CONTO DE FOGUEIRAS FLOR DE GIRASSOL – Talião em tempos de violência urbana (1)

“Sempre que o sol / Pinta de anil / Todo o céu / O girassol / Fica um gentil / Carrossel.” (O Girassol, de Vinícius e Toquinho) (2)

PARTE I

Ela tinha apenas quatorze anos.
Os pais – ele, administrador, empresário no ramo de corretagem de imóveis, bem estabelecido, de bom conceito no mercado e clientela de alto nível; ela, odontóloga com pós-graduação, consultório próprio e cátedra na universidade – e avós – ele, bancário aposentado após largar brilhante carreira em um dos postos-chave da diretoria de instituição financeira privada, de atuação em todo território nacional e boa capilaridade; ela, aposentada na condição de servidora pública federal, com reconhecidos trabalhos na área da saúde – já se preparavam para a festa de quinze anos que pretendiam oferecer à única filha e única neta, a belíssima Maria Amélia.
E ela fazia por merecer. Além da beleza física evidenciada em rosto de expressividade angelical, emoldurado por véu de cabelos finos, longos e naturalmente alourados, compondo harmoniosamente com corpo escultural – que faria extasiar o pincel do mais celebrado dos ícones da pintura clássica universal – um perfil reconhecido por quem a conhecesse e admirado por quem simplesmente a visse, era recatada, estudiosa e consciente do seu papel de mulher numa sociedade hipocritamente patriarcal, machista. Sonhava em ser médica, na área da cardiologia – “Eu quero cuidar do coração das pessoas”, costumava dizer – e investia tudo o que estava a seu alcance para transmutar o sonho em realidade. Sacrificava até os privilégios da adolescência, nada impertinente, efervescente ou questionadora, no seu específico caso.
Quando não tinha atividade a cumprir no colégio, o quarto da mãe na casa dos avós era o seu porto seguro. Lá já encontrava tudo o de que precisasse, com o apoio estratégico, logístico do “velho senhor” que lhe dispensava a atenção só encontrada em avô. Fechava a porta para o corredor de acesso aos outros cômodos, abria a janela que dava para o bem cuidado jardim da avó, dirigia um olhar de ternura para os girassóis, a sua flor de preferência (gostava de “roubar” uma dessas flores, com que se enfeitava, apoiando-a sobre a orelha e guarnecendo-a com mechas de cabelo – e, assim, deixava de ser bela para tornar-se linda), e metia-se – de corpo e alma – nos livros e cadernos de anotações de sala de aula. Perdia-se no tempo, não se dispunha a submeter-se a ele: nada de relógio, nada de despertador; sempre era a avó quem a trazia de volta para a realidade, ou para servir-lhe algum tipo de alimento – adorava a vitamina de graviola preparada pela “grande mãe” (como dizem os franceses – “grand mère”) especialmente para ela, ou para avisar que seus pais chegaram para, juntos, irem para casa.
Nas suas andanças pela Grécia Antiga, interessou-se pela Mitologia Grega, suas deidades e simbologias, às vezes traçando paralelos com a Romana. Encantou-se com a narrativa em que a protagonista é a ninfa Clétia ou Clícia que, apaixonada por Hélio, o deus do sol, sofrera a grande decepção amorosa de ser desprezada pelo amado, que a trocara por outra ninfa, a Leucoteia. Segundo a lenda, reagira sentando-se no chão, com o olhar de veneração voltado para o seu “astro” no curso do dia. Assim permanecera até transformar-se numa planta heliotrópica, ou seja, gira o caule, posicionando a flor sempre na direção do sol, durante a fase do amadurecimento; quando o talo deixa de crescer, fica parada, sempre voltada para o Oriente até morrer. Surgira, então, o girassol, a flor do sol, simbolizando o entusiasmo, a vitalidade e a altivez.
