente da estrutura social refletindo sobre o seu papel na inclusão social, e não sobre Teologia, que poderia justificar seu enquadramento como ateu ou não. A sua biografia, como dissemos, marca que ele era judeu e que se converteu ao cristianismo. Seu estereótipo de Ateu, portanto,tem tudo a ver com a dinâmica da guerra fria, com o contexto da geopolítica após a Rússia se declarar, não Laico, mas Ateu e de tornar o “Manifesto Comunista” de Marx como o livro básico e orientador da política.

Se Karl Marx foi disputado como orientador ideológico e marco fundante das várias matizes da militância política que buscavam a inclusão social como projeto, Max Weber percebeu o papel da ética e a burocracia na institucionalização do capitalismo, enfatizando a força da cultura na regularidade na expectativa do comportamento. Discutiu o papel da religião nesse processo, um elemento cultural decisivo, e validou a afirmação de Tocqueville, que escreveu na suas observações sobre a “Democracia na América”, que o Catolicismo ficou com a Igualdade, pois todos que fossem batizados eram tratados como iguais, e o protestantismo (Calvinismo) enfatizou a liberdade, favorecido com uma ética do trabalho e valorização do crescimento material do capitalismo. Isso explicava desenvolvimentos dos Estados alemães com domínio de protestantes e de católicos e seu respectivo desenvolvimento material.

O grande orientador ideológico dessa segunda fase do século XIX foi J. J. Rousseau, com seu conceito de “Vontade Geral”, onde a liberdade e a igualdade se encontram e influenciou, via Weber e Durkheim, o nascimento da Sociologia.

Observamos que a Economia foi a base da ordem internacional do século XX, onde os impérios de então, EUA e URSS, foram orientados ideologicamente por seus valores, a Liberdade e a Igualdade, na busca de uma hegemonia global. Se a Revolução Francesa rompeu com os valores tradicionais do feudalismo pois marca o rompimento com os valores de desigualdade natural, a modernidade traz para o século XX novos desafios com a Ciência trazendo novas formas de poder com armas de destruição em massa e reforçando valores como direitos humanos, com liberdade e democracia.

Assim como no século XIX, uma nova ordem mundial se apresenta no horizonte. O mercado traz novos desafios para a organização social e política com novas competições. A pandemia e o final da guerra fria, como a gripe espanhola e as guerras pelas potências emergentes querendo participar do banquete do mercado no início do século XX,colocam novas questões sobre o mundo que se organiza.

Nova soberania surgindo para trazer coesão social e a guerra é um sinal e a busca dessas fontes, que já passou por Deus e pelo Povo. O caminho será longo, pois o mercado também começa a apresentar novos desafios. Mas a partida já foi dada. Como no início do século XX, a direita e a esquerda já iniciaram seus cálculos. Qual utopia agora?

Esses são elementos para compreendermos a crise de representação política que se apresenta. Nova soberania desafia, mas, como dizia Tocqueville no século XIX, a igualdade é inexorável, mas o desafio é o diferente e as minorias não serem atropelados pela massa. Continuará sendo o dilema da igualdade e da liberdade: mas em que perspectiva?

Vamos em frente!

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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