“Por que eles me pedem para colocar um uniforme e ir 10.000 milhas de casa e jogar bombas e balas em pessoas marrons no Vietnã, enquanto os chamados negros em Louisville são tratados como cães?”
Muhammad Ali
Meu caro John Campbell, recuse-se a ir para a guerra, seja herói…
Sim, é provável que você receba uma punição severa por essa recusa, porque o Estado opressor lhe quer presente no moedor de carne da guerra para satisfazer interesses pretensamente “patrióticos…” Mas se você for para a guerra pode ter o destino daquele seu tio, o Douglas Campbell que nunca se livrou das perturbações de veterano da guerra do Iraque e terminou cometendo suicídio, apesar de ter recebido uma condecoração de herói …
Ele sempre perguntava sobressaltado: sou herói de que? De ter matado aquela menina de 8 anos ao explodir uma bomba num bairro de Bagdá???
Sei que você, um afro-estadunidense de 1,94 metros, que desde cedo demonstrou aptidões para o basquete e sonha com a NBA, cuja ancestralidade foi trazida para as Américas para ser escravizada pelo sistema produtor de mercadorias, tem pretensões esportivas, mas os Generais da Academia Militar de West Point preferem ver você jogando granadas contra outro jovem iraniano de sua idade, de nome Mohammad Housseini, que por ter também altura e habilidade sonha em jogar no time de volleyball de Teerã; vocês têm muito em comum, tal como apenas serem felizes com suas respectivas namoradas…
Mas os sonhos de vocês podem ser interrompidos pelas mortes recíprocas, ou seja, pelas mortes de dois jovens que jamais se conheceram e que jamais se conhecerão e que não têm nenhuma animosidade entre si, e que em outras circunstâncias poderiam até ser fraternos amigos… Daí se pode mensurar a bestialidade do que “eles” escolheram para você.
E quem são “eles”? “Eles” se corporificam em pessoas que governam, mas que antes de governarem são governados por uma lógica de poder econômico que se estrutura no poder político que lhe é subserviente.
Alguém escreveu num muro que “o patriota é um idiota”, frase curta de enorme significado, porque, afinal, o mundo é uno e não devia ter fronteiras políticas e econômicas a nos separar. O sub-reptício conceito de “pátria” é uma formulação xenófoba, racista, que antes de refletir identidade cultural reflete supremacismo segregacionismo humano detestável.
Não há nenhum santo nessa história, sejam eles bilionários travestidos de políticos, como o patético genocida Donald Trump, ou um clérigo islamita fundamentalista como Ali Khamenei, que satisfazem os seus egos de poderosos octogenários aptos a interromperem a vida de jovens nos campos de um uma batalha inglória para todos.
“Eles” são comandados por uma lógica abstrata, assassina, subtrativa do esforço humano de modo segregacionista, escravista, irracional do ponto de vista humano (apesar de sua racionalidade matemática funcional insensível, socialmente destrutiva e autodestrutiva da própria forma), moralmente abominável, que tem uma pulsão para a morte… Daí as guerras que nestes mais de duzentos anos de república promoveu genocídios contínuos.
Portanto, meu caro John Campbell, recuse-se a ir para a guerra, seja herói…
Disse Albert Eistein, com razão, que “a guerra é a coisa mais desprezível que existe; prefiro deixar-me assassinar a participar dessa ignomínia”. Compartilho dessa tese exposta pelo homem que previu a possibilidade de extinção da espécie humana a partir de um artefato nuclear para o qual deu decisiva contribuição de existência com a descoberta da enorme energia liberada pela fusão nuclear com a fórmula “E = mc²”.
Hoje existem cerca de 9 países que têm a bomba atômica; são eles Estados Unidos, China, Rússia, Índia, Reino Unido, França, Coreia do Norte, Paquistão e Israel, que em face do alto poder de destruição recíproco o seu uso permanece como carta na manga protecionista para o uso em último caso. Mas não duvidem: seria usada se acaso qualquer desses chegassem a uma situação limite.
É por isso que quem não tem bomba atômica é assediado pelo bullying dos fortões atômicos que querem manter a hegemonia bélica desse fechado clube da morte e possam brincar de bang-bang com mísseis a matar pelo alto populações civis indefesas ou com invasão terrestre nos moldes das antigas cavalarias; uma atrocidade ignominiosa.
Existe coisa mais ridícula do que um exercício de “ordem unida” com soldados a rastejar na lama e subir em esteiras de cordas como preparação para uma invasão terrestre à moda antiga, quando já se sabe que a guerra de movimento (aquela da conquista miliar imediata), é bem mais fácil de obtenção de vitórias circunstanciais do que a guerra de posições, de consolidação do poder político-militar social???
A invasão do Iraque foi sangrenta, mas possível; mas se mostrou impossível a consolidação de poder político-militar numa cultura milenar marcada pelo fundamentalismo religioso; o mesmo ocorreu no Afeganistão e no Vietnam, com os militares escorraçados pelo poder local insubmisso.
Portanto, a invasão do Irã por terra teria custos humanos altíssimos de lado a lado, e seria, ao final, inócua quanto à consolidação de um poder político submisso justamente porque o povo iraniano não aceitaria se submeter a um poder político que lhe fosse estranho.
Os Estados Unidos perderam essa guerra de escolha contra o Irã antes mesmo de começá-la, e apenas estão apressando uma outra guerra muito mais séria: o colapso do sistema financeiro bancário mundial diante de um endividamento público e privado que antes de usar bombas e mísseis, reflete-se na incapacidade funcional de um sistema capitalista que ruma célere para o abismo pela falência dos seus próprios fundamentos.
É por tudo isso, meu caro John Campbell, que lhe afirmamos: recuse-se a ir para a guerra; seja herói.