Além do exemplar comportamento, os conceitos obtidos nas avaliações de aprendizagem, bem como nas suas sempre brilhantes participações em sala de aula concorriam para que merecesse a atenção especial dos professores e a admiração e o respeito dos colegas – havia, sim, alguma inveja, mas nada que abalasse os elos de amizade construídos entre eles. Amelinha era um exemplo a ser seguido. Era o xodó da família. Isso não interferia no seu jeito de ver a vida e de viver. E ela não demonstrava o menor interesse por eventos que não mantivessem relação com os seus planos. Medicina era o seu foco.
E ela só tinha quatorze anos.
Na semana que antecedia as férias do meio do ano, toda ela destinada às avaliações trimestrais, Amelinha conseguiu, como sempre, convencer os pais quanto a dormir na casa dos avós, por motivos estratégicos – dispor de mais tempo e tranquilidade para se preparar para as provas. A mãe comprometeu-se a manter a rotina, quanto à condução – nas idas e vindas – para o/do colégio. Já na primeira noite, envolvida com duas disciplinas com que mais se identificava – Química e Biologia –, quase vira a noite, debalde os conselhos e advertências dos avós sobre a eventual indisposição na manhã seguinte, pondo em risco toda aquela preparação. Teve um desempenho elogioso nas respectivas avaliações.
Na hora de voltar pra casa, pôs-se, conforme o combinado com a mãe, de prontidão na calçada frontal do colégio, quase defronte do largo portão de acesso ao interior do estabelecimento, naquele momento sem a requerida vigilância, sempre efetiva em outros dias e horários. Entretida com o que via na tela do celular – lembremo-nos, ó perscrutantes leitoras e leitores, de que se tratava de uma adolescente –, não percebeu a aproximação de uma moto, muito menos a ação rápida e covarde do marginal que a pilotava. Só compreendeu a gravidade da situação, ao sentir, na altura da cintura, pelas costas, o incômodo de um cano de revólver, e a ameaça verbal do indivíduo: “Calma, boneca! Nada de alarme, nem de gestos perigosos! Faça o que eu mando e não vai se arrepender.” Enquanto a intimidava, empurrava-a em direção à moto, o cano da arma a incomodar mais ainda. Arrancou-lhe das mãos o celular. Acomodou, nas próprias costas, a mochila da jovem, ora trêmula e sem qualquer poder de reação. Posicionou-a na parte frontal do assento, ajeitou-se atrás dela, pressionando-a, com o peito, contra o tanque de combustível, até poder assumir o controle dos guidões, seguindo em alta velocidade o roteiro que lhe pareceu atender as suas pretensões. No cruzamento das duas vias de grande movimento, corredor de ônibus para o centro da cidade, deu uma rápida freada, avançou o sinal à direita – semáforos em vermelho –, meteu-se, em arriscado zigue-zague, entre os carros em marcha lenta, trânsito pesado, e sumiu.
Poucos minutos depois, o Corola branco da mãe parou bem à frente do colégio, como de costume. Na calçada, nenhuma viva alma. Achou esquisito. “Onde estaria Amelinha?”, pensou. “Ela acabou de ligar pra dizer que já me esperava…”, preocupou-se. Baixou o vidro da porta do carro, buzinou uma, duas, três vezes. O porteiro veio até ela para informar que a filha já não mais se encontrava nas dependências do colégio. E arrematou: “Doutora, achei até que a senhora já a havia recolhido.” Não a tinha visto sair, mas tinha certeza de que somente dois irmãos menores ainda esperavam pelos pais na área coberta que a isso servia.
