COLCHA DE RETALHOS DO COTIDIANO DE UM CIDADÃO BRASILEIRO – Retalho nº 8, por FRANCISCO LUCIANO GONÇALVES MOREIRA (Xykolu)

Nesse último final de semana, quando nós, os cearenses, tivemo-lo prolongado por conta do santo dia dedicado ao carpinteiro bíblico José, o esposo de Maria e pai de Jesus – lembrando, por oportuno, que pai, no âmbito terreal, é o que cria, ou seja, prepara o filho para a vida –, debrucei-me sobre uma atividade deveras insuportável (que me esgota a paciência), a qual, por sorte, tem a anualidade como frequência.

Esclareço, indulgente leitor(a). Depois de deleitar-me com a leitura de poemas de autoria dos meus netos, em cumprimento de uma atividade escolar, cujo tema proposto se referia ao modo como eles viam a figura do avô – simplesmente eu – em suas vidas ainda em formação, nos quais traçam o perfil de um bem qualificado “vovô”, senti-me com a disposição que sempre me exige o confronto com o “leão”, o amedrontador símbolo da insaciável fome da fonte arrecadatória do governo, que, certamente, age mais invasivamente sobre a classe assalariada brasileira. As afiadas garras dessa “fera”, aparentemente inofensiva, remetem à sua voracidade… sinto até a vontade, heroica ou suicida, de agarrá-lo pela juba, encará-lo corajosamente – olho no olho – e fazê-lo entender que, tão injustamente, ele abocanha boa parte daquilo que eu poderia oferecer às pessoas que amo – o que, convenhamos, se tornaria um encaminhamento bem mais apropriado, bem mais justo – e que, por me ser tão desprezível, ele encabeça a minha lista negra, na qual inscrevo, em pedra de mármore com estilete de diamante, os nomes de meus desafetos, ou seja, de quem comete algum tipo de injustiça comigo ou com os que amo.

Pois bem. Com toda a papelada à mão, comprobatória – sob a ótica das regras rígidas que regem o processo – dos meus atos cidadãos que despertam o interesse do Fisco [bem longe (muito longe!) dos procedimentos marginais dos que se amancebam, se amasiam com o pátrio poder, para os quais o “leão” não olha, nem de esguelha, nem de soslaio, nem de través, nem de forma oblíqua], recorro aos meus conhecimentos medianos da ciência contábil e, então, percorro os caminhos virtuais do programa generosamente disponibilizado pela Secretaria da Receita Federal. Assim, aos poucos, vou alimentando a “fera” com dados que revelam o meu desempenho econômico-financeiro no curso do ano fiscal que passou – e os meus subsídios se transmutam em rendimentos, substantivo edulcorado por uma expressão que deve causar em nós um certo encantamento, qual seja “do trabalho assalariado”. Quantos não os têm?! Felizes somos nós que os temos! E esses rendimentos, no meu específico caso, mostram-se tão robustos, tão gordos, que o indolente e insensível “leão”, já obeso e senil, mas ainda faminto e esperto, se sente no direito de avançar pela carne, tratando-a como se gordura fosse.

A quem recorrer?! Nem ao papa, o meu bom e santo Francisco. [Afinal, o ensinamento bíblico sentencia que a nós – que ganhamos o pão de cada dia com o suor do rosto – cumpre dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus].

No canto da tela do meu notebook – será que ainda o chamam assim?! – um “apurador de resultados” (lá intitulado de “Opção pela Tributação”) vai me ameaçando: “Contribuinte, você ainda me deve tantos reais”, mas de uma forma disfarçada: “Imposto a Pagar”. Sigo a enervante caminhada de fornecimento de números, de preenchimento de campos, de exposição das minhas entranhas, numa disputa desigual, num zelo e capricho que eliminem qualquer possibilidade de me esborrachar, vergonhosamente, na “malha fina”, lugar onde certamente nenhum grande investidor ou grande empresário ou político de qualquer envergadura já experimentou o desprazer de comparecer.

Quantas obrigações fundamentais, das quais não me posso furtar, o “leão” se regozija por desqualificá-las! Quantas outras, de igual jaez, este mesmo “leão” despudoradamente se considera “manso e bonzinho” por acolhê-las como “dedutíveis”, embora limitando-as a valores que nem sequer se aproximam da realidade! É a selva, cidadão! É a selva, contribuinte! Resta-me, apenas, o “jus esperniandi” (o direito de espernear), nada mais que isso!

Ao término, antes de clicar o botão que comanda a entrega da declaração, faço uma varredura com o “Verificar pendências”. Tudo verde! Dou-me por satisfeito (fazer o quê?). Nada mais devo. Ufa! Ele, o esfaimado “leão”, é que exagerou na mordida. Mesmo assim, ainda me levou, em suaves prestações mensais, o valor equivalente a um carro de porte médio e de bom conforto. E eu vou ter de permanecer com o meu Ecosport… então, vou até ele e renovo o nosso contrato por mais uma temporada, dando-lhe um beijo no capô – atitude própria de quem não esconde ser romântico, embora, às vezes, solte fogo pelas narinas.

Quanto ao “leão”, recorro a um ensinamento aprendido com os mais velhos, nos tempos em que eu era um dos mais moços: “Se não puder vencê-lo, alie-se a ele!”.

No próximo ano, teremos um novo encontro.

Quiçá!

* Texto postado na minha página no Facebook em 23.3.2018 e publicado no meu livro EU E O SEGUNDA OPINIÃO II [recentemente saído do seu bem peculiar processo artesanal, com edição bem restrita (por motivos óbvios), sem editor, sem data] na seção E no Facebook…, às páginas 344-326. Atualíssimo.

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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