CANTINHO PARAGRAMATICAL (Ou eu não podia perder a oportunidade)

Quando o sol em pálida ressaca, anêmico, além de solitário, monótono e enfadonho, já iniciando a fase descendente de sua parabólica e cotidiana jornada, ora entronizado em céu desprovido de nuvens e revestido de azul extremamente límpido, no começo de uma tarde domingueira, festiva, fervilhante, barulhenta, preencheu, apesar dos pesares, com seus raios ainda luminescentes, tépidos, toda a área de entorno da piscina de águas transparentes, convidativas e relaxantes, quase todas as pessoas ali acomodadas procuraram, uma após outra, algum tipo de refúgio, afora algumas jovens mulheres ainda propensas a se manterem em banho de sol, menos por causa dos efeitos positivos dessa exposição decorrentes de relações entre a serotonina e o humor, a melatonina e a tranquilidade interior e a vitamina D e o reforço do sistema imunológico, mas muito mais pelo quase visceral desejo de mudança de visual com algum enegrecimento da pele ora exageradamente esbranquiçada, e as crianças, para quem nada, nada mesmo, refreia a energia à prova de exaustão que as mantém permanentemente ativas em brincadeiras, traquinagens e algazarra nas águas em que se banhavam desde cedo, a pele já revelando um leve tom de cinza-claro.

Se algumas senhoras, quase todas mães dos peraltas, sentaram-se em volta da extensa e fornida mesa de madeira, na área coberta do deck, a poucos metros da churrasqueira e fogão à lenha, ambos em pleno funcionamento, e retomaram o empolgante tricotear, agora em áudio alguns decibéis acima do normal, os animados cervejeiros montaram um barzinho bem peculiar sob a fronde de uma generosa e florida goiabeira, ali, onde proliferava a alegria e a conversa descompromissada, nas proximidades do núcleo da célula do lazer.

Enquanto um dos meus genros cuidava, com prazer e com apreço, dos espetos e das panelas, de onde saíam apetitosos regalos para o saboreio dos comensais, eu me envolvia com o cumprimento das múltiplas obrigações confiadas a um eficiente e eficaz gerente de processos, nada que atrapalhasse o sagrado dever de recorrentemente reverenciar Baco, o deus do vinho (no meu caso, da cerveja).

Houve um momento em que fui convidado a comparecer, com a devida urgência, ao barzinho da goiabeira. Imaginei o pior. Em lá chegando, o líder do grupo, sentado à cabeceira da longa e bem servida mesa, dirigiu-me sobriamente (será?!) a palavra:

– Professor, desculpe-nos incomodá-lo, mas surgiu entre nós uma dúvida que acabou se tornando uma aposta. Não vou nomear os apostadores para evitar algum tipo de influência, mesmo já conhecendo o seu jeito de ser.

– E como posso ajudá-los nessa questão, amigos? – Dispensei um amplo e panorâmico olhar, capaz de envolver a todos, certamente à cata de gestos que revelassem a minha aceitação naquela função, o que, afinal, me deixaria bem mais à vontade.

– Nos dizendo qual é o certo perca ou perda? – Complementou o jovem líder. – E, se não for demais pedir, justificando, esclarecendo…

– Ei, você, puxa uma cadeira aí pro…

– Não, não é preciso. Eu prefiro ficar de pé… isso me faz lembrar os meus tempos de sala de aula… Saudades! Bem, amigos! Poxa, falei igual ao inoxidável Galvão… Vasto, amplo é o léxico, o vocabulário em português brasileiro. E ele mais se amplia a cada surgimento de palavra nova, cuja formação se dá por meio de vários processos linguísticos, ou seja, relacionados com a língua em uso. Vocês, que certamente já estiveram em ambientes de estudo, em escolas, já devem ter ouvido falar em prefixação, sufixação… Pois bem. No caso em discussão, que pede o meu esclarecimento, verifica-se um caso de regressão ou variação regressiva, quando um substantivo se origina de um verbo que perde a terminação – AR, ER ou IR – e ganha uma vogal final – A ou O. Assim, dança se origina de dançar, almoço vem de almoçar, cheiro deriva de cheirar

– Então, professor, mato vem de matar? – Interrompeu-me quem estava mais próximo de mim e acompanhava as minhas digressões com muita atenção.