Ela, então, estacionou o carro em vaga paralela ao meio-fio, desligou o motor do carro e, ainda procurando manter a calma, pôs o celular na sua devida função. Ligou para casa; atendeu a secretária: “Não, doutora! Amelinha não está aqui!”. Ligou para os pais e a resposta já carregava algumas gotas de apreensão; a voz da mãe e avó da jovem soou com alguma inquietação: “Não, minha filha! A Maria Amélia – raramente tratava a sua neta desse jeito; só a chamava assim em momentos de tensão – não está aqui. O que houve? Me diga, pelo amor de Deus!”. Ainda não tomada de desespero, esforçando-se mais ainda para não perder o controle da situação, tentou acalmar a “velha senhora”: “Mãe, não se preocupe! Eu acho que sei para onde ela foi. (Não sabia!). Chego já aí com ela (Não chegaria!). Um beijo, mãe!”. Desligou. Entrou no “modo” praticidade. Procurou organizar as ideias, levantar as possibilidades. O pior é que jamais a filha se ausentara assim, sem ou com o consentimento dos pais; jamais se permitiu ir para a casa de quem quer que fosse, afora a dos avós. Não lhe restava opção; teria de colocar o marido na questão. Ligou para ele que, ao sentir dela, revelou a tranquilidade imprópria, incabível em situações tão cruciais; aconselhou-a a ir pra casa; para lá também logo seguiria; e, juntos, em ambiente mais propício, procurariam a devida solução para o problema. E enfatizou, talvez para serenar os ânimos: “Amor, eu tenho certeza de que nada demais aconteceu com a nossa filha! Deus está no comando!”. Não ouviu o “Assim seja!” por ela dito, porque o celular dele já estava desligado.
A procura por Amelinha ultrapassou os limites da família e dos amigos, logo montando-se uma rede de preocupações e de busca; avançou pelos hospitais, clínicas e postos de atendimento emergencial. Nada. Ninguém sabia do paradeiro da jovem. Ninguém acrescentava uma informação, um dado novo que lançasse luz ao caso.
E ela só tinha quatorze anos.
Por aconselhamento do sogro, o marido levou a mulher para a casa dos pais dela, porque lá podia partilhar o peso da tensão que ora a acometia, e seguiu para a delegacia de polícia mais próxima onde, após formalizar o respectivo Boletim de Ocorrência, conversou longamente com o delegado, “expert” em casos de rapto e sequestro. Após indagar sobre aspectos marcantes na vida da ora vítima, como se pretendesse traçar-lhe um perfil, ele, em determinado momento, mostrou a “frieza” do profissional da área de segurança pública em tempos de violência urbana:
– Doutor, pela minha experiência, as evidências sugerem tratar-se de “arrebatamento” para usufruto de algum proveito ou por vingança ou vindita. A sua filha ou é refém ou objeto de alguma represália contra alguém da família. Torçamos para que encerre um caso de sequestro. Se assim for, o sequestrador – ou sequestradores – logo, logo entrará em contato com vocês. O propósito da extorsão envolve, regra geral, algumas táticas bem peculiares. No primeiro momento, o prolongado silêncio deles tem uma motivação: enervar os potenciais extorquidos e, assim, fragilizá-los na negociação, com vantagens para eles. É um proceder usual. Cabe a nós, por enquanto, aguardar a evolução dos fatos.
– Mas, delegado, o que a polícia pretende…
– Doutor, já acionei o Departamento de Inteligência. Cabe a eles o levantamento de dados e o oferecimento a quem executa – nós! – das condições para o estabelecimento de estratégias de atuação que nos levem a alcançar o objetivo; no caso, salvaguardar a vida da sua filha e prender o ou os envolvidos. O senhor há de convir que não podemos sair por aí à procura do que… não dispomos de qualquer dado que nos oriente. Aconselho que vá para casa, doutor, e com a família aguarde o contato dos marginais. Assuma com determinação o comando das ações da família. E, mais, peço que nos informe sobre qualquer coisa que chegue ao conhecimento de vocês. O nosso canal de contato vai permanecer aberto.
A espera do contato do provável sequestrador é acabrunhante; é deprimente. O vestíbulo para a loucura. A dor só aumenta, sem que se tenha sequer um diagnóstico, quanto mais uma terapia. E nada. Só a sensação de impotência. O silêncio, quanto mais o tempo passa, mais enerva, mais arrasa, mais mina a capacidade de reação. Mais abate, aflige, fragiliza. De repente, um choque de alívio: o telefone toca. Quem atende é, por orientação de quem entende, o que tem poder de resolução: o pai.
