BRINCANDO COM A LITERATURA 3 – PEQUENAS NOTAS SOBRE O CONTO “A ROUPA NOVA DO REI”, DE HANS CHRISTIAN ANDERSEN

Recomendo que veja o filme “A Roupa Nova do Rei”, ou leia, ou releia, O Conto “A Roupa Nova do Rei”, de Hans Christian Andersen, nascido em 1805 e falecido em 1875, escritor e poeta dinamarquês, que escreveu Contos famosos, muito conhecidos, como, dentre outros: “O Patinho Feio”, “O Soldadinho de Chumbo”, “A Pequena Sereia”, “A Polegarzinha”. O Conto “A Roupa Nova do Rei” traz uma estória muito simples, mas que não é, como muitos pensam, só uma estória infantil. Na verdade, é, sim, um Conto de Literatura Infanto-Juvenil, uma estória simples, mas genial, cheia de sabedoria, da qual podemos tirar lições valiosas para a nossa alma, se prestarmos devida atenção a esse Conto maravilhoso.

Para mim, as questões fundamentais nesse lindo Conto são: 1. A vaidade, representada na figura do rei, do imperador, que se gaba de sua vaidade e tem como prioridade a aparência externa, preocupado tão-somente em vestir roupas novas, da moda, e elegantes acima de qualquer coisa; 2. a mentira, que é escondida por trás de trajes, de mantos, mas que devemos pô-la a nu, para termos a verdade, para conhecermos melhor a nós mesmos, os outros e a sociedade: essa mentira, é representada, por um lado, pelos dois ladrões, os dois falsos alfaiates, que cobram uma fortuna ao rei para costurarem uma roupa nova para ele, e que só as pessoas inteligentes poderiam vê-la, apreciá-la, e, por outro, também essa mentira é visível entre os ministros do rei e a população que aplaudem e fingem ver “a roupa bela” do rei, que, na verdade, não existe, só para agradarem-lhe e não passarem por burras, incompetentes, estúpidas. E 3., mas, para pôr a mentira a nu, para expor a sua nudez, para descobrir o que estava coberto, para termos a verdade, requer a pureza, a inocência, a sinceridade e a coragem que as crianças têm, quando falam e pensam, sem “filtros”, sem muito artifícios, sem máscaras, que nós adultos adquirimos no decorrer do tempo e não queremos ou não sabemos como se livrar dessas mentiras, que passam a fazer parte de todos nós. É a criança quem expõe a nu a mentira e a denuncia, gritando, na sua integridade, na sua simplicidade: o rei está nu, o rei está nu, o rei está nu!!!

Vejamos alguns pontos que acho importantes no Conto “A Roupa Nova do Rei”:

  1. É necessário registrar a importância desse escritor, considerado “o pai” da Literatura Infanto-Juvenil, pois, devido à sua contribuição para a Literatura, a data do Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil é no dia do seu nascimento, 2 de abril, e o Prêmio Internacional de Literatura Infanto-Juvenil tem como homenagem o nome “Prêmio Hans Christian Andersen”.
  2. Para mim, a sabedoria está nas pessoas e nas coisas simples, como nesse Conto “A Roupa Nova do Rei”;
  3. A NOBRE MENTIRA: Em que consiste a Mentira? Pode-se dizer que a mentira é, em geral, o nome dado às afirmações ou às negações ditas por alguém falsamente. É lícito mentir? Existe alguma circunstância em que a mentira é necessária, boa, e pode evitar um mal maior? Mas, mentir é contra os padrões morais? Mentir é um “pecado moral”? Mentir é permissível? Quando mentimos para diminuir um conflito, essa mentira, mesmo sendo mentira, é positiva? Então, podemos mentir? Mentir para melhorar, é certa essa mentira? E, quando mentimos para tirar proveito, essa mentira é negativa? Então, não podemos mentir? Mentir para piorar, é má essa mentira? Toleramos a mentira, por que tiramos dela proveito e evitamos conflitos? Quando mentimos para ter vantagens, essa mentira é negativa? E, quando mentimos para um outro ter vantagem, é essa mentira positiva? Para Kant, a mentira não é ética, não é boa, pois não podemos universalizá-la, visto que, se todos nós mentirmos, não haverá comunicabilidade entre nós. Penso que não podemos dizer, de forma imediata, abstrata, abstraindo do contexto, das circunstâncias do momento, se a mentira é ruim ou boa, se é um mal ou um bem, se é aceitável ou inaceitável. Acredito que há circunstância, em que a mentira pode ser necessária, positiva. Portanto, a mentira não é em si um mal, pois ela pode ser, dependendo das circunstâncias, também necessária, ser um bem, ser justa;
  4. No campo da política moderna e contemporânea, em que a política é uma atividade voltada para a posse do poder, apoiado pela dissimulação, pelo engodo, pelo simulacro, muitos políticos contam com a mentira, o engano, o teatro, a farsa, para não porem a nu as suas verdadeiras intenções, os seus verdadeiros interesses, privados, que se distanciam, nitidamente, dos interesses públicos. Aqui, no Brasil, muitos acreditam nas mentiras dos políticos, das fake news do desgoverno Bolsonaro, tomando-as como verdadeiras, como, por exemplo: que ele é “o Mito”, é “o Messias”, ”o Escolhido”, “o Mensageiro”, que vai “salvar” o Brasil, e que não há fome no Brasil, que o trabalhador tem direito demais, que não há racismo, que não há machismo, que não existiu escravidão no Brasil, que não houve ditadura militar etc., etc., etc… Mas, o que vemos, no Brasil atual, são perdas significativas para o mundo do trabalho, piores condições para a educação, para a saúde, para as condições de trabalho e de vida dos mais pobres, e o aumento dos privilégios dos mais ricos. Com essas absurdidades, fundadas na ineficiência e na estupidez do desgoverno Bolsonaro, fica claro, para quem quiser ver, que esse desgoverno é uma mentira, um disfarce, uma enganação; que essas “verdades” do atual desgoverno são mentiras, que ele está nu, descoberto, faltando só nós, a população, percebermos isto e termos coragem de denunciar e gritar, como fê-lo a inocente criança desse Conto: que o rei está nu, que Bolsonaro está nu, despido, mostrando-se quem ele é e o que ele representa no Brasil;
  5. No campo religioso, não todos, mas muitos religiosos mentem, escondem sua nudez, dissimulam que exploram os fiéis, que são preconceituosos, machistas, homofóbicos, ou seja, mentem para não vermos a nu uma outra vida que eles têm, que contradiz às suas vidas, tomadas só nas palavras vazias, nos discursos abstratos, nos altares das igrejas católicas, ou nos palanques das assembleias evangélicas;
  6. No campo das relações familiares, nas relações de amizade, de trabalho, e nas relações sócias, muitas vezes, prevalecem a mentira, a inautenticidade das pessoas nessas relações; relações mascaradas pela mentira, para esconder nossa nudez, e, embora muitos percebam, não têm coragem de revelar essa nossa nudez;
  7. Todos nós, de uma certa forma, vivemos abraçados com a mentira, temos um pacto até a morte de inseparabilidade dela, pois não sabemos viver sem ela; todos nós não só nos vestimos com a mentira, mas nos apresentamos constantemente revestidos por ela; todos nós andamos com máscaras invisíveis, enfeitados com mentiras, que nos embelezam, para fazermos de conta que somos o que não somos, e muitos sabem que mentimos, que “filtramos” o que vemos e dizemos, que usamos máscaras, mas fingem não verem nossas mentiras e, por conveniência e interesse, não põem a nu nossas mentiras e não revelam, na verdade, o que somos;
  8. ALGUMAS PASSAGENS DO CONTO “A ROUPA NOVA DO REI”:

_“havia um Imperador tão apaixonado pelas roupas novas, que gastava com elas todo o dinheiro que possuía”;

_“Tinha um traje para cada hora do dia”;

_“Na capital em que ele vivia, (…), chegaram dois vigaristas. Fingiram-se de tecelões, dizendo-se capazes de tecer os tecidos mais maravilhosos do mundo;

_“os trajes que se faziam com aqueles tecidos possuíam a qualidade especial de serem invisíveis para qualquer pessoa que não tivesse as qualidades necessárias para desempenhar suas funções e também que fossem muito tolas e presunçosas”;

