CINCO MINUTOS DE MARTÍRIO – By Gilmar de Oliveira

Vinte e nove de junho, duas horas e quarenta e cinco minutos da madrugada. A chuva caía suavemente sobre o telhado da casa onde nasci, no sítio Latadas. A voz esgoelada do carão, no córrego bem perto, contrastava com o roncar do trovão, láaa looonge. O relâmpago fazia-me lembrar a simultaneidade do sorriso e piscar de olhos do João Ferreira, homem bom, que morava no Camurim. Fazia muito frio. Encolhido no fundo da rede, enrolado num lençol fino, eu tentava dormir.

Quando consegui, despertei sobressaltado com uma voz estranha vindo do além: “RÁPIDO, RÁPIDO, RÁPIDO … VOCÊ SÓ TEM CINCO MINUTOS PRA DESPEDIR-SE”!

Fiquei todo arrepiado! Era uma mensagem de morte!

Arregalei os olhos e vi um relógio redondo, bem grande, na parede, mostrador branco e  algarismos arábicos pretos, bem destacados. A velocidade com que o ponteiro dos minutos se deslocava, intensificava meu medo. Meu corpo todo tremia como vara verde e meus olhos ficaram embaçados … mal dava pra ver – 2h45min. Às 2h50min eu estaria morto.

Corri pra sala de jantar e me sentei no pilão de madeira com as mãos na cabeça. Comecei a relembrar, rapidamente, com detalhes, tudo da minha vida:
Como era o café da manhã em família … Meu primeiro dia de escola … O banho de rio com meu pai e meus irmãos … As debulhas de feijão … As histórias de trancoso … Meu primeiro presente … Meu primeiro salário … Meu carneiro Rafle … Nascimento dos meus filhos … Meus amigos … Meus erros … Meus Acertos …  …  …
Minha mente estava a mil por hora. Restavam poucos segundos e tinha que pensar ainda mais rápido para imaginar:
Quais as seis pessoas que fariam questão de pegar na alça da minha urna funerária … Quem cuidaria dos meus pertences … Quem administraria o velório … Quem ficaria no semitério mais alguns minutos comigo depois que todos saíssem. Que frase eu escolheria para minha LÁPIDE …  …  …

Esta foi a tarefa mais difícil. Faltavam quatro segundos e eu não encontrava uma frase que representasse, fi-el-men-te, minha missão aqui na terra.

Já estava cansado, suando frio e com respiração ofegante … vendo a hora chegar, quando ouvi uma voz:

“Amor, está sentindo alguma coisa?” Era minha esposa que estava do meu lado.

Acordado, distensionei, chorando.

“Foi um pesadelo”, respondi. Cinco minutos de martírio!

Abraçamo-nos e continuamos a maratona noturna!

Gilmar de Oliveira

Gilmar de Oliveira

Gilmar Oliveira é professor da Universidade Estadual do Ceará - UECE.

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