Capitalismo de bilionários no Ceará

Tão forte e repetitiva é a comunicação em torno do Hidrogênio Verde, que ela começa a alimentar dúvidas, para não falar de desconfiança. É, segundo tais informações, um negócio tão cheio de virtudes e méritos que qualquer ente de juízo começa a cismar.

No começo (e lá se vão anos) anunciava-se como um achado cearense. Verificou-se que mais de uma dúzia de estados diz exatamente a mesma coisa. Até o governo de São Paulo subiu no palco, quer dizer, entrou na disputa.

O que se diz faz tempo: é um negócio rentável, um largo passo estratégico, o futuro sustentável, o mercado é infinito, os desdobramentos incontáveis, a oitava maravilha. Tudo bem, talvez seja, mesmo. Por que não?

O que justifica uma mínima desconfiança, um ligeiro pé atrás, é que nenhum empreendedor partiu na frente e começou a produzir, armazenar e exportar a nova commoditie. Ora, sair na frente e ser o primeiro é a marca do capitalismo.

Por enquanto, só notícia de jornal e muito seminário, muita reunião e algumas consultorias (de projetos logísticos, de viabilidade econômica, de formulação jurídica…). Todo mundo articulando em torno das instâncias de poder público, sobretudo governadores. E muitos “protocolos de intenção”.

Enquanto os empresários não dão os primeiros passos para montar suas plantas industriais, com seus próprios recursos, as notícias vão caminhando na direção mais clara do que significam os muitos bilhões de reais que o negócio requer.

O noticiário indica que os empreendedores esperam que o poder público, usando recursos públicos, tomem “providências”: adaptem e equipem suas estruturas portuárias, realizem todos os estudos preliminares necessários, ofereçam terrenos, garantam a infraestrutura de serviços básicos, ofereçam benefícios tributários, formação de mão de obra, facilidades ambientais e financiamento de bancos públicos, que juntos e misturados representarão os muitos bilhões de “investimento”.

Investimento de quem? Que capitalismo é este?

Um consultor chega a “recomendar” que estados e municípios se comprometam a adaptar suas frotas de veículos e criar redes municipais de comercialização para garantir mercado, e que as universidades públicas criem cultura técnica na área do hidrogênio verde.

Uma coisa começa a clarear: esse “investimento” de centenas de bilhões tende a sair dos cofres públicos.

Então, se assim for, e esperamos estar equivocados, se o capital vem do Estado, se a infraestrutura vem do Estado, se o risco, portanto, é do Estado, porque os possíveis bilhões de lucro vão para particulares?

Se isso, digamos, é realmente inevitável, quem são e como são escolhidos esses “empresários”?

Ah, o noticiário pouco ou nada fala dos ganhos sociais, o que ganha a maioria da população, o que ganha o Ceará além de mais um ou dois bilionários.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.