Brasil, grandeza e pequenez

“Se mal com ela, ruim sem ela.”  

 

Marechal Deodoro da Fonseca, o protagonista da Proclamação da República, 63 dias antes do 15 de novembro. 

 

Definitivamente somos grandes; mas ainda temos o complexo de vira latas do qual nos falava Nelson Rodrigues. 

É claro que pela nossa magnitude territorial continental; por sermos grandes detentores e exportadores de commodities (minérios e alimentos); e pela nossa população (temos a metade dos habitantes da América do Sul e Central), já seríamos naturalmente grandes.  

É por isto que em 1964, no auge da guerra fria, os Estados Unidos mandaram para a costa brasileira um arsenal bélico de prontidão de fazer inveja ao plutocrata russo que agora está parecendo ser apenas um leão velho e desdentado a rugir. 

 Os marines estadunidenses estavam estacionados no mar continental a uma distância próxima do Espírito Santo prontos para apoiar o golpe que os militares brasileiros premeditavam e que eles também planejavam com a Operação Condor para a América do Sul, caso fosse necessário.  

  Os Estados Unidos, baseados em análises equivocadas dos seus informantes diplomáticos e na própria fanfarronice do Luiz Carlos Prestes, temia que por aqui se repetisse o que houvera ocorrido com Cuba. Depois constataram que bastaria um cabo e um soldado para derrubar Jango, como diria o bolsomino zero à esquerda!  

O Brasil tem uma tradição militarista na política e tal característica é um traço cultural de nossa pequenez bananeira. Somos o único país do mundo que derrubou a monarquia pela direita, com militares apoiados pela elite agrária e política (não é por menos que fomos dos últimos a abolir a escravidão humana direta feudal que substituiu a escravidão indireta do trabalho abstrato capitalista).   

A conservadora velha República “café com leite” de São Paulo e Minas Gerais se revezando no poder político era tutelada pelos militares, até que, em 1930, após a quebra do pacto e a eleição de Júlio Prestes, o tenentismo resolveu tomar o poder fardado e entronizar Getúlio Vargas, derrotado, na Presidência da República.  

 

  

tenentismo getulista e a “revolução” de 1930 

O getulismo tenentista logo demonstrou ser simpatizante do fascismo italiano e de suas leis trabalhistas, e durou 15 anos, até que os ventos da segunda guerra mundial e a lembrança da renitente barganha do ditador brasileiro em aderir aos aliados na primeira hora, fez com que os Estados Unidos apoiassem a deposição de Getúlio noi pós-guerra e promovessem uma eleição com dois militares e de modo a que tudo ficasse em casa.  

Terminada a guerra, Getúlio foi deposto à brasileira, ou seja, apoiou eleitoralmente quem o depusera do poder, e foi eleito o General Eurico Gaspar Dutra.  

 

Dutra, em 1945 elegemos mais um militar 

Como a memória populista de Getúlio Vargas ainda estivesse presente como “pai dos pobres”, veio o processo eleitoral e a sua vitória em 1950 com nova tentativa de golpe em 1954, abortada pelo seu suicídio com um tiro no peito. Dez anos após, estava na presidência um trabalhista getulista, Jango Goulart, e as condições conjunturais da guerra fria propiciaram um novo golpe militar que durou 21 anos.   

 

O Congresso sitiado pela ditadura… 

A história é incontestável; temos uma tradição militarista de poder, e isto é o que nos assemelha com as repúblicas bananeiras latino-americanas como aspecto da nossa pequenez político-institucional-democrática, e em contraste com a nossa grandeza natural (material e cultural).  

 

 

Os generais presidentes dos 21 anos da ditadura militar  

Dentre os nossos presidentes, dez deles foram membros das Forças Armadas, mas desses, apenas três chegaram ao cargo eleitos por sufrágio universal: Hermes da Fonseca, em 1910; Eurico Gaspar Dutra, em 1946; e Jair Bolsonaro, em 2018.  

