Bolsonaro triunfou no bolsonarismo, por EMANUEL FREITAS

Nos últimos dias, inúmeras análises foram publicadas acerca dos seis primeiros meses do governo de Jair Bolsonaro (PSL). À estas junto a minha, a qual o leitor tem diante de si.

Antes de tudo, lembremos que a eleição de Bolsonaro deveu-se a uma série de elementos, dos quais podemos destacar: o antipetismo, a utilização das redes sociais (sobretudo por meio das fake news), o sentimento da antipolítica produzido pela Lava-Jato, o apoio dos segmentos religiosos (sobretudo pentecostais, seja católicos ou evangélicos), o apoio entusiasmado do grande Capital (setor produtivo e, sobretudo, financeiro), as forças de segurança pública e as Forças Armadas, dentre outros.

Vários destes elementos foram contemplados no Governo. O financeiro, com o Posto Ipiranga Guedes, já antes mesmo da campanha; os militares, com Mourão. Depois veio Moro. Em seguida, os fanáticos do antiglobalismo, do olavismo e do pentecostalismo.

Os primeiros meses de Governo pareciam apontar para um certo freio dos militares (“salvaguardando” a institucionalidade, como criam certos “analistas”, freando arroubos do presidente e de seus filhos) nas empreitadas de Jair. Mourão era a “aposta segura” dos “crentes” na moderação de Jair. O vice virou vedete, mas logo perdeu o brilho. Com ele, outros militares também perderiam a força dentro da equipe; alguns deixariam o governo, não sem antes sofrerem sucessivos enquadramentos do clã.

Paulo Guedes, o homem do Capital, também iniciou o Governo como “razão esclarecedora”, aquele que traria/manteria a confiança do Mercado, sobretudo com a grande aposta na Reforma “radical” da previdência. Não apenas viu seu chefe desdenhar daquela enviada ao Parlamento como a defender a manutenção de privilégios de corporações da Reforma a ser votada. Caso seja aprovada, será uma reforma bem tímida, nem mesmo contemplando a tal da capitalização. Teve de ver a execração pública de Joaquim Levi sem levantar a voz, logo ele, tão agressivo quando contrariado. A “razão” mercadológica que o  trouxe ao Governo cedeu lugar, várias vezes, à boa e velha política. Que bom.

Sergio Moro, umbral da moralidade pública e grande certeza de 2022, viu-se no embaraço de ocupar, por duas vezes, o lugar de inquirido no Parlamento, depois dos vazamentos iniciados pelo The Intercept, o que pode revelar ainda outros fatos. Vai sendo derrotado pela “política” que ajudou a desconstruir. Encolheu no Governo e, como Guedes e Mourão, é refém do bolsonarismo. Antes disso, Moro rodou, rodou, e não viu seu chefe defender, enfaticamente e até o fim, a permanência do COAF em sua pasta.

Bolsonaro “marchou” para Jesus, sem precisar da ministra evangélica, Damares Alves; antes disso já havia escanteado o irmão Magno Malta, das mãos e dos lábios de quem viu sua vitória e seu governo ser “entregue” ao Altíssimo.

Comprou briga com a Câmara e vai levando a melhor, pois Maia incorporou a defesa da Reforma, que dará os louros a Jair. Vamos ver como Maia fará essa separação entre a reforma e o presidente.

Os ministros que seguem “tranquilos” em suas pastas são aqueles que mais incorporaram o ideário do chefe: Araújo, Sales e Heleno.

Quem viu o ministro Fux, que será o próximo presidente do STF, falar no evento da XP Investimentos, semana passada, não teve dúvida: é um bolsonarista (ou bolsominion?) de carteirinha.

Assim sendo, se posso inscrever-me entre aqueles que apresentaram uma análise que vale a pena ser lida, faço-a nos seguintes termos: Bolsonaro triunfou sobre os diversos elementos que lhe garantiram a eleição e formataram o seu governo. “Agora é que é ele”, posso dizer.  Abrigado na sombra de outros no início do mandato, o presidente agora oferece-se a si mesmo para os homens ao seu redor.

Talvez, como diziam seus seguidores já bem antes da campanha, seja o caso de falar aos “grandes” que o cercam (Moro, Mourão, Guedes etc): “é melhor jair se acostumando”.

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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