Conto da Luz Vermelha (1) Flor do bom-dia ou da boa-noite

‘’O pecado é algo que se inscreve por si mesmo no rosto de um homem. Não pode ficar oculto. Muita gente fala de vícios secretos. Não existem.” (Oscar Wilde, em O retrato de Dorian Gray. Círculo do Livro; pág. 180).

Hoje acordei com uma vontade imensa, perturbadora, incontida, incontrolável de escrever sobre o pecado. Algo nunca antes sentido. Não sei bem por que me senti estimulado a isso. Nada li que me impressionasse nesse sentido. Não tive sonhos nem pesadelos que justificassem colocá-los na prateleira das atitudes reprováveis, censuráveis, pecaminosas. Não há em mim a mais insignificante das predisposições ao cometimento de qualquer ato que desabone a minha reputação, construída com tanto empenho, tanto zelo, tanta dedicação; muito menos que ponha a minha irrequieta alma na condição de merecer algum tipo de advertência ou até mesmo de absolvição. A consciência não carrega, no momento, nenhuma mácula, nenhum desvio carente de correção. Apenas o espírito, certamente sob eflúvios da minha musa inspiradora, que não raramente voadeja fagueira e translúcida em meu entorno, é que insiste: saia da zona de conforto, escreva qualquer “coisa” a respeito do pecado; pinte-o com os matizes que o pincel da sua criatividade mostrar-se capaz; recorra a reminiscências, afastando o pó do sótão da memória que recobre fatos ali guardados no curso da sua narrativa de vida. Quem sou eu para dela discordar… Portanto, avante!

(…)