– Alô!
– É da casa dos avós de Maria Amélia? – Voz feminina.
– É sim.
– Sou a secretária do colégio. Procurarei ser sucinta. Há pouco, a mãe de uma de nossas alunas, colega de Amelinha, nos ligou, com reservas, para informar que a filha dela conseguira fotografar a moto que conduzia a colega. Nos mandou a foto que permite identificar a placa de trás do veículo, com o pedido de que a repassássemos para vocês, acreditando que isso poderia ajudar…
– Com certeza, senhora. Deve ajudar, sim. Tão logo a senhora nos envie a foto, nós a repassaremos para a polícia… para o delegado que cuida do caso. O meu celular… pode mandar para o meu celular. O número é…
E assim aconteceu.

PARTE II

“O estuprador espancou-a com muita violência, quebrou os dentes e o nariz dela, depois estrangulou-a, a menina tem equimoses pelo corpo todo. (…) O rosto dela estava deformado devido aos golpes violentos que sofrera. Parecia uma máscara, uma grotesca caricatura.” (3).

A placa da moto serviu ao desfiamento da meada, ao deslindamento da ação criminosa. Para a polícia, propiciou o desencadeamento das ações eleitas como fundamentais para a solução do caso. Logo conhecido o nome e endereço do proprietário do veículo, para lá direcionou o foco das diligências preliminares. Em viatura, agentes da segurança pública foram até o local. Era a casa dos pais do suspeito, homem de quarenta e poucos anos, sem profissão definida, com registros de usuário de drogas e passagens por centros de reabilitação, dependente de ganhos de aposentadoria dos progenitores. Lá não o encontraram, o que não causou a menor surpresa aos policiais em ação que consideraram natural – e até óbvia – a fuga após o cometimento do crime. Mas obtiveram uma informação importante de uma mãe em estado de languidez, de abatimento, embora ainda com uma reserva de proteção da desencaminhada cria:
– O meu filho, senhores, embora quarentão, comporta-se como se adolescente fosse. Não cresceu. Desde menino, adora um tio que mora em rua próxima à igreja de Nossa Senhora da Conceição, matriz de Pacajus. Todas as vezes que dele cobramos outro tipo de comportamento, sai de moto e vai buscar abrigo, guarida, apoio com o tio muito querido. Dizer isso é muito duro para uma mãe. Mas, se ele cometeu algum desatino, por isso tem de pagar.
Coordenadas traçadas. Polícia local acionada. Se tudo corresse dentro das conformidades, a prisão do suspeito não demoraria; seria uma questão de poucas horas ou até de minutos.
Não houve reação. Pelas evidências, a prisão ocorreu em flagrante delito. A tranquilidade do rapaz e a frieza no ato de entregar-se não deixavam margens à mais mínima das dúvidas. Era ele, sim, o autor do ato delituoso.
