Capitalista americano (Ford) versus artista mexicano (Rivera)

“No dia 7 de março de 1932, cinco mil trabalhadores desempregados, demitidos pela Ford Motor Company, marcharam através do centro de Detroit para exigir lenitivos. Quando a multidão desarmada chegou ao portão 4 da fábrica River Rounge da companhia, em Dearborn, ocorreram tumultos. Repentinamente, os portões da fábrica se abriram e um grupo de homens de segurança e policiais armados correu para fora e atirou na multidão. Cinco trabalhadores morreram. Dias mais tarde, 60.000 pessoas cantaram o hino A Internacional no seu funeral. O jornal do Partido Comunista acusou Edsel Ford, filho do fundador da companhia, Henry, de permitir o massacre: “Você, um patrono das artes, um pilar da Igreja Episcopal, permaneceu na ponte da fábrica Rouge e viu os trabalhadores serem mortos. Você não levantou uma mão para impedir”. Alguma coisa poderia ser feita para diminuir a possibilidade do que estava começando a parecer como uma situação revolucionária?

Num gesto extraordinário de reconciliação, Edsel Ford apelou para o artista mexicano Diego Rivera, que tinha sido convidado pelo Detroit Institute of Arts para pintar um mural que mostraria a economia de Detroit como um lugar de conciliação, e não de conflito de classes. O lugar escolhido para a obra tinha sido o imponente Garden Court Institute, um espaço que encantara tanto Rivera, que ele propôs pintar não apenas dois dos seus painéis, como tinha sido sugerido originalmente, mas todos os 27. Ford, impressionado pelos trabalhos preliminares de Rivera, concordou em patrocinar todo o trabalho, a um custo de cerca de US$25.000. O trabalho começou em maio de 1932, apenas dois meses depois do confliyo na fábrica River Rouge, e foi terminado por Rivera em março de 1933. Como Ford bem sabia, Rivera era um comunista (embora um trotskista não ortodoxo, que tinha sido expulso do partido no México). Seu ideal era de uma sociedade na qual não haveria propriedade privada, na qual os meios da produção seriam possuídos por todos em comum. Aos olhos de Rivera, a fábrica River Rouge era o oposto: uma sociedade capitalista onde os operários trabalhavam, e os donos da propriedade, que ceifavam as recompensas dos seus esforços, apenas observavam. Rivera também procurou explorar as divisões raciais que eram uma característica notável de Detroit, e tratou antropomorficamente os elementos necessários à produção do aço. Ele mesmo explicou a alegoria:

  • A raça amarela representa a areia, porque é mais numerosa. E a raça vermelha, a primeira neste país, é como o minério de ferro, a primeira coisa necessária para o aço. A raça negra é como o carvão, porque tem um grande senso estético nativo, uma chama verdadeira do sentimento e da beleza em sua antiga escultura, seu ritmo e sua música nativa. Assim, seu senso estético é como o fogo, e sua labuta dura forneceu a dureza que o carbono no carvão dá ao aço. A raça branca é como o cal, não apenas porque é branco, mas porque o cal é o agente que organiza a fabricação do aço. Ele une os outros elementos, e então você vê a raça branca como o grande organizador do mundo. –

Quando os murais foram descobertos em 1933, os dignitários da cidade ficaram estarrecidos. Nas palavras do dr. George H. Derry, presidente do Marygrove College:

  • O “senor” Rivera enganou seu empregador capitalista, Edsel Ford. Rivera estava empenhado em interpretar Detroit; ele impingiu um Manifesto Comunista ao sr. Ford e no museu. O painel-chave, que prende o olho quando se entra na sala, trai o motivo comunista que o anima, e apenas ele já explica o conjunto inteiro. As mlheres de Detroit se sentirão lisonjeadas quando compreenderem que foram personificadas na fêmea com o rosto duro, masculino, assexuado, olhando extaticamente para a esperança e ajuda através do painel para a langorosa e excessivamente sensual irmã asiática à direita?

Um conselheiro da cidade argumentou que cobri-los de branco era bom demais para os painéis, porque a cobertura poderia ser removida no futuro.

(Trecho do livro A ASCENSÃO DO DINHEIRO, de Niall Ferguson, Editora Planeta, 2009).

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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