CONSELHO DE NETO (ou Siga rigorosamente o aconselhamento médico)

O SEU TEODÓSIO, SEPTUAGENÁRIO, COM SAÚDE E LUCIDEZ invejáveis, revelava ultimamente um comportamento arredio, sempre pensativo, melancólico e taciturno, ou, como diria um outro Luciano, com quem tive o prazer de usufruir – embora em momentos pontuais – de agradável convivência, O velho andava capiongo, meditabundo e sorumbático. E isso angustiava dona Leidinha, dileta e diligente companheira de todas as venturas e desventuras, de todos os agrados e desagrados, ânimos e desânimos, que, sentindo-se agora vencida em tudo o que tentara para recuperar o entusiasmo e o prazer de viver do seu antes espirituoso parceiro, e, assim, reconduzi-lo à normalidade do cotidiano existencial, passou a cobrar-lhe, com certa insistência, a busca por adequado tratamento médico, a que ele reagia sempre com uma boa dose de amargura:

– Você acha, minha velha, que, nesta idade, eu vou mesmo submeter a um doutor as minhas esquisitices da velhice? Vou coisa alguma…!

– Mas, meu velho…

– Não adianta insistir, mulher! Ele que dispense o seu tempo e conhecimento com os problemas mais graves de gente mais nova.

Ela, então, recorreu ao doutor Arquimedes, seu neto, médico de interior, com formação generalizante – afinal, cabia-lhe, como profissional respeitado e aos olhos da sua multifacetada clientela, aliviar dores e curar males, dos mais diversos matizes e dos mais esquisitos – no modo de dizer daquela gente – sintomas (Doutô, eu sinto que tô de espinhela caída. – Dizia um. Doutô, eu tô sofreno muito com um dor nas cruz. – Reclamava outro. Doutô, acho que quem me pegô foi o mardito dum diflucho. – Comentava uma. Doutôzim de meu Deus, será qu’eu tô prenha?! – Maldizia-se outra).

– Venha ver o seu avô, meu neto! Antes que ele se vá… – Ela exagerou um pouco, talvez pondo em uso uma infalível linha argumentativa, qual seja a da apelação.

– Domingo, vó, eu vou almoçar com vocês. Está bem assim?

E ele veio. Como pretexto para a visita, ele, um inveterado celibatário, fez-se acompanhar da noiva, uma jovem enfermeira da região onde clinicava, com o propósito de apresentá-la aos que lhe deram a necessária sustentação – financeira, inclusive –, capacitando-o a voos bem altos. Encontrou na casa dos avós, os pais, a quem visitava com certa regularidade, e a irmã, também médica, em dia de folga após uma dura noite de plantão hospitalar, acompanhada do marido, servidor público federal na área da saúde; eles formavam um belo casal, ainda sem filhos.

Depois de uma longa e rica conversa, cheia de agradáveis recordações – bons tempos guardados em específicas gavetas da memória –, seguiu-se o almoço caseiro e, como nos velhos tempos, a alegria do compartilhar o alimento em família.

Quando todos se recolheram à sesta pós-almoço, em redes armadas na área alpendrada da casa, Arquimedes convidou o avô para uma breve caminhada pelo bem cuidado jardim de dona Leidinha. E, então, eles, avô e neto, tranquilamente confabularam.

– E aí, vô, como vai a saúde?

– Como sempre, filho.

– Nenhuma novidade?

– Não. Tudo na mais perfeita ordem…

– Medicação em dia…

– Sim. Sua vó, sempre muito zelosa, cuida disso muito bem… às vezes, até exagera um pouco.

– Por falar na vó, vô, ela anda meio preocupada com o senhor…

– Não lhe disse que ela, às vezes, exagera…

– Segundo ela, vô, o senhor anda tristonho, calado… O que está acontecendo? Confie em mim, por favor!

– É o seguinte, Arque (era assim que ele costumava chamar o neto). Eu vou me abrir com você. Você vai ter de arranjar um remédio bem especial, que resolva o meu problema. E sem bater com a língua nos dentes para quem quer que seja, ouviu bem?!

– Ouvi sim, vô. Agora me diga qual é o problema que tanto o incomoda, vô?!

– Veja bem. Os meus amigos, uma cambada de velhos que, assim como eu, não têm mais o que fazer, a não ser amolar a língua nos dentes, quase todos postiços, todos os dias se sentam nos bancos da praça, ali, defronte à matriz. Por um bom tempo, a gente conversa sobre tudo, discute tudo. Aí chega um momento em que eles começam a se vangloriar dos seus desempenhos sexuais. Canalhice! Acho até que inventam. Um diz: Ontem eu consegui duas… O outro sem-vergonha rebate: Só isso? Eu consegui mais: três, assim, seguidas… Filho, a coisa se torna insuportável porque tenho de ficar calado. Só eu não consigo nada…! Você acha que isso está certo?! Me diga, por favor!

– Vô, preste bem atenção! Na sua idade, mentir já não é mais pecado.

– É isso mesmo, né, filho?!

– E ainda mais, vô. Se alguém estranhar sua rápida mudança, de tímido para falastrão, basta usar aquela sua clássica frase que equivale a “Quem muito diz, pouco ou nada faz”.

– Ou seja, “Boi sonso é que arromba cerca”, né?!

– Isso mesmo, vô.

E a cura não se fez tardia. Logo veio.

 

“A tragédia da velhice não consiste no fato de ser velho, mas no de haver sido moço.” (Oscar Wilde, em O retrato de Dorian Gray).

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.