Na delegacia, já no depoimento inaugural do processo, a revelação em detalhes. Matara, sim, a jovem. Por esganadura – constrição violenta, com as mãos, em torno do pescoço da vítima – após violenta sessão de torturas, mediante o uso do capacete, cujas arremetidas provocaram profundos cortes no entorno dos olhos, afundamento de ossos frontais, lesões nos lábios e queixo, além da quebra de dentes e sangramento no nariz, enfim, desfigurando-lhe o belo rosto. Chutes e pontapés causaram hematomas em várias partes do corpo da vítima, em especial nos braços, a sugerir algum tipo de reação. Ainda dera um tiro à queima-roupa na testa da jovem já sem vida, apenas para garantir a morte por ele desejada. Ocultara o cadáver, semidespido, sob galhos e folhas de arbustos do matagal para onde houvera levado a jovem, após arrastá-lo para área de acesso difícil. Detinha um bom conhecimento do local, onde se escondera por diversas vezes para se drogar. Houve estupro, sim. No caso, a reação da vítima, na luta inglória da defesa da honra, é que o motivara a ser violento. Fizera com a filha o que sempre desejou fazer com a mãe dela. Fora vizinho da família por longos anos. Na juventude, nutrira uma alucinante paixão pela arrogante e inacessível filha única do bancário que pousava de rico. Ela jamais correspondeu, pelo contrário, desprezava-o. Preferiu casar-se com outro. E isso o levara a fugir da realidade, a buscar a compreensão da sua inutilidade, pelo perigoso caminho das drogas. Os pais investiram muito dinheiro e paciência com as tentativas de recuperação do filho. Debalde porque o que havia era apenas algum aliviamento temporário da dependência. Jurara um dia vingar-se. E a vingança veio de uma forma mais contundente – e, para ele, de maior prazer, de satisfação –, mediante o sacrifício da filhinha querida. Se um dia sofrera pelo desprezo, agora sofre quem o desprezara. “Olho por olho, doutor!”. Não se arrependia do ato cometido. Faria tudo de novo, se fosse o caso.
Prisão preventiva, por prática dolosa (com declarada intenção de matar) e com a devida autorização judicial. Delito de múltipla qualificação: posse de arma de fogo sem a devida autorização legal, premeditação de ato censurável, rapto sob ameaça e risco de vida da vítima, motivação fútil, estupro seguido de privação da vida de vulnerável (menor de idade; ela só tinha quatorze anos), ocultação de cadáver. À Justiça caberia, no momento oportuno, considerar como agravante o grau de perversidade adotado pelo criminoso no cometimento do crime.
O corpo da bela Amelinha, após os exames de praxe no Instituto Médico Legal, teve velório em agência funerária, com muita dor, choro e consternação. Nada mais cabia ser feito. A Deus, competiria a devida justiça. No enterro, houve até quem aventasse a possibilidade do justiçamento, do linchamento, caso o assassino logo deixasse a prisão.
Na noite da missa da esperança – a do sétimo dia –, familiares e amigos mais próximos fizeram uma rápida visita aos avós de Amelinha, onde os pais já se encontravam. Enquanto conversavam sobriamente sobre o que acontecera nos últimos dias, sob o estímulo de saboroso café, além de chá calmante com torradas, a “grande mãe” relatou um fenômeno que nem a ciência conseguiria esclarecer: o murchamento de todas as flores de girassol do jardim que, em alguns dias, caíram sem vida, inexplicavelmente. O “velho senhor” pediu licença para retirar-se, intimando o genro para acompanhá-lo até o escritório, em ambiente mais restrito da casa, para uma conversa a dois, séria e inadiável, a qual já se iniciou assim:
– Pretendo… pretendo não… eu vou vingar a morte da minha neta. Quero fazer este marginal, este covarde, este infeliz sofrer bem mais que o sofrimento que ele se achou no direito de impor à minha indefesa Amelinha. O resto da minha vida dedicarei a este ato de justiça. Justiça que os homens jamais saberão praticar na devida medida.
– E como o senhor vai… vai conseguir isso?
– Me responda primeiro uma coisa. Você estaria disposto a participar, a me ajudar nisso, sob o mais completo sigilo?
– É óbvio que sim. Desde já, pode contar comigo. Eu também quero vingar a minha filha.
– Eu já tenho um plano delineado. Mas como vingança é um prato que se deve comer frio, vamos dar um tempo, até que o caso caia no esquecimento coletivo. Eu só lhe peço, agora, que – entrega ao genro um cartão de visitas – entre em contato com este advogado. Ele é um velho amigo dos meus idos tempos de diretor de banco. Ele atua na área criminal há muito tempo, com acesso a autoridades judiciais. Em meu nome, contrate-o para acompanhar tudo sobre a prisão do assassino de Amelinha. Na hora exata, damos o devido arremate ao caso. Alguma dúvida?