Este introito deve servir como moldura para dizer que, apesar da nossa história de tutela militar, seja exercendo diretamente o poder, ou influenciando o dirigente, o momento é de convergência para o respeito ao estado democrático de direito, e concordo com o Jânio de Freitas (do alto dos seus 90 anos de vida e 67 como articulista de jornais) quando ele diz que “a hora do golpe passou”, mas acrescento: momentaneamente. 

Para haver um golpe militar e a deposição de um presidente eleito, há que se ter, hoje, pelo menos seis elementos básicos, quais sejam: 

– apoio decidido dos donos do PIB brasileiro e internacional; 

– apoio popular, mesmo que fruto de uma manipulação da eterna insatisfação coletiva como forma de conter as agruras a que é submetido seu povo pela elite política, agrária e religiosa; 

– apoio da chamada intelligentsia brasileira (formadores de opinião da intelectualidade, como academias, artistas, escritores, mídia jornalística da televisão e rádio); 

– predominância informativa dos internautas de direita da mídia eletrônica, hoje representando um novo poder midiático; 

– apoio institucional majoritário dos membros do poder legislativo e judiciário; 

– apoio político internacional.  

Nenhum destes pressupostos estão hoje presentes. 

Convenhamos que em 1918, diante da avassaladora transmissão midiática dos atos judiciais de Curitiba e outros menos votados, que tornaram públicas as tradicionais maracutaias com o dinheiro dito público no Brasil, e com a maciça adesão de desavisados embandeirados de verde-amarelo nas grandes manifestações (lembram-se da figura de plástico inflado com a imagem do Sérgio Morro como super-homem e do pato da Fiesp?), o golpe se deu pelo voto.  

 

   ícones ideológicos 

Temos hoje um governo recheado de militares em postos chaves, mas impossibilitados de mantar o arbítrio pela força, ou seja, fechar o Congresso e amordaçar o poder judiciário, estabelecendo a censura aos meios de comunicação, e vendendo a ideia de que acabou a corrupção e que o ruim é bom. 

É que sob o voto popular ficam vivas as salvaguardas institucionais do estado democrático de direito burguês, e isto tolhe o arbítrio na sua tentativa de manipulação das consciências.  

Então… O golpe flopou. 

De resto ficaram evidenciados os males do capital em fim de feira, quais sejam: 

– desemprego estrutural renitente; 

– inflação que corrói salários já corroídos pela dinâmica do capital no seu estágio de contradição inconciliável entre forma e conteúdo; 

– concentração de renda excludente e cada vez mais vertical; 

– bate-cabeça dos poderes instituídos; 

– manipulação do orçamento público, em parte tornado secreto; 

– insatisfação popular crescente; 

– aumento da criminalidade com proliferação de milícias e do crime organizado, diante da importância do Estado em prender, julgar e condenar criminosos produzidos em série; 

– quebradeira empresarial com aumento do número de falências; 

– lojas frechadas que não reabrem; 

– aumento da informalidade do trabalho como forma de sobrevivência; 

– redução de direitos trabalhistas e previdenciários, como sendo um mal que vem para o bem (pode???); 

– aumento das favelas em face da incapacidade de aquisição de um casa com infraestrutura urbana digna; 

– poluição urbana e aquecimento atmosférico; 

– serviço de transporte urbano caro e ruim que remete os trabalhadores ao sofrimento de veículos superlotados; 

– recorde mundial de mortes por covid19 na relação de mortes por habitante; 

– devastação ambiental da Amazônia; 

–  aumento do analfabetismo; 

– aumento da fome (como a nossa reinclusão no mapa da fome);  

 

UFA!!!! 

 

Diante desse quadro não há governante que ganhe a reeleição;  

– não há elite que segure a onda com seus dísticos patrióticos coloridos de verde-amarelo;  

– e não há força militar que se aventure em dar um golpe de Estado.  

Os problemas nos remetem para 2023, quando todas estas mazelas sociais estarão renitentemente presentes, e num mundo em recessão econômica expressa na redução drástica do crescimento do PIB mundial e pela inflação agora presente até em países outrora tidos como equilibrados economicamente. 

Golpe??? Nem a pau, Juvenal!!! 

Dalton Rosado. 

 

 

 

 

 

 

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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