CPI da Covid, negacionistas e Martin Heidegger

Na ausência de grandes eventos de massas realizados presencialmente em razão da pandemia, com o fim do BBB e o Brasileirão ainda no inicio, o grande promotor de entretenimento para os brasileiros e brasileiras atualmente atende por nome CPI da Covid-19.Sim, leitor(a), estas frases iniciais contém exageros e generalizações; nem todos os brasileiros e brasileiras se importam com o mais popular reality show nacional, nem mesmo acompanham ou gostam de futebol ou estão interessados nos acontecimentos da CPI da peste. Tentei começar esta reflexão com um gracejo para amenizar a tensão do tema em questão; a situação calamitosa da pandemia no Brasil, com grande parcela de culpa do governo federal, que certamente não é motivo de riso.A mortandade que ocorre diariamente por aqui chegou em níveis tão absurdos que inspirou o senador Randolfe Rodrigues(REDE-AP) a abrir uma comissão parlamentar de inquérito para investigar os culpados por esta barbárie,como uma resposta política mais de 460 mil mortos até o momento.

Os depoimentos iniciaram-se no dia 04/05 com o ex ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta, que respondeu as perguntas dos senadores praticamente o dia inteiro.Mandetta afirmou que presenciou numa reunião um documento que indicava uma possível modificação na bula do medicamento cloroquina para que o mesmo fosse receitado para tratamento da Covid-19.Mandetta ainda destacou o fato do governo não realizar campanhas públicas de prevenção contra a doença. No dia 05/05 o ex ministro Nelson Teich foi ouvido e atribuiu a sua curta passagem pelo ministério a discordâncias com o governo no tratamento da pandemia. Alguns senadores ratificaram a afirmação relembrando o fatídico episódio em que o então ministro foi informado no meio de um pronunciamento a imprensa de que o governo federal tinha colocado como atividade essencial barbearias e salões de beleza. O atual ministro Marcelo Queiroga foi a testemunha do dia 06/05 e afirmou que não conhecia indícios de uma guerra química empreendida pela China, hipótese levantada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia anterior, aumentando a crise diplomática com o país asiático, reconheceu a importância do distanciamento e da vacinação e negou qualquer interferência política no ministério. Suas respostas foram tão evasivas e pouco produtivas que irritaram alguns senadores.

No dia 11/05 o diretor-presidente da Anvisa Antonio Barros Torres foi a testemunha do dia e seu depoimento confirmou a fala de Mandetta de que havia uma vontade no Palácio de Planalto de mudar a bula da cloroquina, com a médica Nise Yamaguchi como uma das integrantes do ”ministério paralelo” que aconselharia o presidente, destacou que a agência não compactua com o negacionismo do presidente e atua de forma técnica. Em 12/05 foi a vez do o ex secretário especial de comunicação social Fábio Wajngarten depôs Sua atuação pífia ostentou contradições óbvias como negar que o governo tenha realizado a campanha ”O Brasil não pode parar” em 2020 e afirmar que não considera que o ministério da saúde tenha sido incompetente na compra das vacinas, contradizendo sua própria entrevista na revista Veja em 22/04.

Carlos Murillo, representante na América Latina do laboratório Pfizer, deixou claro no dia 13/05 que o governo federal ignorou ou não aceitou no mínimo 3 propostas de venda de vacinas em 2020, além de rejeitar uma proposta feita nos dias 11 e 24 de novembro de 2020 que conferia 70 milhões de doses do imunizante. Ernesto Araújo, ex ministro das relações exteriores, depôs no dia 18 de maio e além de basicamente atribuir ao ministério da saúde responsabilidade por tudo de ruim que aconteceu na pandemia sua atuação na comissão só será lembrada futuramente pelo discurso demolidor que a senadora Kátia Abreu(PP-TO) o dirigiu em tom crítico.Eduardo Pazuello, no dia 19 de maio arrolou uma quantidade absurda de meias verdades e mentiras e por motivos de saúde precisou continuar seu depoimento no dia seguinte e a conclusão de sua fala foi tão cara de pau que o General precisou ser reconvocado,sem antes participar de uma manifestação com o presidente da república no domingo dia 23/05, sem máscara, promovendo aglomeração, ignorando o isolamento social e efetivamente debochando da CPI.

A médica Mayra Pinheiro, realizou seu depoimento no dia 25 de maio e justificou o seu apelido de ”capitã cloroquina” ao defender com veemência o ”tratamento precoce” com pesquisas científicas de questionáveis conclusões e meias verdades sobre autonomia médica, porém, não podemos esquecer seu esclarecimento sobre o fato do ministro Pazuello receber relatórios diários sobre a situação do Amazonas, desmentindo a versão do militar de que só ficou a par da situação por meio de uma reunião com o governador, além de afirmar que o aplicativo ”TrateCov” não foi hackeado e sim tirado do ar para mudanças internas, novamente contradizendo Pazuello.Dimas Covas, médico e diretor do Instituto Butantan, no dia 27/05 revelou algo importante; Se o governo federal tivesse aceitado o primeiro contrato com o Butantan,60 milhões de doses da Coronavac estariam disponível para os brasileiros entre no último trimestre de 2020, com possibilidades reais do país ser o primeiro no mundo a iniciar a vacinação, já com um bom estoque de vacinas prontas. Nise Yamaguchi, confirmou que o governo apostou todas suas fichas no ”tratamento precoce”, em depoimento no dia 01/06.

Dentre os destaques positivos da CPI não podemos deixar de lembrar da forte e combatente atuação da bancada feminina, sobretudo das senadoras Eliziane Gama(CIDADANIA-MA),Simone Tebet(MDB-MS), Leila Barros(PSB-DF) e Kátia Abreu(PP-TO) que demonstram firmeza nas convicções, clareza nos posicionamentos e determinação para enfrentar o machismo do Senado.

