CIRO X LULA

O pleito de 2022 será de grande importância por abrir o caminho que o Brasil já iniciou a trilhar no banquete da globalização no momento em que uma nova ordem mundial se delineava. O Brasil entrou neste século consolidando um sistema político e econômico no padrão Ocidental, moderno, no mesmo patamar das Nações que lideraram o mundo no século XX. Chegou a ser a sexta economia mundial. Assim, a democracia se consolidava num perfil liberal como um país emergente na economia e na política. O Brasil, ao fazer parte do chamado BRICS, passou a ser concorrente com os chamados países Centrais: Europa e Estados Unidos, no padrão de relação Norte-Norte, e passou a defender uma política internacional priorizando a relação Sul-sul: África e América do Sul.

Estes dois anos em que Bolsonaro governou como presidente corresponderam também a uma transição importante nessa nova configuração de uma nova guerra fria, com novos atores. Assim, após o mundo ser criado a partir dos ganhadores da guerra organizada a partir da ONU, uma nova configuração tornou-se necessária com o surgimento de emergentes na economia e na política. É aí que o Brasil passou a ser um ator relevante nas relações internacionais. E é aí que se faz dessa eleição uma festa não apenas da democracia, mas do caminho em que novas parcerias se acomodarão também no cenário internacional.

A eleição de 2022, portanto, terá um interesse maior, globalizado, do que o interesse para o cidadão brasileiro. O surgimento de uma nova direita mostra que a correlação de forças da sociedade será acompanhada como um espetáculo global. A direita política, que era envergonhada nessas últimas três décadas em que a democracia brasileira se consolidava pós ditadura, volta novamente pelo mimetismo e com olhar para o futuro. A democracia ganha maior complexidade.

Bolsonaro e Lula, principais candidatos, são apresentados pela imprensa como pólos opostos, entre a direita e a esquerda mais radicais. Traduzindo melhor, o setor empresarial que falhou com Bolsonaro busca avidamente uma chamada “terceira via”, um candidato reconhecidamente liberal. Com tantos nomes se apresentando, a escolha terá que ser mesmo antecipada, para não cometer o erro novamente. Foi com Collor, que seria Mário Covas, e agora com Bolsonaro. Poucos candidatos passarão por essa seleção.

O difícil mesmo será anular a candidatura de Lula, pois a de Bolsonaro parece descartável. Pelo menos é o que se observa com a estratégia de Ciro Gomes, o candidato que se apresenta competitivo nesse vestibular. O governador de São Paulo e o ex-ministro da Saúde de Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta, que se destacou com preocupação com a vida, têm no currículo o fato de terem apoiado Bolsonaro. O Governador do Rio Grande do Sul, por ser desconhecido do Brasil, não tem se apresentado competitivo ainda.

Qual a estratégia de Ciro lembrada acima que se apresenta com de grande risco? É que a equipe de Ciro, percebendo a fragilidade da candidatura de Bolsonaro, pelas pesquisas, já antecipou aquela que deveria ser guardada com segurança para o Segundo Turno, com a polarização Ciro x Lula. Antecipando, com Lula disparado na frente põe em risco inclusive candidatos majoritários do PDT, partido de Ciro. O candidato fez uma aposta de risco, em que pode ganhar muito, ou também o contrário. Dará tempo para reverter?

Política não é só racionalidade, ciência, mas uma boa dosagem de emoção. O football seria uma bela analogia. Estratégias são importantes, mas a emoção, que leva a torcida ao delírio, conta bastante e pode surpreender a lógica.
Vamos em frente! Muitas águas vão rolar debaixo da ponte para que o quadro possa ser melhor avaliado. Mas a candidatura de Datena, que iniciou batendo em Lula, pode ser um sinal importante de avaliação dessa estratégia no momento. Esperemos as próximas pesquisas. E como a campanha se processa. O detalhe importante que não se deve esquecer: será a eleição de grande significado para o mundo que está se construíndo neste século. Não é a guerra fria do pós-guerra!

 

Foto: uol

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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