– Não, senhor.
– Então, façamos de contas que nada demais houve. Não deixe vazar nada sobre esta nossa conversa.
– Certo.

EPÍLOGO

“Levamos a cama para o quintal dos fundos, enchemos de gasolina e tacamos fogo. (…) Através da janela, víamos a fogueira ardendo no quintal.” (3).

Após uns seis meses do triste fato, dele ninguém se lembrava mais. O presidiário aguardava ser levado a júri popular. Arguindo a primariedade do seu constituinte, o bom comportamento e o domicílio sabido e conhecido, o advogado de defesa obteve do juiz que cuidava do caso o relaxamento da prisão, concedendo ao seu representado o competente alvará de soltura provisória, para responder em liberdade vigiada, sob as condições prescritas em lei.
Ao deixar o presídio, o respeitável causídico propôs-se a levá-lo à residência dos pais, conforme houvera prometido à sofrida mãe. No trajeto, fez-lhe algumas advertências, mormente para evitar o retorno à prisão, com os agravantes daí decorrentes. Na esquina da rua em que os pais dele moravam – a modesta casa ficava quase no meio do quarteirão –, nenhuma viva alma com disposição para submeter-se aos raios do sol de meio-dia –, parou o carro; o assassino da menina Amelinha desceu sem cumprimentar nem agradecer o seu “anjo da guarda”. Taciturno esteve, taciturno permanecia. Poucos passos deu pela calçada de leito irregular. Sofreu a ação de alguém que o atacou pelas costas, enfiando-lhe no nariz um lenço embebido em clorofórmio. Desmaio. Inação. Acabou sendo lançado no porta-malas de um Range Rover Sport HSE, branco Fuji. Ninguém viu. Ninguém ficou sabendo de nada. Era o plano do “velho senhor” em seu estágio inaugural. Era a tão desejada vingança sendo servida fria. O assassino de Amelinha sumira asem deixar vestígios; havia sido abduzido por forças estranhas. Muitos acreditavam nisso.
O carro seguiu em velocidade usual, sem despertar suspeitas, com destino ao sítio de propriedade do ex-diretor de banco, a poucos quilômetros da praia e a alguns metros da principal via de acesso a bairro costeiro. O caseiro recebera com gratidão alguns dias de férias e viajara com a família – mulher e um casal de filhos – para a cidade dos sogros, lá pras bandas do Cariri.
Para a companheira de todas as horas, anunciou que precisava resolver algumas pendências em negócios de algum risco e, por isso, se isolaria no sítio por poucos dias, talvez apenas uns dois. Precisava de sossego. Manteria contatos amiudemente. Costumava agir assim; não se tratava de algo que pudesse causar algum tipo de apreensão.
No pequeno cômodo contíguo à casa, usado para guardar objetos de pouco uso cotidiano, armou uma velha cama de solteiro, com estrado e colchão. Sobre ela, sempre com a ajuda do genro, depositou o corpo completamente desnudo do ainda tonto e sem poder de reação do assassino de Amelinha e ora objeto da sua incontida ira. Amordaçou-o. Vendou-o. Amarrou-o. E se dispôs a fazê-lo sofrer as dores de uma vingança lenta e gradual.
A marteladas e sob gemidos e tentativas de contorções que denunciavam dores lancinantes, espatifou-lhe os ossos dos dedos e das mãos, estourando-lhe as articulações. Após intervalo programado e cronometrado, a marretadas quebrou-lhe os ossos dos braços. Na sequência, com um capacete adquirido para isso, arrebentou-lhe os dentes, afundou-lhe os ossos frontais do rosto, fazendo sangrar os lábios, o queixo, o nariz e o entorno dos olhos. Já era noite. Trancou à chave a porta do cômodo, tomou um banho demorado e reconfortante, não quis comer nada, agasalhou-se no seu quarto de dormir, para recuperar energias e prosseguir com as sessões de tortura por toda a manhã do dia seguinte.
