Conto do amor no caos, por Luana Monteiro

Maria Amora era moça dedicada. Confusa, mas dedicada. De acordo com seu horoscopo ela tinha nascido com o dom para leitura, para fala, para escrita… Amora adorava aprender. Ainda na faculdade conheceu Carlos Caos, um moço sabido até demais. Tudo ele sabia e o que não sabia procurava saber para poder fazer umas das coisas que ele mais gostava: explicar.

Carlos Caos, quando mais moço, tinha partilhado de ideias anarquistas. Criticava a noção de propriedade e as instituições. Amora tinha aprendido que amor na vida só se tem um. Este se consagra no casamento e tem o ciúme como fermento. E como era ciumenta Maria Amora! Acreditava ela que isso garantiria um amor forte e verdadeiro. Que mistura estranha foi Amora com Caos!

Enquanto Carlos Caos vivia para criticar o mundo (esse detalhe quase fez com que seu nome fosse Carlos Crítico), Amora se incomodava com tudo. Comportamento controlador. Ela queria controlar o mundo.

Mas o amor dos dois começou a fazer sentido. Enquanto Amora crescia, aprendia a fazer das suas experiências a fonte da sua feminilidade. Não existia nada pronto que pudesse ser vestido como roupa quando chegasse a hora certa. Não! Amora teve que construir o que era ser mulher. E principalmente combater o que não lhe convinha e o que ela não acreditava.

Nessa relação de muitos debates, desconstruções, discordância e concordâncias, cresciam juntos Caos e Amora. Dois indivíduos que se sentiam cada vez mais fortes nas suas diferenças e na sua união.

Um dos primeiros passos de desconstrução foi o ciúme. Ao passo que ambos sentiam que, na verdade, aquilo era uma expressão de dominação e submissão e que demonstrava sobretudo fragilidade naquela relação, ao invés de companheirismo e união. Sabiam que aquele sentimento precisaria mudar.

Nessa associação Caos e Amora buscavam fugir de um padrão. O que um não podia oferecer o outro não cobrava não. Pelo menos era isso que buscavam. E lá iam em rumo a mais desconstrução…

Daí em diante Amora e Caos passaram a problematizar diferentes gatilhos de dominação, que geralmente são normalizados numa relação. Coisas como, chamar o outro de “meu”, achar que alguém nasceu ou foi feito para uma determinada pessoa, pensar que a felicidade só poderia acontecer através de outro, passaram a ser estranhas associações.

Certa vez Amora teve ideia grandiosa. Tão grandiosa que alguns segundo depois sentiu frio na barriga, expressão de medo por tamanha ousadia que tal ação representaria. Amora pensou em partir, não para deixar Caos. O amor dos dois era grande por demais para acabar de uma hora para outra. Amora queria conhecer o mundo, se desprender de raízes que não lhe traziam crescimento. Ela precisava se lançar ao vento e ver que parte lhe cabia desse pequeno experimento chamado vida.

Caos entendeu Amora e a abraçou forte dizendo que onde ela fosse seu amor iria junto. Ainda a olhando Carlos Caos disse, – “você e eu somos pessoas diferentes, com gostos, vontades e disposições diferentes. Os dois jamais serão um e isso deve ser respeitado, porque você é independente de mim.”

E realmente Amora era. Independente de Caos, independente da família, independente das imposições e barreiras que a ela eram postas. Amora era e o mais importante: queria ser mais. Amora partiu, foi viver novos rumos. Seguiu em busca de mais conhecimento, de mais compreensão, mais amor próprio. E de quebra desfruta do amor de Caos. Quem sabe até mais, porque Amora voa e Caos a admira.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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