CONVERSA NO BOSQUE (PEÇA EM ATO ÚNICO) por Francisco Luciano Gonçalves Moreira

Ambientação: Guaramiranga – Sítio Olho d’Água – estradinha de acesso à casa principal

Personagens: Avô (Xykolu), Neta (Julynha) e Narradora (voz)

NARRADORA:

E eles, neta e avô, não resistiram ao agradável e salutar convite da mãe-Natureza, sempre – no sentir poético de Fernando Pessoa, o celebrado vate lusitano – sempre prodigiosa de encantamentos, generosa de acolhimentos e inefável de aprazimentos.

E eles, avô e neta, de braços dados, um proceder recorrente em seus cotidianos, amigos que são desde sempre, eles caminham, em silêncio, pela tranquilidade indescritível do bosque, como se nada mais existisse para além deste paraíso edênico, no usufruto pleno da felicidade que recobre, que encapsula, que embala os momentos muito especiais de suas existências terreais.

E, como sói acontecer, é Julynha, a neta, no esplendor dos seus 15 anos bem vividos, quem, dirigindo ao avô Xykolu uma questão recorrente no saudável e inabalável relacionamento que mantêm, cuja base consiste no tão celebrado amor filial, é ela quem quebra o silêncio:

NETA:

Vô, tu me amas?!

AVÔ:

Muito!

NETA:

Eu também te amo muito.

AVÔ:

Eu sei.

NETA:

Você sabia, vô, que “Muito” e “Eu sei” não é a mesma coisa que “Te amo!”?!

AVÔ:

Pois EU TE AMO, MUITO!!!, minha netinha mui querida!

NARRADORA:

Então, ao convite dele, neta e avô, sentam-se no banco de madeira, à direita, entre a estradinha de pedra tosca que dá acesso à casa principal e o lago de águas serenas e escuras, em grande parte recobertas por aguapés. Acomodam-se. Ao longe, lá no horizonte, nuvens plúmbeas ameaçam despejar sobre tudo e todos mais uma chuva fria e intensa. Acolá, no outro lado do lago, uma pata revela todo o desvelo maternal com seus seis a oito patinhos em processo de aprendizagem na relação com a água, apressando-se na busca de proteção para seus indefesos filhotes. A neta, então, retoma a conversa, fazendo um pedido ao velho contador de histórias.

NETA:

Vozinho, que lembranças bem marcantes você tem de mim, nesses anos todos? Que histórias você tem pra me contar, hein?

AVÔ:

Tenho muitas, Julynha. Mas há pelo menos três que são muito especiais para mim e, acredito, pra você também.

NARRADORA:

Julynha demonstra, agora, todo o interesse pelo que o avô Xykolu tem a revelar.

AVÔ:

Comecemos pelo fato de que você chegou até nós, eu e sua avó Marileide, a minha eterna parceira, antes mesmo de nascer. Ou seja, o seu brilho estrelar invadiu a nossa casa quando você ainda era um projeto de vida, embora já bem encaminhado. Como se tratava de parto de risco, a sua mãe Juliana, por recomendação médica, precisou dos cuidados dos pais, principalmente da mãe dela. O quarto que fora da sua tia Marylia, hoje a sua tão querida Dinha, transformou-se numa espécie de quarto de hospital. Tudo para que a princesinha, a primeira filha, a primeira neta não renunciasse à vida. Depois de nascer, sob os cuidados do doutor Eulino, você permaneceu conosco no curso do mês de resguardo da sua mãe, o qual, por aconselhamento médico, prolongou-se por mais um mês. E você foi ficando. Pra encurtar a história, você, minha lindinha, continua até hoje encantando as nossas vidas, dando um brilho especial em nossas existências.

NETA:

Eu faço parte da história de vida de vocês. Eu sinto isso, vozinho.

AVÔ:

Sim. Você desempenha um papel fundamental em nossa história. Você, Julynha, o seu irmão André Júlyo e os seus primos Marília e João Emanuel são, hoje, a razão maior de nossas vidas. É por meio de vocês que vamos certamente assegurar a nossa eternidade.

NETA:

Vô, qual é a segunda…?

AVÔ:

Você tinha uns dois aninhos. Era um começo de noite bem alegre em nossa casa. Você se divertia com umas visitas. Eu, no meu quarto, navegava pelos mares bravios da internet. De repente, você se aproxima de mim. De fralda apenas, pés descalços, a chupeta na boca e o paninho branco com bordas róseas sobre o ombro… linda como sempre. Ouço sua vozinha doce: “Vô, eu quelo mirmi…” E eu: “Pois vá mirmi, moça linda!”. E você: “Mas eu quelo mirmi com você, vô!”. E isso soou em mim como uma ordem. “Então espere um pouquinho… me deixe sair desse…” E a ordem se fez mais insistente: “Mas eu quelo, agola!”. Larguei tudo. Peguei-a no braço. Dei-lhe um beijo no rosto. Deitamo-nos na rede armada no quarto que hoje é todo seu. E fomos buscar o seu sono no embalo de uma rede e sob a voz marcante de um avô apaixonado: “Nesta rua, nesta rua, tem um bosque / que se chama, que se chama solidão / dentro dele, dentro dele, mora um anjo / que ganhou, que ganhou meu coração”. E esse anjo era você.

