CARTA AO PRESIDENTE LULA

Prezado Senhor,

Vossa Excelência declarou, recentemente, na questão da urgência para a apuração dos crimes da Ditadura Civil-Militar que não quer “remoer” o passado (FSP – 27.02.24). Mas, diz a história, que quem não quer aprender com o passado fica despreparado para o presente, e principalmente, para o futuro.

Sua declaração mostra que continuará sem resposta o desaparecimento de presos políticos no Brasil. Com isso, torna-se conivente com a ocultação de cabeças e dedos cortados e corpos queimados vivos de revolucionários(as). Dá de ombros para o sumiço dos seus cadáveres. Foge da responsabilidade para apurar os que desapareceram com vidas e querem, agora, apagar os rastros dos seus assassinatos. Desconsidera os bárbaros crimes cometidos contra lideranças, em particular, de uma geração generosa e especial da nossa história. Não quer mostrar o sistema de controle exercido na Ditadura Civil-Militar sobre os opositores e que continua vigente no aparelho estatal dos dias atuais.

Foge da apuração de existência de uma rede de delação secreta montada pelo sistema. Essa rede foi utilizada para asfixiar entidades. Para amordaçar a imprensa. Para punir a liberdade. Para cassar mandatos. Para censurar atividades artísticas e culturais e intimidar e prender seus criadores(as). Para infiltrações nas organizações revolucionárias.

Não dá a devida atenção para o refinamento de mecanismos que tentaram e ainda tentam impedir uma consciência crítica. Faz ouvido de mercador para as torturas físicas, sufocação das aspirações da juventude, discriminação racial, feminicídio, eliminação de jovens, principalmente negros(as) nas periferias. Para a imposição de uma legislação assassina sobre o aborto, a privatização de todas as praias deste país, o não atendimento de reivindicações básicas de servidores(as) e professores(as) das universidades brasileiras. Para as ameaças e violências constantes aos povos indígenas, crise de insegurança que amedronta o país, a aberrante marginalização social, e perseguição política. Evidentemente, que isso contribuiu e contribui para uma ordem social autoritária que veio, agora, abertamente à tona com sua simbiose entre militares, milícias, corrupção e as tentativas de golpe escancaradas no país, com obscurantismo pior do que 64.

O não acerto de contas com o passado, Sr. Presidente, reforça a violência como elemento estrutural da sociedade que marca a exclusão de povos originários, indígenas, negros, mulheres, pobres, LGBTQIA+, ciganos, etc. Isso colabora para criar e reforçar a política de terror do Estado de Segurança Nacional, o que possibilita manter a impunidade de ditadores, torturadores e assassinos.

Sr. Presidente, a consequência desta política incrementou o ecocídio que, com sua continuidade, torna o país terra arrasada. Tudo isso criou condições para que reescrevam o passado, continuem fantasiando o presente e fazendo do futuro da humanidade miragens.

Sua postura defende que convivamos com uma tortura social que expressa o nome de facínoras presentes nos órgãos públicos do país. Ao negar a Ditadura Civil-Militar como expressão política do capitalismo, V. Exª, reforça o neoliberalismo com sua democracia que vem devorando seus filhos e vende o patriarcado capitalista como modo de produção natural, sem contradições e como se fosse apropriado à natureza humana.

Há alguns anos entregamos a V. Exª uma Carta que, posteriormente, foi também entregue à Presidente Dilma. Nela alertamos sobre o desdobramento de uma crise que revelava a fronteira histórica do capitalismo. Na Carta destacamos a urgência de uma resposta, que caso não fosse construída, fomentaria um período histórico obscurantista no país.

Voltamos hoje, novamente, a V. Exª com outra Carta. Neste momento a crise não ronda apenas o seu governo, mas o país e o mundo. Ela está aí e dado a não fundamentação para não enfrentá-la estamos nos deparando com uma catástrofe de proporções inauditas.

A não preparação para o enfrentar da crise, consciente ou inconscientemente, contribui para uma nova encenação da transição transada através de uma conciliação que continua aprisionando uma luta consequente de nossa gente. E, com a crise da fronteira histórica do capitalismo – que mostra a ruína do fundamento do sistema – caminha para cometer suicídio multiplicando a barbárie ou administrando-a para arrastar-nos ao abismo junto com ele.

Senhor Presidente, o que V. Exª pode e deve fazer é contribuir para erradicarmos os resquícios da Ditadura Civil-Militar juntamente com a Ditadura do Tempo Abstrato. Ao não se comprometer com isso – e V. Exª não deixa mais dúvidas a esse respeito – deseja ainda sustentar o insustentável que é o beco sem saída do capitalismo da financeirização que seu governo, o G-20 e seu sistema querem preservar administrando sua crise e barbárie – decorrência do limite interno e externo do moderno sistema fetichista patriarcal produtor de mercadorias, o capitalismo.

Senhor Presidente, tornou-se incontornável suplantarmos o capitalismo, pois o cenário pela disputa de hegemonia mundial se desenrola hoje no interior de um imenso Titanic. Aqui, o comando é de regressão humana e não da resposta radical contra o sistema que estimula o novo fascismo que torna factível a guerra nuclear, o uso de armas biológicas, o avanço da catástrofe climática, a transumanização da IA do capital…que colocam em jogo, ao vivo e à cores, a existência do ser humano e da natureza.

Os povos judeus e palestinos; os povos ucranianos e russos; o povo brasileiro e demais povos do mundo, manterão bem alta suas bandeiras de lutas através de uma reflexão e práxis inovadoras, e conquistaremos a emancipação humana e ambiental.

Por um novo caminhar da humanidade!!!

Emancipação ainda que tardia!!!

A melhor forma de garantir o futuro é criá-lo agora!

Palácio da Abolição, Fortaleza, 20 de junho de 2024

​Crítica Radical.

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