Corpo Fechado: a antilógica do cinema sob rasura, por Daniel Araújo

Corpo Fechado (2000), escrito, produzido e dirigido pelo realizador indiano Night S. Shayamalan, é um poderoso trabalho que marca pelo menos dois momentos na cinematografia contemporânea. Um ligado a esse cinema que emerge de Hollywood, mas leva em sua gênese toda a distinção contida em obras eminentemente técnicas. E outro relacionado à reconfiguração do que conhecemos por cinema de gênero.

O longa conta a estória de David Dunne (Bruce Willis) que, após sair ileso de um terrível acidente de trem, começa a questionar sua incolumidade. As respostas a questão começam a surgir quando David encontra o misterioso Elijah Price (Samuel L. Jackson), cuja natureza revela-se diametralmente oposta à condição de David, uma vez que seu corpo sofre de uma doença que o deixa extremamente vulnerável a todo tipo de fratura.

Dentro da perspectiva dos dois polos apontados no início do texto, comecemos abordando  o traço reconfigurativo que coloca o longa como uma produção eminentemente subversiva no contexto do que é o universo hollywoodiano. Uma vez que Corpo Fechado é um filme de técnica. E isso é algo que pulsa em seu fazer desde o prólogo até seu clímax/conclusão.

Praticamente falando é observarmos como Shayamalan opta por trabalhar a partir de uma alternância absurda na forma como os planos do filme são captados. O que revela, na verdade, uma consciente alternância no modo de operar a técnica cinematográfica. E disso resultam planos e contra planos feitos apenas com movimentos de câmera, sem cortes, e nesse sentido também os longos takes contidos nas cenas, que buscam ser o menos convencional possível.

O longa usa uma alternância absurda no uso dos planos. O que revela consciente alternância no modo de operar a técnica cinematográfica.

É a câmera subjetiva do filho de David que assiste à TV deitado de ponta cabeça,  dando-nos a visão de uma câmera totalmente invertida ou dos planos em contra plongeé que somam-se a movimentos de câmera em zoom out em perfeita sincronia. É a forma cinematográfica afirmada por meio de uma técnica assertivamente aplicada ao fazer fílmico. E daí que percebemos como um trabalho como Corpo Fechado se coloca como potencialmente transgressor: por defender a estética do filme onde impera a lógica industrial no fazer artístico.

Por isso passamos ao nosso segundo ponto enunciado. E falar da reconfiguração da noção de gênero cinematográfico é apontar as potencialidades que surgem nessa arte a partir de um novo século. O longa surge em 2000 e pode ser lido como uma espécie de baluarte de como o trato do gênero deve ser desenvolvido. Explorando a mitologia das histórias em quadrinhos (HQ), o filme se reveste de uma narrativa complexa em trama e desenvolvimento de personagens.

O longa surge em 2000 e pode ser lido como uma espécie de baluarte de como o trato do gênero de cinema baseado na mitologia das HQs deve ser desenvolvido.

É como pensarmos os filmes de super-heróis que trazem consigo a maravilhosa carga de novos índices narrativos e dramáticos. É a positiva aposta nas formas alternativas de olharmos o cinema a partir de seus códigos fundantes. É observarmos que enquanto obra que celebra o universo das HQs, Corpo Fechado dispensa clichês normativos como o herói que salva a mocinha, por exemplo. Há questões como a busca identitária, mas ela surge dentro da curva dramática da estória, e vai se desenvolvendo em total harmonia no modo como as personagens vão se rascunhando nelas mesma.

É claro que, a exemplo do que colocara Jacques Derrida, não se trata de falarmos das formas a serem abandonadas no trato do gênero dos filmes que se inspiram em HQs. Ou seja, no modo sous rasure*. Mas sim de acolhermos todos os códigos já imbricados nas obras enquanto gênero, e potencializá-las através de todos os índices que tratamos nas linhas acima. Numa exata aliança que dota os longas que dialogam com o gênero de uma complexidade e refinamento pós-paradigmático que dá luz ao melhor do que o cinema pós-moderno se constitui.

 

*Sous Rasure é uma expressão que significa: “sob rasura”. Idealizada por Jaques Derrida para a identificação de conceitos que em sua forma original não são mais úteis no pensamento daquilo a que se referem.  

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Unbreakable

Tempo de Duração: 106 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2000

Gênero: Drama, Thriller

Direção:  M. Night Shyamalan

Daniel Araújo

Crítico de Cinema, Realizador Audiovisual, e Jornalista.