Carne Fraca: onze reflexões ligeiras sobre uma operação, por Osvaldo Euclides

Primeira: ficou clara para uma grande maioria a evidência de que há espetacularização e espalhafato nas operações policiais. Isso pode indicar uma desproporção entre os fatos e a onda de mídia. Muitas pessoas foram levadas a questionar: por que não faz tudo discretamente?

Segunda: dá pra entender melhor agora como princípios do direito podem ser ou são desrespeitados em algumas dessas operações “especiais”. É o caso da inversão do “prende para investigar”, quando o normal é o “investiga para denunciar, denuncia para acusar, acusa para julgar, julga para condenar, condena para prender”. Sem falar na presunção de inocência.

Terceira: a divulgação sincronizada de toda a imprensa tradicional tem uma força de informação e mobilização imensa, e essa sincronização tem sido a marca dos últimos três anos, indicando que essa sincronização não é casual, nem espontânea, nem eventual, parece um processo planejado e articulado. Essa sincronia é pelo menos estranha.

Quarta: a divulgação das simples investigações produz inevitavelmente efeitos devastadores sobre a imagem de uma marca, de uma empresa ou de uma pessoa, independente dessa marca, empresa ou pessoa ser inocente ou culpada.

Quinta: os assuntos policiais, envolvam eles celebridades, políticos, empresários ou pessoas comuns, possuem uma capacidade monumental de atrair e manter a atenção da sociedade, deixando-a como que com a respiração suspensa, aguardando a conclusão. Como essa conclusão nunca há, a sociedade fica um tanto paralisada, perplexa, a atenção fixa num ponto.

Sexta: os assuntos policiais ganham uma preponderância sobre as questões sociais, econômicas, políticas, institucionais e de princípios e valores. Mas, como os assuntos policiais, aqui e em qualquer lugar do mundo, são apenas capítulos de uma novela sem fim, há uma perda de substância e de qualidade no debate público, nada mais importa, só o próximo capítulo.

Sétima: o olhar policial sobre os fatos, ampliados nos meios de comunicação de massa, costuma vir acompanhado de uma lente de aumento, uma espécie de tom moralista que embaraça a vista da sociedade e a constrange de pensar ou opinar diferente do que propõe a autoridade policial. Quem ousar divergir da visão e da ação da polícia só pode ser mal intencionado ou também criminoso, pode ser condenado, seria algo assim.

Oitava: a ação policial pode ter um efeito devastador sobre a economia, sobre os negócios e sobre os empregos. E tem, imediatamente.

Nona: a operação foi mais agressiva em apenas dois dias, depois recuou, mas os efeitos negativos sobre os negócios do ramo se desenharam gigantescos, assustadores. E não custa registrar que eram empresas grandes, sólidas, saudáveis e que construíram suas imagens com fantásticos investimentos de marketing e propaganda.

Décima: agora você pode imaginar e conceber com nitidez o que aconteceria com uma pessoa, um partido ou um governo que sofresse os efeitos diretos, agressivos e negativos de uma campanha sem trégua de quase três anos.

Décima-primeira: agora você pode imaginar o que poderia estar acontecendo com um país que sofresse uma campanha assim.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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