– Não. A palavra derivada tem de manter-se necessariamente no mesmo campo semântico, de sentido, de significado da palavra primitiva. No caso, o substantivo mato não guarda relação de significação com o verbo matar. Como pertencem a campos semânticos distintos, tem ela outra origem. Percebeu?

– Sim, professor. Desculpe a interrupção.

– Que é isso, amigo! Pode intervir quando achar oportuno. Pois bem, senhores! É do verbo perder que, de forma regressiva, surge o substantivo perda. Eis a forma gramaticalmente correta – perda, com “d” –, aceitável na versão padronizada da língua.

– Quer dizer que perca não existe? – Naquela hora, com esse questionamento, do jeito como questionou, o perdedor da aposta se revelou.

– Lógico que existe. – Respondi-lhe. E prossegui na explanação. – É uma das flexões do verbo perder, classificado como irregular porque, já na primeira pessoa, singular, do presente do indicativo, flexiona em perco ou eu perco. Ora, como todo o presente do subjuntivo se forma a partir dessa primeira pessoa, singular, do presente do indicativo, temos que eu perca, que tu percas, que ele perca, e assim por diante. Daí a confusão, que eu costumo chamar de contaminação, ou seja, a existência de uma acaba por contaminar a outra e, assim, induzir ao erro da substituição indevida de uma pela outra, perda  por perca. Entendidos, senhores?

– Sim. Mas perca conosco mais um pouquinho do seu precioso tempo…

– Isso, pra mim, jamais será uma perda… só ganho. Creiam-me.

– O seguinte é este: ouvi recentemente um comentarista de futebol da televisão dizer assim… Calma, gente! Deixem-me lembrar a frase. Peraí. Lembrei-me… Ele disse: O Jorge Jesus ainda não tinha chego no Flamengo e o time quebrava a bola. Isso está certo, professor?

– Não, por conta do verbo chegar usado numa forma inexistente. Eu também já ouvi muita gente boa dizendo essa aberração. Não há essa forma no verbo. O que vemos aí é, a meu ver, mais um caso de contaminação. Explico: há verbos, considerados abundantes porque apresentam dois tipos de particípio, uma de suas três formas nominais que, embora sendo verbo assumem o papel de nome: substantivo (o infinitivo), adjetivo (o particípio) ou advérbio (o gerúndio). No caso do particípio duplo, um tem forma regular, terminando em ADO, EDO ou IDO, e outro reduzida. É o caso, por exemplo, de ganhar com ganhado e ganho, de pagar com pagado e pago, de morrer com morrido e morto. A forma regular se usa após os verbos TER e HAVER, embora ninguém diga Eu tinha pagado a conta, mas Eu tinha pago a conta, nem Eu tinha ganhado o jogo, mas Eu tinha ganho o jogo. Já a forma reduzida é empregada com os verbos SER e ESTAR. A confusão que alguns fazem decorre dessa engenharia, digamos assim. E aí o tinha chegado, forma regular, vira a excrescência do tinha chego, como se houvesse uma forma reduzida, lembrando que o verbo chegar não tem duplo particípio. Ficou claro, amigo?

– Sim, professor. Eu já desconfiava disso.

– Professor, por favor. – O líder da turma, já tendo se desincumbido da nobre tarefa de guardião de apostas, ou seja, fiel depositário do dinheiro alheio sem a menor vocação pra banco, trouxe-me uma questão interessante. – É o seguinte, isso pode até parecer coincidência, mas eu pedi à minha filha, aluna do segundo ano do médio, que anotasse num pedaço de papel um trecho da apostila de Geografia que me causou estranheza, papel esse que estava aqui na minha carteira de cédulas e documentos, o que agora me permite perguntar ao senhor – ou melhor, a você, como gosta de ser tratado – se há alguma coisa errada nisso.

E ele fez um gesto de quem pretendia me passar o pedaço de papel. Eu, então, pedi-lhe que lesse em voz alta. Assim, todos poderiam participar, de alguma forma, do processo. E o rapaz assim o fez:

– “O Brasil é um país populoso, mas não povoado. Isso significa que ocorre uma má distribuição dos seus contingentes populacionais, ou seja, a população brasileira é má distribuída.” Há algo de esquisito nisso, não há, mestre?