Como o leitor(a) bem sabe a CPI ainda não acabou, este texto cobre os eventos de até 01/06, entretanto, podemos inferir as posições gerais da oposição e situação. A primeira destaca desde o inicio da comissão o fato do governo pouco ter feito para adquirir vacinas, o desprezo do presidente para com as medidas de distanciamento social(como medidas restritivas e lockdown) e as chamadas medidas não farmacológicas para evitar a propagação do vírus(uso de máscara, afastamento social e álcool gel), lembrou do estímulo do presidente para que seus apoiadores não cumprissem as regras sanitárias, a pressão criminosa contra os governadores e prefeitos, a disseminação do ”tratamento precoce” que contém medicamentos como cloroquina, hidroxicloroquina e irvermectina tratados pelos governistas como drogas mágicas que derrotam o vírus, além dos insultos a China (que tiveram consequências na produção e distribuição de vacinas) e da péssima gestão da crise de oxigênio no Amazonas, do fato do governo não ter reservado dinheiro para o combate da pandemia em 2021, confirmando a tese de que o Palácio do Planalto apostou que a pandemia iria acabar com a ”imunidade de rebanho” se manifestando na população.A segunda, tocou na tecla da inabilidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) em alertar sobre a pandemia, a não confiabilidade dos contratos da Pfizer e a suposta pouca eficiência da vacina Coronavac. Destacou que o governo federal gastou o que foi necessário para abastecer os governos estaduais no combate a peste e que afinal as vacinas disponíveis para a população foram pagas pelo presidente. A recusa do presidente em adotar medidas de isolamento se devem a razão do mesmo estar preocupado em não causar mais dano social do que a pandemia já vem trazendo ”o remédio não pode sair pior que a doença” repete o capitão.Na crise que vivemos, especialmente a vivida pelo estado do Amazonas, os governadores,não o ministério da saúde, são os responsáveis pelos erros; o ”tratamento precoce” funciona e conspiracionistas globais tentam impedir a população de usufruir desta solução.

Vamos aos fatos; Segundo Carlos Murillo o governo federal rejeitou uma proposta de 70 milhões de doses da Pfizer, Dimas Covas afirmou que se o governo tivesse aceitado o primeiro contrato com o instituto representado por ele 60 milhões de doses estariam disponíveis no último trimestre de 2020, portanto 130 milhões de doses poderiam já está sendo usadas na imunização da população em dezembro e no primeiro trimestre de 2021, salvando milhares de vidas com isso, com o Brasil tendo possibilidades reais de ser o primeiro país a iniciar a vacinação; Luiz Henrique Mandetta e Antonio Barros Torres afirmaram que o governo tinha intenção de mudar a bula de um remédio para que este, que não tem comprovação de eficácia contra a covid-19, fosse indicado para a doença.Fábio Wajngarten e Ernesto Araújo atribuíram a culpa dos caos sanitário que o país enfrente no ministério da saúde, imcopetente na compra de vacina segundo o próprio Wajngarten para a revista Veja. Eduardo Pazuello, demonstrou na CPI que é um mero faz tudo do presidente, por esse motivo tem sangue nas mãos. Mayra Pinheiro e Nise Yamaguchi confirmam que o governo apostou todas as fichas no ”tratamento precoce” e tentam trazer uma aura científica para a empreitada. A imprensa tradicional revelou meses atrás a estarrecedora notícia que o governo federal não planejou gastar um centavo com a covid-19 em 2021.Não é preciso lembrar todas as manifestações públicas do presidente da republica minimizando a doença (chamando de gripezinha), indo contra medidas sanitárias consagradas e com isso estimulando o caos, ofendendo as pessoas que estão em casa cuidando de si e dos próximos(”frouxos e maricas”) e a tara quase sexual do mandatário em ofender adversários políticos e louvar a cloroquina(oferecendo-a até mesmo para uma pobre ema).Por todos esses motivos a tese de que o governo apostou na ”imunidade de rebanho” na tratativa da peste global, resultando na morte de milhares de pessoas, é correta.

Com tudo isso, assusta ver que existem apoiadores das ações de Jair Bolsonaro (sem partido) nesta crise sanitária, que se firmam como notórios negacionistas.

Um dos mais renomados filósofos do século XX foi Martin Heidegger. Revolucionário no fazer filosófico e influente até os dias de hoje, o alemão maculou sua biografia com uma ruidosa adesão ao Partido Nazista em maio de 1933, depois de aceitar a reitoria da Universidade de Freiburg oferecida pelos novos chefes, fazendo conferências de propaganda em toda Alemanha com o intuito de ”revolucionar” a universidade, encerrando sua fala com o sinistro ”Heil Hitler!”. Esta adesão o levou a elaborar um pronunciamento nomeado como ”alocução a reitoria” onde submete a sua filosofia aos interesses nazistas; um leitor do discurso, Karl Löwith, perguntou-se depois da leitura do texto se o escrito significava que ele deveria ler os pré-socráticos ou marchar com as tropas de assalto. Karl Jaspers, intelectual e amigo de Heidegger,tentou trazer o homem á razão; numa conversa em sua casa o encurralou:”Como pode um homem sem cultivo como Adolf Hitler governar a Alemanha?” Heidegger:”A cultura não importa. Simplesmente veja suas maravilhosas mãos”.Guardadas as devidas proporções, os jornalistas, economistas, empresários, políticos e comunicadores que insistem em defender a atuação do governo Bolsonaro na atual pandemia, respondem aos fatos elencados na CPI da seguinte forma:”Os crimes e o autoritarismo não importam.Simplesmente veja como ele odeia a esquerda”.

Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.