COM OS OLHOS DA LEMBRANÇA, por Luciano Moreira (Xykolu)

Em O cheiro de Deus, o escritor mineiro Roberto Drummond, mestre do realismo sobrenatural, logo num dos primeiros capítulos de uma narrativa arrebatadora – que envolve fé, esperança, alegria e rebeldia, além do coração do mundo, da água matando a sede, da canção do mundo, da febre do incesto e do cheiro do suor dos amantes –, revela que a Vó Inácia Micaela, sobrinha e mulher do Vô Old Parr e matriarca de uma dinastia fascinante, o clã Drummond, a cujos homens coube dar constância e substância a pelo menos duas modas inauguradas pelo patriarca: o incesto e o nome de uísques – Red Lable, Dimple, White Horse, Johnnie Walker e Buchanan’s –, tão logo se percebeu cega, aos 65 anos, descobriu que “podia enxergar com os olhos da lembrança”.

Tristemente desprovido de inspiração, já quase me entregando à nulidade do absentismo contingente, certamente ainda afetado pelo caudaloso rio de torrenciais emoções que, no curso da noite da última quarta, invadiram a sempre calma e tranquila foz do meu multifacetado mar de vivências, envolto no manto sagrado à Stendhal*, o olhar enevoado por cinzentas brumas que emanam das cataratas ainda não removidas – embora cego ainda não esteja, aos 67 anos bem vividos em frequência carpe diem –, apurei o olfato com a esperança de desvendar, em meio a isso tudo, algo que eu pudesse identificar na minha comum existência terreal como sendo o cheiro de Deus, a essência deífica, em suma, o que me pudesse assegurar ter sido eu por Ele criado às Suas inigualáveis imagem e semelhança. Confesso manter, ainda, o entendimento de que comigo aconteceu exatamente o inverso – eu é que O criei às minhas sofríveis e pecaminosas imagem e semelhança. Que imperdoável despropósito! Que incorrigível insanidade!

Salvou-me a lembrança. E, com olhos de reminiscências, enxerguei o que já não mais via, mas que, com certeza, um dia, lá atrás, vi e não cuidei de enxergar. Revisitei, então, de uma forma quase onírica, um anjo de asas tortas voejando e adejando, em tempos de outrora, sobre alguns dos campinhos de futebol de meu torrão natal, lá onde me permiti à entrega incondicional ao mais amado dos objetos que compõem o amplo instrumental lúdico – a Sua Excelência a Bola.

E agora me encontro, ainda em idade pueril, no campo improvisado sob a sombra de frondosas mangueiras, lá no sítio dos pais do Alcântara, cujo acesso se dava pela via estreita e declivosa (ladeirenta) que, após curvar-se à edificação do Hospital e Maternidade José Pinto do Carmo, descia para cruzar o rio Aracoiaba, nascido nas entranhas da mais verdejante das serras. E o Alcântara, então colega do Grupo Escolar Monsenhor Manuel Cândido, já demonstrava, àquela época, o estilo clássico de dar tratos à bola, porquanto já craque nascera.

Num piscar d’olhos, vejo um moleque franzino e veloz jogando, às escondidas e sob enorme risco, por contrariar, em uma das muitas irresponsabilidades da pré-adolescência, as rigorosas cláusulas pétreas do regramento fixado pelo pai, para quem futebol era a arte de Satanás e o ópio da vagabundagem, em campo modesto no sítio dos jesuítas, opção de lazer de algumas manhãs dominicais, em pleno usufruto de agradável e ameno clima de montanha, como se no útero materno estivesse [e isso me faz lembrar, de entremeio, que costumava ouvir, já quarentão, um colega de labor referindo-se ao agradável ambiente de trabalho, num dos andares do edifício-sede da Delegacia Regional do Banco Central em Fortaleza]. A sombra do mangueiral, a fartura de frutas à disposição – a jaca de gomos amarelados, viscosos e doces causava em nós uma expressão de prazer – e o banho em águas frias e cristalinas, trazidas por canos de bambu desde a fonte natural até um grande tanque de alvenaria construído à margem do campo, transportavam-nos ao bíblico jardim do Éden. Ali, éramos filhos de um Deus bondoso, generoso.

