Cadê o trilhão que estava aqui?

O economista Paulo Guedes foi um dos brasileiros mais poderosos da história como ministro da Economia. E a tal ponto que em vez de se falar em plano de desenvolvimento para o país, todos apenas se referiam à “Agenda do Guedes”, que, aliás, nunca foi divulgada. Durante quatro anos, ele teve carta branca para comprar, vender, contratar, financiar, privatizar, conceder, enfim, negociar coisa graúda. Ele obteve esse salvo-conduto amplo, geral e irrestrito do presidente eleito em 2018 (Jair Bolsonaro, mandato 2019-2022), e o exerceu do primeiro ao último dia dos quatro anos. Aliás, antes ainda de começar o mandato, ele foi a New York e, num evento prestigiadíssimo por homens de negócio, mandou um aviso aos navegantes, equivalente a: “Vamos privatizar tudo, até o Palácio do Planalto. A gente vende e passa a pagar aluguel”. Traduzindo: a lojinha está aberta, fazemos qualquer negócio. E o presidente confirmava a seu modo: “não entendo nada de economia, fala com o Posto Ipiranga”.

Negócios gigantescos foram fechados, uns mais, outros menos discretamente, uns baratos, outros baratíssimos, ninguém sabe os termos reais. Pense rápido: quanto vale o controle sobre uma empresa da dimensão da Eletrobrás? Ou a BR-Distribuidora, que transporta o diesel e a gasolina Brasil adentro? Ou aquela que é dona dos dutos que transportam gás? E uma refinaria de petróleo toda montada e completa?…O próprio Paulo Guedes estimou em um trilhão de reais os negócios iniciais. Será o caso de perguntar “cadê o trilhão que estava aqui”?

O legado desse período é desconhecido. A atenção do distinto público foi foi desviada para o besteirol das redes sociais, para o ódio indiscriminado e para espalhar o medo dos “comunistas”. A grande imprensa fez questão de não ver nada, sempre tratando a privatização como algo meritório em si, ignorou até um parecer do Tribunal de Contas da União apontando um “erro” de sessenta e sete bilhões de reais na avaliação da Eletrobrás. Responda rápido: quanto vale a Eletrobrás? 200 bilhões? 400 bilhões? Responda também: de dólares ou de reais?

Essas e outras transações feitas à sombra do “discurso liberal” infantil compõem o legado do então presidente e seu ministro da economia. E na sombra é provável que fiquem. A sociedade civil não conhece esses eventos, e a imprensa grande não quer ou não pode tratar deles. O parlamento finge que não é com ele.

O novo governo talvez não tenha a força e a coragem necessárias para jogar luz sobre tais negócios e enfrentar dois poderes reais da república, a imprensa e o centrão, que aprovaram ou apoiaram as “tenebrosas transações”. E os dois mandam recados e mensagens sobre o tema quase diariamente: ‘não mexam nisso, não falem disso’.

A “agenda do Guedes” tinha semelhanças e diferenças com a “ponte para o futuro” (o não-plano do presidente Michel Temer, 2016-2018) e dava a ela continuidade.

E não adianta falar ou escrever sobre isso. Silêncio, é o que há a fazer sobre a ponte e a agenda.

Contabilizem os lucros e perdas de uns e de outros e do país. E esqueçam!

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

Mais do autor

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.