_“pensou o Imperador: – E se eu vestisse um deles, poderia descobrir todos aqueles que em meu reino carecessem das qualidades necessárias para desempenhar seus cargos. E também poderei distinguir os tolos dos inteligentes”;

_“Entregou a um dos tecelões uma grande quantia como adiantamento, a fim de que os dois pudessem começar imediatamente com o esperado trabalho”;

_“Os dois vigaristas (…) fingiram entregar-se ao trabalho de tecer (…) Antes de começar, pediram uma certa quantidade da seda mais fina e fio de ouro da maior pureza…”;

_“O rei gostaria de ver como andava o trabalho de confecção de sua roupa, mas “ficou um tanto aflito ao pensar que alguém que fosse tolo ou não estivesse capacitado para exercer sua função, não poderia ver o tecido.” No temor, “achou mais prudente enviar uma outra pessoa, para que lhe desse conta daquilo”;

_“O rei envia o ministro mais capacitado”, o ministro da cultura e ciência”, para ver como anda o trabalho do seu traje”;

_“Esse ministro foi lá, olhou o tear, mas não vi nada, porque não havia nada para ver. Mas, com receio de ser chamado de burro, não disse nada;

_Como o ministro não via nada, pensou: “Deus meu! – Será possível que eu seja tão tolo assim? (…). É preciso que ninguém o saiba.  (…) 0 melhor será fingir que estou vendo o tecido”;

_“A seguir os dois vigaristas pediram mais dinheiro, mais seda e mais fio de ouro, para que pudessem prosseguir com o trabalho”, que, na verdade, nada faziam;

_“Ali está algo realmente encantador, disse mais tarde ao Imperador, quando prestou contas de sua visita. Por sua vez, o Imperador achou que devia ir ver o famoso tecido, enquanto ainda estivesse no tear”;

-Diante do tear vazio, disse o Rei para si mesmo: “- Mas o que é isto? – Não estou vendo nada! (…) Serei um tolo? Não terei capacidade para ser Imperador?”;

_E o Rei disse: “- É realmente uma beleza! -0 tecido merece a minha melhor aprovação”;

_”Os elogios corriam de boca em boca e todos estavam entusiasmados. E o Imperador condecorou os dois vigaristas com a ordem dos cavaleiros”, concedendo-lhes o título de Cavaleiros Tecelões”;

_O Rei “vestiu” no vazio a roupa nova, que nada era, e saiu, juntamente com os seus ministros, para fora de seu castelo, numa procissão”;

_ E “todos os que estavam nas ruas e nas janelas exclamaram:- Como está bem vestido o Imperador!”

_Mas, de repente, uma criança inocente disse: “Vejam, vejam: O Rei esqueceu de pôr a roupa. O Rei está nu”!!!;

_ Imediatamente, o povo começou a gritar: o Rei está nu:

_ “Foi o que bastou para todo o povo reconhecer a verdade e cair na gargalhada”.

 

Por: Prof. PhD. Eduardo Chagas (UFC/CNPq).

 

Eduardo Chagas

Eduardo Chagas possui Graduação em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará (1989), Mestrado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (1993) , Doutorado em Filosofia pela Universität Kassel (Alemanha) (2002) e Pós-Doutorado em Filosofia pela Universität Munster (Alemanha) (2018-2019). É professor efetivo (Associado 4) do Curso de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Ceará - UFC, professor do Programa de Mestrado Profissional em Filosofia (PROF-FILO) e professor Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da FACED - UFC. Atualmente, é Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq (PQ nível 2); é Editor da Revista Dialectus (http://www.revistadialectus.ufc.br/index.php/RevistaDialectus/about/editorialPolicies#sectionPolicies). E dedica suas pesquisas ao estudo da filosofia política, da filosofia de Hegel, do idealismo alemão e de seus críticos, Feuerbach, Marx, Adorno e Habermas. Outras informações acesse a homepage: www.efchagas.wordpress.com. É membro da Internationale Gesellschaft der Feuerbach-Forscher (Sociedade Internacional Feuerbach).

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