Alço voo do sítio dos filhos de Santo Inácio e logo aterrisso no dos de Dom Bosco, ou melhor, no campo do Oratório Salesiano, equipamento de cunho social que, sob a direção do simples e bom padre Manuel, professor de Geografia, metido a astrônomo, e capelão da igreja de Cristo Redentor, recebia nas festivas manhãs de domingo a garotada da periferia que não sonhava sequer com a possibilidade de usufruir da reconhecida educação dos padres e irmãos salesianos. Ali, vivenciei momentos muito especiais. Um deles, de muita frustração. O padre incumbiu-me de formar dois times de garotos que teriam o prazer de inaugurar dois ternos de camisa esportiva a ele doados pelo pai de um dos bem-apessoados alunos do internato. Não se mostrou difícil o cumprimento da missão. E lá estavam perfilados, em área coberta do prédio com estrutura de escola, ao fim do corredor que dava acesso às cinco salas de aula, os dois grupos de ansiosos jogadores que atualmente integrariam a categoria sub-12. O padre Manuel postou-se à nossa frente, atarracado em sua batina de gala, óculos de grossas lentes, um pacote em cada uma das mãos. Disse-nos que viveríamos um momento de extrema felicidade. Instou-nos a agradecer a generosidade de São Domingos Sávio, o jovem santo protetor daquela escola de oração. Levou-nos a rezar e louvar a Deus em preces já bem conhecidas. E, com ar professoral, deu nome às equipes. A do lado direito seria a Canarinhos, a cujo capitão – se não me engano, o Tobias –, que encabeçava a fila, entregou um dos pacotes. A do lado esquerdo, por mim capitaneada, seria a Lacerdinhas; e o outro pacote me foi solenemente entregue. “Garotos, vistam-se e joguem a partida mais importante das suas vidas”, estimulou-nos, enfim. Rasgados os pacotes, iniciou-se a distribuição das camisas – umas de cor amarela com finas listras verticais pretas; outras de cor preta com finas listras verticais amarelas. E aí veio a frustração. Nenhuma das camisas coube em nós… a gola não deixava passar as nossas cabeças, nem os braços conseguiam enfiar-se mangas adentro. Fez-se uma pequena balbúrdia, logo controlada por quem detinha pulso forte, o bom e velho sacerdote que, ato contínuo, profundamente triste, recolheu todo o material e se enfiou na sala da direção. Tenho certeza de que o vi chorando. Naquele domingo não houve jogo de futebol. E as atividades se encerraram mais cedo.

O pouso agora se dá na área contígua à calçada lateral da estação ferroviária, bem ali onde se erigiu o monumento comemorativo dos cem anos da Estrada de Ferro de Baturité, ou seja, uma locomotiva a vapor, popularmente conhecida como Maria Fumaça, colocada sob pedestal de alvenaria, revestido com lajotas de pedra. O campinho da estação, onde disputei partidas memoráveis, era uma faixa de terreno plano, com piso de grama rasteira – o resistente capim de burro –, espremida entre a via de acesso à gare, de calçamento em pedra tosca, e os trilhos da via férrea. Com traves de paralelepípedos, tínhamos, com a bola em jogo, de driblar também três frondosos pés de fícus-benjamin, à época muito usados na arborização das vias públicas… até que surgiram os lacerdinhas ou azucrinóis, causadores de incômodas ardências nos olhos dos transeuntes.

Sigo em frente. Agora me vejo no piso desnudo e amarronzado, com algumas deformações, do gigantinho do Beira-Riacho, entre a via férrea em nível elevado e a estradinha carroçável em direção ao Coió, com uma das traves fixadas a poucos metros do leito do riacho Mucunã, que deságua logo ali, no rio Aracoiaba, em meio ao bananeiral do sítio do Boque. Driblo. Passo. Chuto. Desloco-me. Recebo. Faço gol. Perco gol. Sou driblado. Travo. Sou travado. Venço. Perco. Suo. Canso-me. Aprendo. Formo-me. Vivo. Concluída mais uma prazerosa jornada vespertina, com o sol já recolhido aos seus nobres aposentos, as sombras da noite se avizinhando, o banho de rio no sítio do seu Vicente Pinto lavava até a alma.

