A classe média pega a arma e faz pontaria, mas atira no próprio pé, por Capablanca

Já lá se vão quatro séculos que René Descartes estabeleceu um novo marco lógico para a sociedade compreender os fatos e eventos que a cercam e estabelecer regras e leis para saber o que esperar dos tempos futuros. A partir de então, têm-se o pensamento científico. Os eventos têm causas, não há consequência sem causas, se há causas, há consequências.

O rigor do pensamento foi uma marca forte do pensador francês. Diz-se que ele calculava viver por duzentos anos para desenvolver a “ciência total”, aquela que tudo explicaria, em forma de lei, com apoio matemático. Ele fez questão de partir de um começo inquestionável, uma base sólida, e saiu recuando nas ideias até pensar que poderia estar enganado em tudo, até mesmo que ele não existisse, fosse em si mesmo uma ilusão. Foi quando encontrou seu ponto de partida: “Penso, logo existo”.

Pois é. Para entender causas e consequências, é preciso ser capaz de pensar com algum método, respeitando a lógica. Esta ideia me ocorre ao perceber o momento político que experimentamos, nós, os brazucas.

A classe média não é elite, mas pensa que é. E age como se fosse. Compra todas as brigas da elite e faz uma defesa apaixonada dos interesses dos super-ricos. A elite usa intelectuais, jornalistas e economistas para espalhar uma intolerância infinita com a turma do andar de baixo. Como já se disse, a elite terceiriza seu ódio. A elite opera nos bastidores, não se expõe diretamente, não faz discurso, não se defende, não vai à tribuna argumentar por seus interesses, a classe média faz tudo isso pela elite. E o faz com paixão.

A classe média não se aceita como trabalhadora, que é. Não se vê como dependente da previdência pública, e será. Ouve a história de um Bill Gates e de um Zuckerberger entre bilhões e acredita que o mundo é um mar aberto de oportunidades para todos. A classe média recusa a aprofundar-se na informação, rejeita qualquer tipo de reflexão, parece que pensar dói. Por que perder tempo analisando, se pode receber as ideias prontinhas, que descem redondo.

A classe média não percebe que recebe da elite uma arma, aponta na direção orientada, mas atira no próprio pé. Melhor parar este texto por aqui. Como cantavam Chico & Caetano, “você não tá entendendo nada do que eu digo, eu quero ir embora, eu quero dar o fora, e quero que você venha comigo”

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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