Buracos negros e crédito, por PEDRO HENRIQUE

Um leigo lendo sobre buracos negros… um fenômeno aparentemente intransponível donde nem a velocidade da luz – até onde me é possível saber, a unidade de medida das demais em seus 300.000 km/s – consegue ultrapassar seu campo gravitacional, sua senda no espaço-tempo; enigma da esfinge cósmica que talvez carregue consigo a possibilidade de reencontro entre a física de partículas (macânica quântica) e o macrocosmo (relatividade geral), haja visto que em seu interior habita uma quantidade enorme de massa numa quantidade ínfima de espaço; fenômeno análogo à própria “origem” do universo conhecido, observável, em seus 15 bilhões de anos – o universo numa casquinha de noz, numa lasquinha de nós, como dizia o falecido que tratava da origem desse mesmo  universo usando apenas suas piscadelas de olhos. DeGrasse Tyson nos conta:

 

  1. “(…) buracos negros são regiões do espaço em que a gravidade é tão elevada que o tecido do espaço e tempo se dobra sobre si mesmo, levando junto as portas de saída” (A morte no buraco negro).

 

Parece existir um buraco negro na história. Ainda não percebemos, mas parece não haver força social afirmativa em seu interior. O mecanismo do crédito carrega consigo este sintoma e se apresenta a nós, econômico-financeira e socialmente falando, como a grande bolha de endividamento da humanidade, uma espécie de Bezerro de Ouro, ou de Baal a cobrar sacrifícios a uma humanidade que já consumiu todo o possível mais-valor do século XXI para tentar manter funcionando o seu presente perpétuo:

  1. “Se partimos do pressuposto de que o movimento das ações tem por conteúdo expectativas futuras na economia real, então os Estados Unidos já teriam capitalizado de antemão todo o crescimento do século 21: a economia atual do planeta só seria sustentada por intermédio do futuro antecipado dos Estados Unidos. (…) não existe mais futuro, porque sua substância foi consumida para a manutenção do presente capitalista. A liquidez com que, desde meados dos anos 90, os Estados Unidos aqueceram a economia mundial não pode mais manter em vida o conjunto da humanidade no próximo século sem lhe obstar as funções vitais” (KURZ, Com todo vapor ao colapso, [Capitalismo nas estrelas], p. 190).

 

  1. “Na forma de dinheiro capitalizado, abre-se um voraz buraco negro que engole a matéria, a sensação, o mundo e a realidade com crescente velocidade” (KURZ, Identidade Zero).

 

Parece que iremos a sacrifício enquanto a dívida não for perdoada e a dádiva, ao invés do dinheiro, não tornar-se a “moeda de troca” entre os “homens”. O paradigma é outro. O reino da necessidade, que produz esse estado de natureza social, de dependência e exclusão é uma falácia. Abundância, criatura, abundância é o que temos à porta do paraíso e, no entanto, as frutas se nos escapam por ignorância, medo, violência, concorrência, imposição. Oh! Bartleby! Oh! Humanidade!

 

[Nota apócrifa: Fortalhellcity]

 

Todo começo de ano tem acirramento entre Estado e crime organizado. Esse ano (2019) foi mais intenso, mandaram parar tudo nos bairros, dinamitaram, mataram. Fortaleza é uma rota da seda para a Europa, à beiradinha com dois portos e altas infraestruturas. O crime organizado migrou do centro SP/Rio e encontrou aqui um mercado em disputa. Entramos na história universal na forma da catástrofe, com mais mortes do que no Afeganistão, com Blietzkrieg bop do crime e Estado com secretário Robocop e tudo. Aqui é o próprio barroco, céu litorâneo e inferno urbano com aglomerados de gente nas periferias.

Pedro Henrique

Pedro Henrique

Mestre em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Terapeuta Holístico em formação pelo espaço Ekobé.

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