Era a véspera do dia consagrado a São João. Em todas as casas, pessoas cuidavam animadamente dos preparativos para os tradicionais festejos juninos, incluindo, obviamente, as fogueiras estrategicamente montadas.
No quartinho, já com forte odor de suor, urina e merda, o torturado ardia em febre e arquejava pela mordaça, sobre a velha cama. Pôs para ferver a água de uma panela média. Em ebulição, foi toda ela lançada sobre a desprotegida região pubiana do seu desafeto. Tremores, gemidos, desmaio. Na sessão seguinte, já quase meio-dia, quebrou-lhe a marretadas os ossos das pernas. Sem mais ter condição de reagir, pareceu entrar em estado de coma. E o “velho senhor”, carrasco por circunstâncias inafastáveis, deu por encerrado mais um estágio da vingança planejada.
Sempre com a ajuda do genro, transportou para uma área livre entre duas frondosas mangueiras, quase no meio do sítio, a velha cama já desprovida das pernas. Depositou sobre ela o que ainda restava do assassino de Amelinha – não podia jamais esquecer esse tão significativo detalhe – que apenas gemia… um gemido surdo, abafado e incessante. Cobriu tudo com palhas secas de coqueiro, e em cima e nos lados desse arranjo inusual, macabro, armou a sua fogueira.
Já era quase noite, estacionou o carro de ré na lateral da casa, abriu a porta traseira, pôs o som para tocar, em decibéis quase insuportáveis, músicas sertanejas gravadas em pen-drive; posicionou, em lugar que julgou estratégico, duas cadeiras e uma mesa, sobre a qual dispôs um litro de uísque – um velho Ballantine’s 12 anos, balde com gelo e copos.
Caminhou calma e decididamente até a sua fogueira bem especial, sobre ela aspergindo dois litros de gasolina. Ateou o fogo. Contemplou, com alívio e satisfação, as labaredas em dança horrenda, o fogaréu fazendo crepitar as achas de lenha, enquanto ouvia: “A fogueira tá queimando / Em homenagem a São João”.
Retornou ao bar improvisado perto do carro, sorveu com prazer uma dose de “uísque caubói”, puro e sem gelo. Serviu outra dose, agora com gelo, brindou com o genro, e manteve a classe de sempre. Nada disse. Nada tinha a dizer. A noite seria uma criança; tinha de saber aproveitar. Nem o forte odor de carne (humana!), arrastado pelo vendo brando lá da fogueira, foi capaz de lhe causar qualquer tipo de comoção. Era como se nada de extraordinário tivesse acontecido.
Na manhã do dia seguinte, tão logo parou a frágil neblina que insistia em cair desde a madrugada, quando os obrigara a levantar acampamento e aceitar os efeitos do sono, recolheu com pá e carrinho de mão as cinzas do que fora uma fogueira, as quais ainda reverberavam um pouco de calor, despejando-as em poço profundo, abandonado há tempos.
Antes de dar o caso por concluído, ouviu do genro:
– Na prática, o que fizemos sugere apenas a aplicação da Lei de Talião…
– De talião, não. Do Bastião!
E o “velho senhor” se chamava Sebastião.

NOTAS DO AUTOR:
(1) Lei de talião: em linguagem jurídica, aplicação de pena na mesma proporção do dano causado; em texto bíblico, olho por olho, dente por dente (Levítico, 24-20); em latim, Lex Taliones, em que lex = lei e talis = tal, idêntico. Portanto, “talião” não é uma pessoa, um personagem, uma deidade da Mitologia Grega ou Romana, como é comum admitir-se.
(2) Em Livro de letras, Vinícius de Moraes; texto: José Castello. Companhia das Letras.
(3) Rubem Fonseca, em Laurinha; Ela e outras mulheres. Companhia das Letras, pág. 90-96.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.