Cinzas, por Luana Monteiro

 

Certa noite, muita aflita, acordei e comecei a examinar meu próprio corpo. Havia sonhado com testes.

Eles disseram, de forma breve e sem muita preocupação, que a explosão seria controlada, apesar de não conhecerem ainda os efeitos radioativos provenientes da situação.

– Não haverá barulho estrondoso e por isso não é preciso tumulto. Tudo deve ser controlado. Disse o primeiro.

– Nós apenas não sabemos como alguns de vocês podem reagir posteriormente. Reiterou o outro.

A calma dos emissários responsáveis pelo anúncio de evacuação se espalhou para os demais. Parecia de fato não existir ali motivo real para exasperação. A cidade tinha sido escolhida como local de teste e assim deveria ser.

Algumas casas foram esvaziadas. Eram as mais próximas do local destinado à explosão. Existia uma calma absurda em tudo. Eu sentia um frio intenso no corpo. Mesmo assim prosseguia como havia sido programado. Eles passaram algumas instruções que foram facilmente negligenciadas pelos presentes na pequena sala de reuniões:

– Preocupem-se somente em proteger olhos e ouvidos. Evitem caminhar pelo local da explosão.

Lembro-me de me dirigir até uma loja de equipamentos de trabalho na esperança de encontrar alguma forma para evitar maiores danos daquela situação. Não consegui encontrar nada. Mais tarde na casa de alguém, que eu desconhecia, junto a outras famílias, tive que me contentar com roupas finas, colchões no chão e alguns lençóis para abafar os ruídos.

Nos recolhemos e no horário indicado já havíamos fechado tudo. Alguns minutos depois pudemos ouvir um barulho de explosão. Não era alto. Não fez tremer o chão. Ninguém ficou surdo. Paredes não racharam. Havia calma. Alguns disseram, – era só isso? Eu sentia que não.

Algum tempo depois – não saberia calcular quanto – as pessoas começaram a abrir as portas e a sair. Contra minha própria vontade eu fiz o mesmo. Chovia cinzas nas nossas cabeças, nos nossos corpos. Crianças olhavam encantadas para cima procurando reconhecer de onde saíra aquela chuva diferente. – Olha! Parece neve. De onde vinha aquela chuva diferente? Do que ela seria capaz? Acordei procurando as cinzas.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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