NETA:

Como é aquela musiquinha que você fez pra mim no Natal?

AVÔ:

Na verdade, você gostava de cantar assim: “Botei meu vovozinho / Na janela do quintal…”. Então, eu fiz esta paródia: BOTEI MEU VOVOZINHO / PRA ESPERAR O PAPAI NOEL / MEU AVÔ SAIU DE MANSINHO / COM TESOURA E PAPEL / EU VI O MEU VOVOZINHO / E AS ESTRELAS LÁ NO CÉU / ENTÃO EU DESCOBRI: O MEU VOVÔ / É O MEU PAPAI NOEL.

NETA:

Como é bom ouvir isso, vô! Eu me senti como se estivesse vivendo naquele tempo. Senti saudade até da chupeta. Do meu “bibi”…

AVÔ:

E por falar em “bibi”… Agora estamos num estádio de futebol. Você gostava muito de ir a jogos com a gente. Dormia sempre, mas ia. É um jogo do Ceará, no Presidente Vargas. Eu, você, a Aryane e o Éder. De repente, você pede o bico. Na sua bolsinha de apetrechos, tudo que pudesse satisfazer eventuais necessidades imediatas; mas nada do seu “bibi”. Ninguém percebeu que o bendito bico tinha ficado no carro. Ou melhor, todos achamos que ele teria caído no trajeto do estacionamento até ali. Você insistiu: “Eu quelo o meu ‘bibi’!”. Com uma boa argumentação, eu consegui com o pessoal do PV a autorização para sair, com entrada garantida no retorno. Caminho em direção ao centro. Bem em frente ao Farias Brito, encontrei uma farmácia aberta. Que sorte! Consegui comprar um bico igualzinho ao seu. Retornei apressado. Quando entreguei a “preciosidade” a você, os seus olhinhos revelaram grande satisfação… a que logo se seguiu uma outra exigência… “E o meu paninho?!”. “Meu Deus, e agora?!”, assim reagi. Lembrei-me do lenço que sempre me acompanha e muito raramente uso. Pois bem. O meu lenço se transformou em seu paninho. Quando as coisas serenaram, ouvi o apito do árbitro. Era o jogo que começava. Pouco tempo depois, você se agasalhou, como sempre: cabecinha no colo da Aryane e os pezinhos no colo do Vovô. E dormiu. Enquanto isso um outro Vozão ia construindo com alguma dificuldade um placar que lhe asseguraria a vitória. No retorno pra casa, encontramos o seu “bibi”, com paninho e tudo, no piso do carro, à frente do banco do carona. Julynha, você sempre foi muito querida. E certamente permanecerá sendo.

NETA:

Vô, posso fazer mais um pedido? Neste álbum de fotos e poesias que você fez pra mim, tem um poema que eu gostaria que você recitasse. Ou melhor, o senhor lesse a primeira parte e eu, a segunda. Tá certo, assim?!

AVÔ:

Seus pedidos, Julynha, sempre os trato como uma ordem.

NARRADORA:

Avô e neta leem o poema “Quinze anos”, um acróstico em verso da lavra dele.

AVÔ:

Quando a ti é dado ouvir o tempo sussurrando: – És adolescente!

Uma indescritível mescla de sensações e sentimentos, conflituosos na essência,

Invade – e parece lá acomodar-se – o teu íntimo: o mais recôndito do teu ser!

Navegas, então, a esmo: ora em excitante e perigoso mar revolto…

ora em nauseante e perturbativa calmaria…

Zombas do novo – és arrogante! Questionas o velho – és insolente!

Eternizas um tão atual quão ancestral fenômeno da dialética humana: o conflito de gerações…

NETA:

A mim – é óbvio – atingem-me também, agora, esses mesmos sentimentos, essas mesmas sensações,

Nesta (tão única!) fase, em que vivencio a mais complexa e significativa das passagens:

Ontem, criança: inocência! candidez! Amanhã, mulher: prudência! sensatez!

Sou eu, sim! Simplesmente eu! Para todo o sempre, eu: Anna Júlya!

NARRADORA:

Os artistas saem de cena. As cortinas do palco da vida se fecham lentamente. É o fim de mais um belo recorte do cotidiano de um exemplar relacionamento familiar. Um verdadeiro exemplo de vida. Que certamente continuará até a eternidade.

E QUE DEUS OS PROTEJA, SEMPRE!

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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