Cruzo toda a extensão da várzea do seu Juarez e, em aterrissagem tranquila, chego ao Gilete, campinho de futebol recentemente “fundado” pela molecada da Feira do Gado, atual Duque de Caxias, e do Putiú. Compondo o projeto de construção, pelo Governo do Estado, fruto de mais uma intervenção do Comendador Ananias Arruda, da primeira escola de artes do Maciço, que recebeu o nome de sua saudosa esposa – Donaninha Arruda –, a recuperação de toda a área entre o novel estabelecimento de formação artesanal e uma das margens do riacho Mucunã, já degradada porque se tornara um lixão a céu aberto, verificou-se sob a pronta atuação da municipalidade. Surgiu, então, um amplo espaço em ótimas condições para a prática de esportes, o futebol sempre bem mais cotado. Alguns providenciaram a colocação das traves de madeira. Outros cuidaram da marcação a cal. O batismo do Gilete se oficializou tão logo ocorreram repetidos casos de pequenos cortes nas plantas dos pés dos atletas, provocados por cacos de vidro, resquícios do antigo lixão.

Bem que eu poderia ter revisitado outros espaços em que a bola se fazia soberana – as bancadas de areia à margem do rio Putiú, os patamares de igreja, a área central de um dos planos da pracinha do bairro e até ruas de calçamento de pouco movimento.

Se isso não fiz, credito ao fato de a lembrança ter alçado voo longo, no tempo e no espaço. E eu reconstituiu na memória a mais significativa das vivências como amante do esporte das multidões. Antes, cumpre-me explicar. Sou flamenguista desde os idos tempos dos espetáculos botafoguenses, com shows, às vezes irreverentes, do Mané Garrincha – o anjo das pernas tortas – e sua eclética turma, e dos santistas, com desempenhos, que beiravam a perfeição, de uma afinadíssima orquestra de artífices da bola – Coutinho e Pepe, por exemplo –, sob a batuta de um gênio tricordiano, mais conhecido como Pelé, que viria a ser universalmente consagrado como o melhor do século. Eu remei contra a maré e ancorei o meu teimoso barco na praia do Flamengo. Desde lá, já sorri, já chorei. Já venci, já perdi. E a paixão clubística mais se fortalece no curso inexorável do tempo. Pois bem. A lembrança me transportou para uma tarde de domingo – 29 de maio de 1983 –, em pleno anel inferior do templo do futebol brasileiro, o “trintão” Maracanã, na faixa intermediária: acima, o anel superior, reservado aos torcedores santistas; abaixo, a fervilhante e inebriante geral. E eu era um dos 155.253 pagantes, na memorável final do Campeonato Brasileiro daquele ano, envolvendo o Santos de Pita, Paulo Isidoro, Serginho, João Paulo, e o Flamengo de Zico, Adílio, Leandro, Júnior, Raul, o qual já adentrava a fase da decadência, pois não mais contava com Mozer, Tita e Nunes, e o Galinho de Quintino ali se despedia, já com contrato assinado com o Udinese. O placar de 3×0 consagrou o time que se fez merecedor do tricampeonato. O Mengo, o rubro-negro, a paixão de uma massa. Ao meu lado, o psicólogo e professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará, o tranquilo César Wagner, ambos envolvido no Programa de Desenvolvimento Gerencial – PDG, que visava oxigenar os relacionamentos interpessoais nos ambientes da instituição. Naquela ocasião, fizemos o retorno no voo doméstico da madrugada das segundas feiras, do Rio até Fortaleza, sem escalas e sem conexões. Tão logo a aeronave alcançou a altitude de voo, todas as luzes foram apagadas. E o sono facilmente nos venceu. Mas veio um inesperado incômodo: o forte odor de álcool – cachaceiros a bordo.

Agora, é a Legítima, produto cearense à base de mandioca, quem me impôs o sono. E, assim, cerrei os olhos da lembrança.

(*) Stendhal é autor de O vermelho e o negro.

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Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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