Pois bem.
Nos idos tempos da minha ditosa adolescência, já lá se vai mais de meio século, as cidades interioranas, na sua quase totalidade, deviam ter, necessariamente, a prefeitura, a igreja matriz e a delegacia de polícia, com as suas autoridades públicas devidamente constituídas: prefeito, vigário e delegado (o poder, a fé e a ordem). Outros equipamentos se tornavam, em face da demanda, imprescindíveis – escolas municipais, farmácia, praças arborizadas, chafarizes, cemitério, cadeia, campo de futebol, mercado e cabaré (não no sentido francês da palavra, mas do cearensês puro, ou seja, bordel, prostíbulo, casa de prostituição, antro de perdição, de devassidão, sede do baixo meretrício, lá onde os jovens mancebos se apraziam com o gozo da iniciação sexual, apesar dos riscos de contrair doenças venéreas – as famosas DSTs ou doenças sexualmente transmíssiveis, em época que não se tinha sequer notícia da letal AIDS –, e os homens de bem buscavam a satisfação dos prazeres carnais já não mais encontradiços em seus relacionamentos conjugais.) O certo é que disso exalava um forte odor de pecado, execrado tanto pelas famílias essencialmente cristãs quanto pela igreja católica, ainda soberana no pastoreio das ovelhas de Cristo, cujos pastores condenavam, em homilias e pregações, a prática de atos libidinosos, sodômicos e gomórricos, avessos à rigorosa orientação religiosa. E haja sal para purgar tanta alma desprovida de caráter, muitas dissimuladas sob puído manto da fidelidade íntegra, irrepreensível, virtuosa. (Houve até um caso clássico de cidadão piíssimo, religioso praticante, marido e pai exemplar, que perdera a vida, na tarde de um fatídico sábado, nos braços fogosos da amante mantida em segredo, em quarto de hotel na capital. A notícia do fato abalou toda a sociedade baturiteense e fez estremecer as estruturas do vicariato, então sob a mão firme do padre Gerardo Aguiar.).
A bem dizer, sempre houve, desde os mais remotos tempos da humanidade, mulheres dispostas a vender o próprio corpo e homens interessados em comprá-lo para, a rigor, satisfazer desejos inconfessáveis. E, para o já citado escritor irlandês Oscar Wilde, “As mulheres são esfinges sem segredos” (2).
Na minha terra, bem no pé da serra, o cabaré era popularmente conhecido como ”O doze” e funcionava em casa aparentemente simples, de alvenaria e telhado de cerâmica, com dupla queda d’água lateral, erguida no alto de morrote recortado por máquinas de terraplenagem para ceder espaço à única via de acesso à cidade, pelo lado do sertão, na localidade do Sanharão – quem pretendesse ir ao centro da metrópole ou dela sair, vindo de ou indo para outras terras, ou subir a serra, por ali teria de passar –, região que, por algum tempo, fornecera um tipo de pedra, com ligeira aparência de piçarra e de formato irregular, então muito usada como revestimento estilizado de paredes frontais das casas de quem detinha posses para tanto.
Sem falso puritanismo, nunca me dispus a frequentar tal ambiente, muito pelo temor que carregava nas entranhas, lá onde é quase impossível qualquer tipo de intervenção visando à remoção, adquirido ainda na infância, quando ainda residia no Posto Agropecuário, lá no Coió, ante um fato comentado veladamente pelo meu pai, envolvendo um jovem senhor que costumava lhe dar dias de serviços no trato dos roçados em terras virgens e preferencialmente íngremes e dos canteiros de batata doce na areia marginal do rio, cuja produção – milho, feijão, arroz, jerimum, macaxeira, quiabo, maxixe – servia à alimentação regular da família. Era comum, nessas ocasiões, vê-lo almoçar em área reservada da nossa casa, deitar-se na calçada em sombra para a curta sesta pós-almoço. Um dia, chegou-nos a notícia do seu assassinato, a golpes de instrumento perfuro-cortante, sob a fronde de velho cajueiro, em um dos costumeiros forrós promovidos no cabaré do Sanharão, em meio a luta corporal com desafeto, em ferrenha disputa por uma das prendas recém admitidas no “abatedouro” de “mulheres fáceis”. Todas as vezes que, indo para Fortaleza ou de lá voltando em companhia da minha mãe, via, pela janela do ônibus em movimento, aquela casa no alto do morrote, dois detalhes me chamavam a atenção: o velho cajueiro lateral e os canteiros frontais de boa-noite ou bom-dia ou maria-sem-vergonha, sempre repletos de florezinhas vermelhas, róseas e brancas.
Era comum ouvir comentários – desairosos, uns; burlescos e até grosseiros, outros – sobre casos tidos e havidos como verdadeiros, envolvendo personagens que protagonizavam dramas humanos no teatro dos prazeres pecaminosos.
Um dos relatos dava conta de um senhor, bem casado, bem apessoado, pai de família enérgico e de vasta prole, que, possuindo um jipe 54, dava-se a aventuras de fim-de-semana. Bom jogador, envolvia-se, já na sexta-feira, em noitada de carteado no salão de jogos nos fundos do restaurante do seu Manoel Balancim, em rua estreita perpendicular à avenida 7 de Setembro, tendo, nas esquinas, de um lado a loja original de A Pernambucana (venda de tecidos) e do outro o sortido comércio do Valdez Silveira, neto do tio Tonho e, por conseguinte, sobrinho do meu pai e meu primo. (Retomemos o curso da narrativa). Tal senhor consumia umas doses de cachaça enquanto jogava a sorte nas cartas. Às vezes, saía de lá já madrugada adentro, por falta de parceria na condução da jogatina, e, com motorista contratado para o mister, teimava em ir jogar baralho em casas do gênero na capital. Ao passar pelo “O doze”, fazia uma parada estratégica para oferecer a quem interessar pudesse uma viagem de passeio, com retorno só para a tarde do domingo. Sempre conseguia uma ou duas candidatas aventureiras. Em chegando ao destino, logo dirigia-se para a rua de acesso à mais tradicional zona de prostituição – o promíscuo Curral – localizada entre a estação ferroviária (hoje, museu) e a cadeia pública (transformada na sede da Emcetur, tão logo surgiram os presídios em áreas distantes da zona urbana), no sentido praia, onde, no projeto de revitalização da área, erigiram o Centro Cultural Dragão do Mar. Ali, liberava as meninas para o aproveitamento do que oferecessem as circunstâncias, prometendo resgatá-las na volta para Baturité. Cumpria a promessa; mas as “turistas” do retorno sempre eram outras. Diziam as más línguas ser ele o caixeiro-viajante que cuidava da renovação dos estoques.
Um outro caso também o teve como ator, agora mais na condição de antagonista. Já não mais morando em Baturité, as aventuras apenas episódicas, um dos seus filhos, o mais velho dos quatro jovens, era o ponta-esquerda do time do Putiú, ainda sob a tutela financeira do abnegado Ribamar e o comando técnico do bom Ornilo.
Havia “carne” nova no bordel do Sanharão. Uma “paraguaia” esbelta, graciosa, altiva, de corpo esguio, a face ovalada e os cabelos negros, abundantes e longos, esparramados até as proeminentes ancas, coxas roliças e pernas torneadas, um perfil único a atrair o interesse dos dois – o pai e o filho, sem que um soubesse dos “desejos” do outro.
Naquele domingo, haveria jogo no campo da Manga, por trás do Matadouro Público, no bairro Duque de Caxias, popularmente conhecido como Feira do Gado (resquício do papel que desempenhara no passado), vizinho ao velho Sanharão. E os dois chegaram cedo ao Putiú, com lotação completa do fusquinha creme do filho, o pai de carona. O propósito exteriorizado de um era jogar; o do outro, além de visitar familiares, era assistir ao jogo. Já o não revelado… bem… o ponteiro imantado da bússola de cada um apontava, de forma fixa, para o mesmo Norte: o cabaré do Sanharão, “O doze”, que recentemente acolhera a estonteante “paraguaia”.
Houve o jogo. O filho jogou. O pai assistiu com um grupo de amigos, parceiros de aventuras que dormitavam no passado. Quando conseguiu desvencilhar-se deles, já no balcão da festejada bodega do seu Manuelzinho, à margem da via de acesso ao centro da cidade e a poucos metros do seu desejado destino, seguiu até lá caminhando a pé, porquanto não valia a pena deslocar-se em carro de praça.
Na porta de entrada do prostíbulo, recepcionou-o a cafetina. Indagou-a, de pronto, pela “paraguaia”. A resposta não apenas o frustrou, mas fê-lo retomar o caminho de volta com o “rabinho entre as pernas”.
– A “paraguaia” está no quarto com um cliente. Um jovem de Fortaleza, o ponta-esquerda do time do Putiú… fez até um gol no jogo de hoje.
Se tinha algo mais a acrescentar, já não mais dispunha de interlocutor, pois ele já se ia afastando, totalmente desinteressado com o que certamente já não mais ouvia. Era o filho dele quem usufruía das benesses carnais, ofertadas no altar de Vênus, pela estonteante “novidade” do bordel. Tomou duas boas de cachaça velha na bodega do seu Manuelzinho, retornando para a casa dos familiares, onde tomou um demorado banho e jantou. Estava pronto para a viagem de volta que só aconteceu já perto da meia-noite.
Há, ainda, o caso do caminhão pau-de-arara que, na manhã de um 8 de setembro, domingo, ao retornar, com lotação completa de fiéis e infiéis, da última noite dos festejos consagrados a Nossa Senhora de Nazaré, padroeira da vizinha cidade de Capistrano, desceu o barranco à margem direita do asfalto, adernando sobre arbustos e causando escoriações em vários passageiros. Culpa coube ao motorista que, segundo depoimentos de testemunhas, teria perdido o controle da direção, embevecido pela imagem de uma bela e sorridente morena, com arranjo de flores de boa-noite preso no cabelo na altura da orelha, emoldurada na janela do bordel. Não se sabe se entre eles já havia algum tipo de relacionamento ou se se tratava de devaneio à primeira vista.
As recordações, tendo como mote o cabaré do Sanharão, remetem-me agora a um fato que causou consternação em todos nós, baturiteenses. Um jovem saudável, de beleza física louvada por moçoilas e jovens adolescentes, boa educação formal e religiosa, pertencente a respeitável família da sociedade local, corpanzil de atleta olímpico, decidiu, sem que se saiba por que razões, abandonar a vida que lhe oferecia a classe social a que pertencia e simplesmente fixar-se no antro de devassidão, alterando profundamente o seu “modus vivendi”. Ganhou, de imediato um desafeto – que o aturava por puro medo, embora assim perdesse o usufruto pleno dos benefícios de gigolô (3). O jovem – réplica do titã grego Atlas – manteve-o sob seu poder, sob ameaça permanente. Era uma relação perigosa. Até que um dia as desavenças explodiram, e o proxeneta aproveitando-se de um descuido do “seu senhor”, matou-o com uma faca de mesa. Se a mudança de comportamento do jovem causara estranheza em todos nós, o crime comoveu-nos. E toda a cidade entristeceu-se. Dizem que até as flores vermelhas, róseas e brancas da maria-sem-vergonha, que embelezavam a entrada do cabaré, emurcheceram, perderam o frescor e, triste e inexplicavelmente, despetalaram-se.

