COMO MANTER O OTIMISMO ENTRE TANTOS OTIMISTAS PRATICANTES ***

[Lições de pessimismo para conviver com otimistas inveterados e sobreviver aos seus encantos]

Não é por culpa minha, mas com a idade que alcancei, em um país como o Brasil, como manter aos 88 anos — o otimismo?

De um modo geral, os céticos e/ou pessimistas são mal vistos pelos otimistas. Entretanto, é possível aceitar o olhar cúmplice e indulgente dos que acham que o cético é uma versão do otimista — sob forte influência da razão…

Essa relação ambígua e regada de intolerância, na política, só serve para os interesses da oposição. Aos que se entregam a fustigar os governantes na expectativa de vir a tornar-se um deles. A gente do governo, ao contrário, explode de otimismo e de afoitas esperanças— afinal, não estão gerindo a sua fazenda, tampouco dissipando os seus ganhos e haveres duramente acumulados. Gastam as nossas economias, recolhidas patrioticamente pelo fisco, animados pelo princípio generoso de compartilhar o patrimônio alheio com as necessidades da sua grei. Muitos são os interesses a defender nesse empreendimento republicano rentável.

Os políticos são, consideradas as especificidades dos seus encargos, legítimos empreendedores a serviço do Estado, empresários “públicos”, alma e cabeça desse conglomerado que associa as facilidades oferecidas pelo poder público e a esperteza de setores comissionados da atividade privada.

Com a idade preclara dos meus 88 anos, tendo reunido, por confesssda incompetência, um patrimônio medíocre — salvo os livros amealhados, posto em risco pelo ônus das demandas da sobrevivência e de algumas disfunções genéticas onerosas —, enxergo os meus cacoetes de macróbio aposentado como indícios de um anarquismo tardio.

Carecido dos afagos da fé e das leituras piedosas, esquecidas em
idade juvenil, encontro-me em uma encruzilhada confusa. Ou bem, converto-me ao otimismo, como o fazem as criaturas de juízo, ou amplio os meus créditos de velho ranzinza, pessimista assumido.

Amigos mais experientes — tenho-os a dobrar o novent’anos, creiam-me — advertem-me que teria eu melhores alternativas, e mais adequadas para uma inserção ideológica nos beirais da esquerda ou da direita.
Assustei-me:

“ — Será uma pegadinha ? Tomar-me-ão por revolucionário ou agente suspeito pelos atos insurretos de 8 de janeiro contra a democracia e a memorabilia do Estado de Direito?

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Não posso esconder as minhas preferências pela doce catequese de Zélia (morram de inveja, Jorge Amado aceitava que Zuleide e eu a tratássemos com essa intimidade) em seu livro de memórias de ativista inteligente e bem comportada — “Anarquistas, graças a Deus”.

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“ — Antes, ser anarquista, na acepção de origem, sob a égide de Malatesta e Fanelli”, pensei com os meus botões.

Tendia eu para os “ilegalistas”, no desvio do “anarquismo individualista”…Melhor do que comunista ou progressista, como passariam a chamar-se as crianças de Lenin. Confesso que, até hoje, hesito em distinguir essas marcas de “terroir”, a exemplo das exigências dos vinhos da Toscana.

De anarquista envergonhado a pessimista, estágio alcançado nestes anos de COVID republicano, optei pelo substantivo, transformado em adjetivo, injurioso e suspeito, apontado pelos novis patriotas:

“ — É ele, não passa de um derrotista, neoliberal safado, um pessimista genocida!”

Mas aos 88 anos, já somos outra pessoa. E vamos, aos poucos, inexoravelmente, nos transformando em velhos. A cultura brasileira no que ela tem de mais mesquinho e discriminatório impõe e designa o papel dos velhos na sociedade: começa por tirar-lhes, por conveniência, a lucidez. Torna-os púberes no tratamento aparentemente carinhoso e cerca-os de muitos cuidados. Afinal, com os idosos, há sempre o risco de ouvir lembranças e ponderações desconcertantes… Memória traiçoeira, carregada de lembranças em boa hora esquecidas…

“O ‘seu’ Paulo está ainda com a letrinha boa…”, comenta a funcionária do Banco ao receber por escrito a minha confissão de estar vivo para continuar a receber a aposentadoria.

“Ainda dirigindo?”, ri com ar de censura o filho de uma amiga sexagenária ao me ver aboletado no meu carro agarrado ao volante.

E o meu nefrologista carioca para dar um empurrãozinho na conversa, no começo de uma consulta de revisão:

“Como encara, na sua idade, os desafios da finitude?”

Ou o clínico-oncologista abrindo com certo enfado os envelopes de imagens, radiografias, tomografias e laudos afins, com aquela naturalidade de caçador de linfomas:

“— Para a sua idade, está bem…”

Pois bem. Assumo o meu pessimismo ancestral (não sou, aliás, o único caso na família!). Se a lei permitir e não houver daqui para lá uma emenda constitucional monocrática de emergência, pretendo que me tratem como um cadeirante pessimista. É meu direito.

Quos Jupiter vult perdere, dementat prius.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.