Carta para Paulo Henrique Amorim – por FÁTIMA TELES

Não dá mais pra suportar, EXPLODE CORAÇÃO.

É preciso sentir. O sentir é que dá sentido a tudo, à vida. É também o sentir que faz deixar de ter sentido a vida.

Caminhamos por quatorze anos cantando o Brasil que sonhávamos e quase pudemos vê-lo. A minha geração que quase não foi às ruas, e quase nada fez, foi contemporânea de um país que quase enxergou o futuro. Fomos um tanto privilegiada, já que pouco fizemos.

No entanto, Paulo, temos consciência que devemos a homens como tu, que nos acordava para o conhecimento através do ” conversa afiada”, um jornalismo crítico, ético, rico de fundamentos e conhecimento. Gigantes como tu farão muita falta e nos deixarão órfãos também.

Não te importes! Siga a utopia, e quando te aproximares, e ela fugir, continue tua senda voltando os teus olhos para o horizonte onde estás agora, e voe. Lembras do segredo de Galeano? Se te encontrares com ele para um café espiritual, manda um grande abraço dos irmãos latino-americanos.

Não perturbes mais o teu coração. Ele já explodiu. Agora é hora de massageá-lo. É hora de remediá-lo ao som dos clarins e das harpas celestiais. É hora de descansar o teu espírito da luta. É hora de ver o pôr do Sol sentado à beira dos lagos e ver os cisnes bailando. É hora de ver as flores se abrindo e os pássaros cantando. É hora de respirar o céu,tua casa.

Sabes, Paulo, o Brasil já nasceu doente. Padre Antônio Vieira já dizia isso. O Brasil nasceu doente,sem a experiência do diálogo ,sem autonomia, cabisbaixo, com receio da Coroa.

Gigantes como tu acreditaram que o País poderia crescer, amadurecer, tornar-se adulto.

Ah,Paulo! Isso ainda é um sonho e nós sonhamos contigo o sonho impossível.

Tua partida antecede os meus cinquenta anos. MEIO SÉCULO. Contudo, o Brasil retroage de forma tão rápida que está parecendo a Colônia. E o comportamento aqui está estranho. Há algo de provinciano e primevo em nossa sociedade. O país vai desmoronando, as classes menos favorecidas vão sofrendo com os cortes que ora vão sendo feitos, os nossos direitos vão sendo solapados. Há entre nós de novo a fome, a miséria, o desemprego, o despotismo, a guerra midiática, ideológica, a tirania, a crueldade, a ditadura mascarada de democracia.

Pra quem tem pouco conhecimentos ou nada como eu , dói o coração, chegando a ficar bem pequeno, imagine para um homem, um profissional como tu, estudioso profundo da política e das coisas do mundo. Teu coração não aguentou.

O sistema é bruto, é perverso, é predador.Ele mata.

Vai em paz!
Hoje não está tudo bem,mas temos o dever de continuar. É o jeito! E amanhã, amanhã estará tudo bem. É o jeito.

Maria de Fátima Araújo Teles

Maria de Fátima Araújo Teles

Historiadora, Assistente Social,Pedagoga Especialista em Direitos Humanos e Psicopedagogia Institucional Professora Formadora da Área de Ciências Humanas do Ensino Fundamental II da Secretaria Municipal de Educação de Brejo Santo Escritora e Poeta Membro da Academia de Letras do Brasil, Secção Ceará

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