– Pelo que pude perceber, há, sim, uma falha no uso da palavra . No primeiro caso, má distribuição, o uso é correto, pois se trata de um substantivo feminino e singular – distribuição – recebendo a qualificação de um adjetivo do quarteto bom, boa; mau, . Isso equivale a, por exemplo, má vontade, má digestão, más companhias. E, como o adjetivo acompanha o substantivo em gênero e número, a construção não merece reparos. Já no segundo caso, má distribuída, ocorre erro de relação por uso indevido de uma determinada classe gramatical. Distribuída é adjetivo ou, melhor dizendo, particípio verbal que, sendo uma das três formas nominais, se adjetiva, passa a exercer o papel de adjetivo; sofre, então, a ação modificadora de um advérbio, do par bem e mal, que é, por natureza, invariável, neutro, sem variações de gênero e número. Assim, o gramaticalmente correto seria mal distribuída. Alguma dúvida?

Silêncio. Ninguém respondeu. E, se quem cala consente…

Eu já me preparava para a despedida, quando a mulher de um deles, que se aproximara do grupo sem que eu percebesse, dizendo ser concurseira, discorreu sobre uma dificuldade clássica na área de atuação da Sintaxe:

– Professor, há situações em que me perco entre o adjunto adnominal e o complemento nominal… eles se parecem muito. Há alguma maneira de facilitar a identificação deles?

– Há, sim. A Sintaxe é a parte da Gramática que cuida das relações estabelecidas entre palavras, termos ou segmentos e orações. O desvendamento das funções que cada um desses elementos exerce no conjunto depende, fundamentalmente, da identificação dessas relações. Quanto às duas funções que lhe causam dúvidas – a você e a muita gente –, claro está que a relação se dá com um nome, daí o nominal, e não com um verbo, caso em que seria verbal. Sigamos, agora, os seguintes passos: 1º) com que nome – substantivo, adjetivo ou advérbio – se dá a relação? 2º) a ligação ocorre através de preposição? Se não, não titubeie: é um adjunto adnominal. 3º) Se sim e a preposição não for de, com certeza, você estará diante de um complemento nominal. 4º) Se a preposição for de e o nome – substantivo – for concreto, não há dúvida que resista, pois o segmento modificador é adjunto adnominal. 5º) Agora, se a preposição for de e o nome – substantivo – for abstrato, a regra é clara: trata-se de um complemento nominal. Como se dizia em Matemática, nos meus idos tempos de estudante: cê-quê-dê ou “como queríamos demonstrar”.

Ela agradeceu, simplesmente. Percebi que houvera me alongado muito. A turma já demonstrava algum enfado. Desculpei-me. Agradeci a todos pela atenção. Despedi-me deles ao som de um pagode clássico, na voz de Zeca Pagodinho: Deixa a vida me levar… Se não tenho tudo que preciso / Com o que eu tenho, eu vivo / De mansinho lá vou eu…

Confesso que o néctar dos deuses agora me pareceu bem mais apurado. Sorvendo-o, na tranquilidade de uma rede armada no alpendre, absorto, sem recolher nada do que as mulheres discutiam com fervor, muito menos do que as crianças tagarelavam, senti as caraminholas em pleno descanso, sossegadas. E a minha imaginação voou para além, muito além do que os meus olhos pudessem enxergar. Viver pode até ser perigoso, mas também é por demais prazeroso.

 

“Quanto ao professor de português (isto é, de gramática normativa, como é o caso no Brasil), seu conhecimento, por maior que seja, de uma única forma de utilização da língua – a norma escrita literária formal conservadora veiculada pela Gramática Tradicional – não lhe permite emitir pareceres cientificamente embasados acerca de todos os fenômenos que caracterizam a linguagem humana, sua estrutura complexa e seus múltiplos usos.” (Marcos Bagno, em Dramática da língua portuguesa – tradição gramatical, mídia & exclusão social. São Paulo: Edições Loyola, 2000; pág. 101)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.