“Já cruzou o Sanharão, detestado e amaldiçoado pelas senhoras de bem porque em seu seio grassava a perdição dos homens atraídos pelos pecaminosos desejos da carne, generosa e abundante ali, cujo rótulo ‘baixo meretrício’ soava socialmente excludente…” (Xykolu, em Caminhos de um passado distante, cujo mapa se preserva na memória/Eu e o Segunda Opinião. Edição livre, 2017-2018; pág. 79).

NOTAS DO AUTOR
(1) Por convenção, a luz vermelha acesa à noite em ponto estratégico era a mais vistosa indicação de que ali, naquele imóvel, funcionava um prostíbulo.
(2) Em O retrato de Dorian Gray. Círculo do Livro; pág. 236.
(3) No caso, o rapaz – conhecido como Nego da Delsilha: tímido, retraído, esquivo, calado – aparentava manter uma relação próxima, quase familiar, com a cafetina e seu séquito renovável; a mãe dele, segundo comentários da época, exercia algum tipo de influência no negócio, talvez por ser a “decana” do elenco.

“CAFUNEIEM-SE”

Você tem ideia de quanto custa um cafuné?
Você sabe qual o valor de um carinho?
Você já se sentiu enternecido pela ação de uma carícia?
Você já se sentiu protegido pela força de um abraço?
Você já “cafuneou”, acarinhou, acariciou, abraçou?
Você já adormeceu no colo de alguém?
Você já ofereceu seu ombro para alguém recostar a cabeça?
Você já amou? Já se sentiu amado?
Você tem alguma dúvida de que é o AMOR
e as suas múltiplas formas de manifestação
que fazem a nossa vida ter algum sentido?
Eu não!
Aos meus amores, um beijo no coração!
Aos meus amigos, um abraço fraterno!

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.